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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Grande
Sertão: Veredas aos 50 anos
Para lembrar o livro de Guimarães Rosa, lançado
em 1956, com a palavra Riobaldo, o narrador da história
Sobre Deus: "Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá
esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.
Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida
é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não
se podendo facilitar é todos contra os acasos. Tendo Deus, é
menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo."
Sobre o diabo: "Olhe, o que devia de haver era de se
reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas,
fecharem o definitivo a noção proclamar por uma vez, artes
assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não
pode. Valor de lei! Só assim davam tranqüilidade boa à gente.
Por que o Governo não cuida?" Sobre Deus
e o diabo: "(...) o diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro.
Ah, uma beleza de traiçoeiro dá gosto! A força dele,
quando quer moço! me dá o medo pavor. Deus vem vindo:
ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho
assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza."
Sobre o sentido da vida (ou falta de): "Em desde aquele
tempo, eu já achava que a vida da gente vai em erros, como um relato sem
pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria." Idem:
"(...) existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa
viver e essa pauta cada um tem mas a gente mesmo, no comum, não
sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar,
e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos
ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia,
e a cada hora, só uma ação possível da gente é
que consegue ser a certa." Sobre ensinar/aprender:
"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende..."
Idem: 'Vivendo, se aprende; mas o que se
aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas."
Sobre entender/não entender as coisas: "Ah,
o que eu não entendo, isso é que é capaz de me matar."
Idem: "Conto minha vida, que não entendi."
Sobre o conceito de "vida", como um todo: "'Vida' é
noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei
duma idéia falsa. Cada dia é um dia." Sobre
acontecimentos: "Agora eu sei como tudo é: as coisas que acontecem,
é porque já estavam ficadas prontas (...)" Sobre
a necessidade de clareza: "Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor
sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que
dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do
bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados..."
Sobre certezas: "O que juro, o que sei, é que
tucano tem papo." Sobre lugares que mudam de
nome: "Todos os nomes eles vão alterando. É em senhas. São
Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e o Bagre
não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que podem remover
uns nomes assim? O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já
nasceu devia de estar sagrado. Lá como quem diz: então alguém
havia de renegar o nome de Belém de Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no
presépio, como Nossa Senhora e São José? Precisava de se
ter mais travação. Senhor sabe: Deus é definitivamente; o
demo é o contrário Dele..." Sobre
pobres: "Pobre tem de ter um triste amor à honestidade."
Sobre o amor: "Qualquer amor já é um
pouquinho de saúde, um descanso na loucura." Sobre
o amor a Diadorim: "E digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim:
que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma eu nunca tive vontade de rir dele."
Sobre raiva: "(...) a gente carece de fingir
às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter.
Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se
autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia
e o sentir da gente: o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato
é." Sobre a alegria de mandar: "Ali
naqu'ela horinha meu senhor foi que eu lambi idéia de como
às vezes devia de ser bom ter grande poder de mandar em todos, fazer a
massa do mundo rodar e cumprir os desejos bons da gente." Idem:
"Aonde eu ia, todos achavam natural. Chefe é chefe. Será que eles
não sabiam que eu não sabia aonde ia?" Sobre
coisas espantosas: "Ave, já vi tudo, neste mundo! Já vi até
cavalo com soluço..." |