Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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Entrevista: John Casablancas
A fera das belas

O "inventor" de Naomi Campbell
e Linda Evangelista está de volta ao
mundo das modelos – tremam, meninas


Bel Moherdaui

 

Roberto Setton

"Com o que fiz, o cachê das modelos subiu, e elas ganharam a possibilidade não só de ser ricas, mas de ser muito, muito ricas"

John Casablancas é perfeitamente equipado para sobreviver no ambiente de vaidades exacerbadas da moda e das modelos: tem uma excelente opinião sobre si próprio. Mesmo assim, passou cinco anos fora do circuito. Agora, aos 63 anos, há treze casado com a jovem brasileira Aline (uma união à qual ninguém daria mais de seis meses de sobrevida), o fundador e ex-diretor da agência Elite prepara sua volta: financiado por um grupo do Leste Europeu, fechou sociedade com duas pequenas agências brasileiras e planeja reeditar os tempos de glória em que lançou estrelas como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Claudia Schiffer e Gisele Bündchen (esta, inimiga mortal depois que trocou de agência). Nova-iorquino de família catalã, com casas no Rio de Janeiro, em Miami e em Ibiza, Casablancas mostra nesta entrevista a VEJA que continua ferino: sobrou para as modelos jovens demais ("É uma tortura conversar com elas"), sobrou para as mães das modelos (brasileiras) e, claro, sobrou para Gisele.  

Veja – O que é uma modelo perfeita?
Casablancas – A grande modelo é aquela que tem características próprias, não é parecida com nenhuma outra. A Linda Evangelista, por exemplo, tinha o gênio do ângulo fotográfico. Ela podia pegar o pior fotógrafo do mundo, com a pior luz, e conseguia achar o único lugar em que a luz estava boa, posicionar-se e corrigir o fotógrafo. Outras simplesmente são muito bonitas, como a Cindy Crawford. A Gisele é extraordinária como modelo. Ela tem um senso fantástico do corpo, de movimento, de timing. Em alguns momentos, ela é sensacional.  

Veja – Só em alguns momentos?
Casablancas – Ela não é uma grande beleza. Tem o rosto um pouco angular, falta um pouco de traseiro, falta cintura. Mas ela sabe se mexer de forma a criar uma curva que dá a impressão de que tem tudo. Muitas coisas que eram imperfeitas ela corrigiu.

Veja – Como?
Casablancas – Acho que algum retoque ela fez. O peito, que todo mundo comenta, não sei – cresceu muito rápido. Mas isso acontece com muitas meninas de 14, 15 anos. A linha do nariz pode ter tido um leve retoque ou afinou com a idade, o que também é possível.  

Veja – Muita gente acha que modelos famosas ganham dinheiro demais pelo que fazem (andar, parar, fazer expressões exageradas para a câmera). Qual o retorno comercial que elas dão?
Casablancas – É enorme a diferença que existe entre uma modelo boa e uma ruim, principalmente se considerarmos que a modelo representa só 5% ou 10% de todo o orçamento de uma campanha (no qual estão incluídos também fotógrafo, maquiador, roupa e, principalmente, a compra do espaço para divulgação). Uma boa modelo é capaz de render o dobro ou o triplo de uma modelo ruim. Se além de boa for bonita, é acerto garantido. A força econômica da mulher bonita é enorme. Ela vende muito mais do que mulher feia. Já ouvi muita reclamação de marca que pega a menina com cara estranha da capa da Vogue e depois se queixa de que a venda da coleção caiu 30%. Na temporada seguinte, pega uma atriz de cinema gostosa e triplica as vendas.  

Veja – Qual, na sua opinião, foi a mulher mais bela de todos os tempos?
Casablancas – Tenho algumas favoritas. Rita Hayworth, sem dúvida. Ava Gardner foi uma perfeição. Das modelos, acho que as gerações passadas tiveram como grande expoente Jean Shrimpton, que inspirou Antonioni a fazer Blow Up. Como beleza clássica, escolheria Christy Turlington.  

Veja – O que é que a modelo brasileira tem?
Casablancas – A brasileira, mesmo quando é feia, é charmosa. Pegue uma brasileira mais ou menos e uma inglesa mais ou menos. Com a inglesa você não quer nem trocar telefone; já a brasileira você vai pelo menos paquerar um pouquinho. Ela tem essa mistura de atrevimento pagão com conservadorismo cristão. É um combate entre uma certa modéstia e um atrevimento, uma liberdade sexual e uma certa timidez, aquilo que faz com que ela use fio-dental mas não faça topless na praia. Profissionalmente, para a moda, isso é muito bom. E a liberdade sexual da brasileira é legendária. Tenho vários amigos que gostam de sair com modelos e acham a brasileira a mais difícil de todas. Por uma razão muito simples: ela está sempre namorando. A não ser que você consiga fisgá-la entre dois namorados, ela vai estar apaixonada. Apaixonada mesmo. As brasileiras brigam, são ciumentas.

