Edição 1 641 - 22/3/2000

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A Paulicéia dividida

"No Rio, o populismo se esquerdizou, em São Paulo
não.
O janismo, de antes e depois do regime militar,
o adhemarismo e o malufismo têm
a mesma linhagem"

Quem for eleitor em São Paulo e tiver uma orientação, digamos, de centro esquerda pode escolher entre duas pré-candidaturas, pois ambas atendem ao seu perfil político. Mas quem for do centro mais conservador está em situação complicada. A única candidatura com chance é a de Paulo Maluf. Se o eleitor estiver desgostoso com sua conduta pública, depois de tantos escândalos, agora reeditados pela desavença conjugal na corte municipal, ele não terá seu apoio. No centro liberal as alternativas andam anêmicas. O eleitor desse espectro político não gosta de desperdiçar o voto e teme favorecer quem julga indesejável. Acaba no voto útil: sem preferência, opta por evitar a eleição de quem não gosta.

Marta Suplicy, pelo PT, e Luiza Erundina, pelo PSB, dividem um eleitorado significativo e são competitivas. Com o outro lado sem opção real ou rachado, a esquerda faz a maioria. Foi assim que Erundina se tornou prefeita. O PT tem raízes no que resta de operariado urbano-manufatureiro na capital paulista, no funcionalismo e na classe média, composta por profissionais de nível superior do setor público. Erundina tem espaço entre os que não simpatizam com o PT nesses setores sociais e consegue boa acolhida em áreas de influência da esquerda católica. A parte da classe média privada que tem orientação liberal-progressista tende a apoiar uma das duas, na ausência de opção social-democrática convincente. A esquerda transita pelos grupos despossuídos e menos organizados da sociedade paulistana pela via dos movimentos sociais, mas nem sempre consegue ser majoritária entre eles.

É entre esses últimos que viceja o populismo paulistano. Ele é primo, no Rio de Janeiro, do chaguismo, de Chagas Freitas, e do brizolismo, de Leonel Brizola. No Rio, o populismo se esquerdizou, em São Paulo não. O janismo, de antes e depois do regime militar, o adhemarismo e o malufismo têm a mesma linhagem. O eleitor janista típico, identificado na crônica da época com o da "Vila Maria", dava a Jânio Quadros o favoritismo que o fazia mais atraente para a maioria dos setores que não são de esquerda. O voto promovia essa aliança contraditória entre o topo e a base da sociedade paulistana. A classe média, dividida sociológica e ideologicamente, não consegue ser a força eleitoral determinante, por isso adere às candidaturas de maior peso na base social organizada, à esquerda, ou desorganizada, à direita. Os candidatos mais próximos dos valores da classe média ascendente, de corte mais social-democrático ou liberal-conservador, ficam em situação muito difícil.

Se o voto populista fica à deriva, a tendência é que ele se distribua entre as mais disparatadas candidaturas, por razões religiosas, simpatias difusas ou por influência da própria campanha. Pode virar voto volante. Os candidatos à esquerda são incentivados a se mover mais ao centro, em busca do apoio desse pedaço órfão da classe média, onde a competição é menor. Nas classes populares desorganizadas todos irão pescar ao mesmo tempo.

Marta Suplicy e Luiza Erundina são, até agora, as únicas em condições de conquistar esse eleitor sem candidato. A primeira, por ser originária da classe média alta, conhece seus valores e seu discurso. Mas sofre maiores restrições partidárias para fazer essa aproximação. Erundina entrou na classe média pela política. Sua experiência lhe deu recursos para persuadir esses setores e ela não sofre constrangimento partidário.

Fora de uma aliança pela esquerda os social-democratas podem não ter um caminho viável, embora sejam os mais próximos das novas classes médias e de seus setores mais antigos de centro. Encontrariam barreiras ao voto popular pela esquerda. Tampouco é visível uma personalidade capaz de assumir a liderança populista e Maluf jamais conseguiria fazer, novamente, o que fez com Pitta. São Paulo caminha para uma aliança ampla e heterogênea, construída mais pelo eleitor do que pelas lideranças. Claro, outubro ainda está muito longe. Mas, a persistir o quadro de hoje, esse é o cenário mais provável.

Sérgio Abranches é cientista político