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Livros Machado
não merecia Os muitos erros da
nova biografia do escritor Lançado
no fim do ano passado pela Imprensa Oficial de São Paulo, Machado de
Assis Um Gênio Brasileiro, do jornalista paulista Daniel Piza,
deveria ser uma novidade auspiciosa nas livrarias. Afinal, a obra de Machado de
Assis (1839-1908), o maior dos escritores brasileiros, tem sido objeto de muitos
estudos críticos recentes, mas a última biografia do autor foi publicada
em 1981 por Raimundo Magalhães Júnior. A leitura dos especialistas,
contudo, demonstra que o livro está repleto de erros. Ele falha no requisito
primordial de uma obra de referência: a informação confiável.
"Tudo o que há de bom na biografia
de Piza já se encontrava em Magalhães Júnior. O resto são
erros factuais e ilações indevidas", disse o crítico Wilson
Martins a VEJA. Em sua coluna no Jornal do Brasil, Martins fez um breve
inventário de equívocos do livro, que inclui aberrações
históricas (por exemplo, a informação de que o brasileiro
José Bonifácio era português, ou de que o padre Feijó
foi tutor de dom Pedro II) e análises delirantes dos nomes próprios
de personagens machadianos (Piza diz, por exemplo, que o Palha, de Quincas
Borba, é "quase Pulha"). Antes do artigo de Martins, o escritor e professor
de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Luís Augusto
Fischer já havia apontado problemas semelhantes no jornal Zero Hora.
O entrudo é transformado em festa de salão, e não de
rua, enredos como o do conto O Alienista são resumidos de maneira
equivocada e um personagem de Dom Casmurro, José Dias, o agregado
que adora usar superlativos, é rebatizado como João.
Piza parece ter acreditado sobretudo nos próprios dotes críticos
para compor Um Gênio Brasileiro a narrativa da vida do escritor
é entremeada com análises de suas principais obras. Um livro como
esse, porém, não é somente um veículo para o biógrafo
ventilar opiniões sobre o biografado. Ele deve ser uma fonte de dados confiáveis.
O desprezo pela precisão ou pela simples revisão de nomes,
conceitos e datas torna o livro imprestável. Como poderia dizer
José (e jamais João) Dias, é um pecado gravíssimo.
Pisadas na bola
Alguns deslizes de Machado de Assis Um Gênio Brasileiro
• Comparando Bentinho, de Dom Casmurro,
ao Otelo de Shakespeare, o biógrafo diz que o personagem de Machado de
Assis "morreu e matou por ciúme". Bentinho não mata nem morre no
livro • A biografia diz que
dom João VI transformou o Brasil em vice-reino em 1808, quando o país
já tinha esse status desde o século anterior
• O presidente Deodoro da Fonseca é chamado de "Marechal de Ferro", apelido
que na verdade pertence a seu sucessor, Floriano Peixoto
• O brasileiro José Bonifácio, político
do império e "patriarca da Independência", é identificado
como um "intelectual português" | | |