A Paulicéia dividida
"No Rio, o populismo
se esquerdizou, em São Paulo
não. O janismo, de antes e
depois do regime militar,
o adhemarismo e o malufismo têm a
mesma linhagem"
Quem for eleitor em
São Paulo e tiver uma orientação, digamos,
de centro esquerda pode escolher entre duas pré-candidaturas,
pois ambas atendem ao seu perfil político. Mas quem
for do centro mais conservador está em situação
complicada. A única candidatura com chance é
a de Paulo Maluf. Se o eleitor estiver desgostoso com sua
conduta pública, depois de tantos escândalos,
agora reeditados pela desavença conjugal na corte
municipal, ele não terá seu apoio. No centro
liberal as alternativas andam anêmicas. O eleitor
desse espectro político não gosta de desperdiçar
o voto e teme favorecer quem julga indesejável. Acaba
no voto útil: sem preferência, opta por evitar
a eleição de quem não gosta.
Marta Suplicy, pelo
PT, e Luiza Erundina, pelo PSB, dividem um eleitorado significativo
e são competitivas. Com o outro lado sem opção
real ou rachado, a esquerda faz a maioria. Foi assim que
Erundina se tornou prefeita. O PT tem raízes no que
resta de operariado urbano-manufatureiro na capital paulista,
no funcionalismo e na classe média, composta por
profissionais de nível superior do setor público.
Erundina tem espaço entre os que não simpatizam
com o PT nesses setores sociais e consegue boa acolhida
em áreas de influência da esquerda católica.
A parte da classe média privada que tem orientação
liberal-progressista tende a apoiar uma das duas, na ausência
de opção social-democrática convincente.
A esquerda transita pelos grupos despossuídos e menos
organizados da sociedade paulistana pela via dos movimentos
sociais, mas nem sempre consegue ser majoritária
entre eles.
É entre esses
últimos que viceja o populismo paulistano. Ele é
primo, no Rio de Janeiro, do chaguismo, de Chagas Freitas,
e do brizolismo, de Leonel Brizola. No Rio, o populismo
se esquerdizou, em São Paulo não. O janismo,
de antes e depois do regime militar, o adhemarismo e o malufismo
têm a mesma linhagem. O eleitor janista típico,
identificado na crônica da época com o da "Vila
Maria", dava a Jânio Quadros o favoritismo que o fazia
mais atraente para a maioria dos setores que não
são de esquerda. O voto promovia essa aliança
contraditória entre o topo e a base da sociedade
paulistana. A classe média, dividida sociológica
e ideologicamente, não consegue ser a força
eleitoral determinante, por isso adere às candidaturas
de maior peso na base social organizada, à esquerda,
ou desorganizada, à direita. Os candidatos mais próximos
dos valores da classe média ascendente, de corte
mais social-democrático ou liberal-conservador, ficam
em situação muito difícil.
Se o voto populista
fica à deriva, a tendência é que ele
se distribua entre as mais disparatadas candidaturas, por
razões religiosas, simpatias difusas ou por influência
da própria campanha. Pode virar voto volante. Os
candidatos à esquerda são incentivados a se
mover mais ao centro, em busca do apoio desse pedaço
órfão da classe média, onde a competição
é menor. Nas classes populares desorganizadas todos
irão pescar ao mesmo tempo.
Marta Suplicy e Luiza
Erundina são, até agora, as únicas
em condições de conquistar esse eleitor sem
candidato. A primeira, por ser originária da classe
média alta, conhece seus valores e seu discurso.
Mas sofre maiores restrições partidárias
para fazer essa aproximação. Erundina entrou
na classe média pela política. Sua experiência
lhe deu recursos para persuadir esses setores e ela não
sofre constrangimento partidário.
Fora de uma aliança
pela esquerda os social-democratas podem não ter
um caminho viável, embora sejam os mais próximos
das novas classes médias e de seus setores mais antigos
de centro. Encontrariam barreiras ao voto popular pela esquerda.
Tampouco é visível uma personalidade capaz
de assumir a liderança populista e Maluf jamais conseguiria
fazer, novamente, o que fez com Pitta. São Paulo
caminha para uma aliança ampla e heterogênea,
construída mais pelo eleitor do que pelas lideranças.
Claro, outubro ainda está muito longe. Mas, a persistir
o quadro de hoje, esse é o cenário mais provável.
Sérgio
Abranches é cientista político