Veja – Qual foi exatamente sua contribuição para a construção do mito das supermodelos?
Casablancas – Fui em grande parte responsável pela glamourização da profissão. Com o que fiz, o cachê das modelos subiu, e elas ganharam a possibilidade não só de ser ricas, mas de ser muito, muito ricas. As minhas duas últimas foram Gisele e Heidi Klum. Foi ao constatar esse buraco que existe agora que resolvi voltar à ativa. Antes de entrar no mercado, certifiquei-me de que poderia contar com um instrumento que acho essencial: o concurso. Eu sou o rei do concurso, adoro concurso. Todas as tops brasileiras vieram dos meus concursos: Isabeli Fontana, Caroline Ribeiro, Ana Beatriz, a própria Gisele.  

Veja – O senhor vai voltar a lidar diretamente com as modelos?
Casablancas – Não tenho mais paciência. Hoje, a pior coisa que você pode fazer quando uma modelo está zangada é me chamar. Eu me irrito tanto que ela é capaz de sair da agência. Mas, se ela quiser traçar um plano de carreira, acho que a minha participação pode ser muito importante. Meu olho continua sendo de primeira.  

Veja – Mãe de modelo faz jus à fama?
Casablancas – Eu tenho uma reputação horrível com mãe de modelo. Dizem que sou famoso por odiar as mães brasileiras. Não é verdade. Mas algumas acham que entendem tudo e, para valorizar seu apoio, têm de diminuir a agência. Lá fora, os agentes ficam aterrorizados com as mães brasileiras. Se entre vinte meninas de 16 anos tem cinco brasileiras, pode contar que tem cinco mães junto.  

Veja – A motivação econômica é a única que move tantas famílias brasileiras a empurrar suas filhas para ser modelos?
Casablancas – Por parte da modelo, a fama é muito mais importante do que o dinheiro. Já para a família é uma oportunidade incrível de sair da miséria. Tem também o orgulho de ver a filha, ou a namorada, a irmã, na capa da revista. O interessante é que, sem dúvida, a carreira da modelo é um motor para toda a família. Apesar de eu reclamar tanto da mãe brasileira, é um jogo justo. Ela realmente se sacrifica pela carreira da filha, que, em geral, retribui na mesma proporção. A grande maioria das modelos brasileiras faz muito pela família quando começa a ganhar dinheiro.  

Veja – Uma sobrevivente da era das supermodels, Kate Moss, foi flagrada em vídeo cheirando cocaína. Perdeu contratos, mas já se recuperou. Como foi possível?
Casablancas – As pessoas que selecionam modelos para os trabalhos também usam cocaína. Estou dizendo que todo mundo da moda usa cocaína? Não. Tem alguns que usam, e os que não usam não dão importância a isso. Faz parte desse mundo ser gay, usar cocaína, fumar maconha, ter três amantes. Ninguém vai condenar ninguém por isso.  

Veja – Como é o assédio às modelos?
Casablancas – A sensualidade é um elemento essencial da moda. Sempre que inclui uma roupa transparente em um desfile, o estilista põe a modelo nua por baixo, porque o choque sexual provoca o impulso de compra. O ambiente é muito sensual, há muita gente jovem, com muitos hormônios em funcionamento, e as modelos muitas vezes querem ser sedutoras, provocam um pouco mais.  

Veja – As agências dizem que as protegem. Como?
Casablancas – Em geral, a proteção da modelo é excelente. Sempre que há um fotógrafo francamente abusado, que realmente bota a mão, é boicotado pelas agências. Sei de muitas carreiras que foram arruinadas porque ninguém mais mandava modelos para trabalhar com eles. E, no fundo, os grandes fotógrafos não precisam disso, porque muitas modelos se jogam em cima deles. Não por serem safadas, mas porque acham que estão se jogando nos braços de um deus. O fotógrafo faz uma imagem incrível delas e elas ficam apaixonadas pelo fotógrafo.  

Veja – No caso do programa da BBC que mostrou Gérald Marie, seu ex-sócio em Paris, oferecendo dinheiro para dormir com uma candidata a modelo, foi ou não foi assédio?
Casablancas – Foi tudo uma montagem, uma utilização abusiva de palavras e discussões impróprias e de mentiras. Qualquer menina que já participou do Elite Model Look sabe que durante os dias do concurso o que há de mais insuportável é nunca estarem sozinhas. Passam o dia e a noite em grupos, com guardas armados. Ele ofereceu dinheiro a uma jornalista, que estava em uma boate de prostitutas, em Milão. Ela não era do concurso nem se passou por candidata, até porque era muito mais velha, tinha 25 anos – uma avó, em comparação. Mas você ver o diretor da Elite Paris, um cretino, fazer a proposta e também contar vantagem, dizendo que vai levar umas meninas para o iate de um amigo e fazer uma festinha, é chocante. Eu mandei todo mundo embora e pedi que se afastassem enquanto se apurava. Se tivessem feito o que eu falei, teria sido apurado que o programa era uma montagem. Não fizeram e eu saí por causa disso. Não houve nenhum ato no documentário que tivesse colocado as meninas em risco. Agora, que o cara é um cafajeste, isso é verdade.  

Veja – O senhor é trinta anos mais velho que sua mulher, a quem conheceu num concurso de modelos. Confiaria sua filha, ou neta, de 13, 14 anos, a um homem assim?
Casablancas – Não. Não confiaria porque sou completamente contrário ao começo de carreira nessa idade. Modelo de 13 ou 14 anos é só custo e dor de cabeça. Das 100 modelos que trabalham bem, 80% não estão na agência onde começaram. Houve um trouxa que pagou tudo, toda a formação, e outro muito menos trouxa que aproveitou. Hoje em dia, digo que não quero mais falar com modelos porque, quando falo com uma de 14 anos, ela não entende. Não que seja burra; simplesmente não entende o vocabulário, as analogias. Para mim, é uma tortura. Só que, se for esperar que elas façam 16 anos, não vou achar mais ninguém. Agora, para responder a sua pergunta: eu comecei a sair com a Aline quando ela me declarou que não queria ser modelo. Ela é crente, duas vezes mais madura do que eu. No amor não há regras.  

Veja – Qual o destino natural das modelos quando a carreira termina?
Casablancas – Muitas ficam cansadas do que fazem e, apesar de ainda poderem ganhar 500 000 dólares por ano, preferem trabalhar em áreas em que ganham muito menos. Isso acontece com 60% delas. Cerca de 30% passam a trabalhar com pessoas que conhecem: editoras de moda, estilistas, fotógrafos de publicidade. E por volta de 10% gostam mesmo é de estar na frente das câmeras e por isso viram atrizes, apresentadoras, representantes de produtos ou marcas.  

Veja – Já não está na hora de superar sua bronca com Gisele?
Casablancas – Ela me deu uma punhalada nas costas como eu nunca levei. Na sexta-feira anterior à sua saída, estávamos batendo papo, amigos. A Gisele foi realmente a maior surpresa da minha vida profissional. E olhe que eu sou veterano, roubei muitas modelos e muitas me foram roubadas. Essa me incomoda até hoje. Você acredita que eu tive de dar emprego à irmã da Gisele, Patrícia, porque ela não queria pagar o custo de manter a moça em Nova York? Ela veio e disse que outra agência estava chamando a irmã dela e propondo pagar 400 dólares por semana. Era uma chantagem. Eu contratei, claro.  

Veja – O que ela fazia?
Casablancas – Acompanhava as modelos nos compromissos. Sem falar inglês nem conhecer Nova York. É o que eu chamo de extorsão.  

Veja – O senhor teve essa briga com a Gisele, já brigou com a Naomi. Quem é mais difícil: elas ou John Casablancas?
Casablancas – Gosto da Naomi. Já brigamos, fizemos as pazes. Ela é muito explosiva, insuportável, generosa, carinhosa, egocêntrica. É um ser humano cheio de paixão. Já a Gisele tem esse lado frio, germânico, que me incomoda muito. Calculista. Nunca fala mal nem bem. Dá aquelas entrevistas insuportáveis, em que fala do cachorro, da mãe, aquele vazio total.  

Veja – Criticar a Gisele não é uma forma de se promover à custa dela?
Casablancas – Sem dúvida. Se tem uma coisa que aprendi é que as coisas um pouco ácidas, sarcásticas, viram notícia. Corro o risco de às vezes dizerem que é dor-de-cotovelo. Lógico, é mesmo. Uma dor tremenda, milhares de dores-de-cotovelo. Principalmente por ela nunca ter reconhecido o grande trabalho que fiz por ela. Se a Gisele fizesse isso, eu parava de criticar.

 
 
 
 
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