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Entrevista:
John Casablancas A
fera das belas O "inventor" de Naomi
Campbell e Linda Evangelista está de volta ao mundo das modelos
tremam, meninas  Bel
Moherdaui
Roberto Setton
 | "Com
o que fiz, o cachê das modelos subiu, e elas ganharam a possibilidade não só de
ser ricas, mas de ser muito, muito ricas" | |
John Casablancas é perfeitamente equipado para sobreviver no ambiente de
vaidades exacerbadas da moda e das modelos: tem uma excelente opinião sobre
si próprio. Mesmo assim, passou cinco anos fora do circuito. Agora, aos
63 anos, há treze casado com a jovem brasileira Aline (uma união
à qual ninguém daria mais de seis meses de sobrevida), o fundador
e ex-diretor da agência Elite prepara sua volta: financiado por um grupo
do Leste Europeu, fechou sociedade com duas pequenas agências brasileiras
e planeja reeditar os tempos de glória em que lançou estrelas como
Naomi Campbell, Linda Evangelista, Claudia Schiffer e Gisele Bündchen (esta,
inimiga mortal depois que trocou de agência). Nova-iorquino de família
catalã, com casas no Rio de Janeiro, em Miami e em Ibiza, Casablancas mostra
nesta entrevista a VEJA que continua ferino: sobrou para as modelos jovens demais
("É uma tortura conversar com elas"), sobrou para as mães das modelos
(brasileiras) e, claro, sobrou para Gisele. Veja
O que é uma modelo perfeita? Casablancas
A grande modelo é aquela que tem características próprias,
não é parecida com nenhuma outra. A Linda Evangelista, por exemplo,
tinha o gênio do ângulo fotográfico. Ela podia pegar o pior
fotógrafo do mundo, com a pior luz, e conseguia achar o único lugar
em que a luz estava boa, posicionar-se e corrigir o fotógrafo. Outras simplesmente
são muito bonitas, como a Cindy Crawford. A Gisele é extraordinária
como modelo. Ela tem um senso fantástico do corpo, de movimento, de timing.
Em alguns momentos, ela é sensacional. Veja
Só em alguns momentos? Casablancas
Ela não é uma grande beleza. Tem o rosto um pouco angular, falta
um pouco de traseiro, falta cintura. Mas ela sabe se mexer de forma a criar uma
curva que dá a impressão de que tem tudo. Muitas coisas que eram
imperfeitas ela corrigiu. Veja
Como? Casablancas Acho que algum retoque ela
fez. O peito, que todo mundo comenta, não sei cresceu muito rápido.
Mas isso acontece com muitas meninas de 14, 15 anos. A linha do nariz pode ter
tido um leve retoque ou afinou com a idade, o que também é possível.
Veja Muita
gente acha que modelos famosas ganham dinheiro demais pelo que fazem (andar, parar,
fazer expressões exageradas para a câmera). Qual o retorno comercial
que elas dão? Casablancas É enorme a diferença
que existe entre uma modelo boa e uma ruim, principalmente se considerarmos que
a modelo representa só 5% ou 10% de todo o orçamento de uma campanha
(no qual estão incluídos também fotógrafo, maquiador,
roupa e, principalmente, a compra do espaço para divulgação).
Uma boa modelo é capaz de render o dobro ou o triplo de uma modelo ruim.
Se além de boa for bonita, é acerto garantido. A força econômica
da mulher bonita é enorme. Ela vende muito mais do que mulher feia. Já
ouvi muita reclamação de marca que pega a menina com cara estranha
da capa da Vogue e depois se queixa de que a venda da coleção
caiu 30%. Na temporada seguinte, pega uma atriz de cinema gostosa e triplica as
vendas. Veja
Qual, na sua opinião, foi a mulher mais bela de todos os tempos?
Casablancas Tenho algumas favoritas. Rita Hayworth, sem dúvida.
Ava Gardner foi uma perfeição. Das modelos, acho que as gerações
passadas tiveram como grande expoente Jean Shrimpton, que inspirou Antonioni a
fazer Blow Up. Como beleza clássica, escolheria Christy Turlington.
Veja O que
é que a modelo brasileira tem? Casablancas A brasileira,
mesmo quando é feia, é charmosa. Pegue uma brasileira mais ou menos
e uma inglesa mais ou menos. Com a inglesa você não quer nem trocar
telefone; já a brasileira você vai pelo menos paquerar um pouquinho.
Ela tem essa mistura de atrevimento pagão com conservadorismo cristão.
É um combate entre uma certa modéstia e um atrevimento, uma liberdade
sexual e uma certa timidez, aquilo que faz com que ela use fio-dental mas não
faça topless na praia. Profissionalmente, para a moda, isso é muito
bom. E a liberdade sexual da brasileira é legendária. Tenho vários
amigos que gostam de sair com modelos e acham a brasileira a mais difícil
de todas. Por uma razão muito simples: ela está sempre namorando.
A não ser que você consiga fisgá-la entre dois namorados,
ela vai estar apaixonada. Apaixonada mesmo. As brasileiras brigam, são
ciumentas. Veja Qual
foi exatamente sua contribuição para a construção
do mito das supermodelos? Casablancas Fui em grande parte
responsável pela glamourização da profissão. Com o
que fiz, o cachê das modelos subiu, e elas ganharam a possibilidade não
só de ser ricas, mas de ser muito, muito ricas. As minhas duas últimas
foram Gisele e Heidi Klum. Foi ao constatar esse buraco que existe agora que resolvi
voltar à ativa. Antes de entrar no mercado, certifiquei-me de que poderia
contar com um instrumento que acho essencial: o concurso. Eu sou o rei do concurso,
adoro concurso. Todas as tops brasileiras vieram dos meus concursos: Isabeli Fontana,
Caroline Ribeiro, Ana Beatriz, a própria Gisele.
Veja O senhor vai voltar a lidar diretamente
com as modelos? Casablancas Não tenho mais paciência.
Hoje, a pior coisa que você pode fazer quando uma modelo está zangada
é me chamar. Eu me irrito tanto que ela é capaz de sair da agência.
Mas, se ela quiser traçar um plano de carreira, acho que a minha participação
pode ser muito importante. Meu olho continua sendo de primeira.
Veja Mãe de modelo faz jus à
fama? Casablancas Eu tenho uma reputação
horrível com mãe de modelo. Dizem que sou famoso por odiar as mães
brasileiras. Não é verdade. Mas algumas acham que entendem tudo
e, para valorizar seu apoio, têm de diminuir a agência. Lá
fora, os agentes ficam aterrorizados com as mães brasileiras. Se entre
vinte meninas de 16 anos tem cinco brasileiras, pode contar que tem cinco mães
junto. Veja A
motivação econômica é a única que move tantas
famílias brasileiras a empurrar suas filhas para ser modelos? Casablancas
Por parte da modelo, a fama é muito mais importante do que
o dinheiro. Já para a família é uma oportunidade incrível
de sair da miséria. Tem também o orgulho de ver a filha, ou a namorada,
a irmã, na capa da revista. O interessante é que, sem dúvida,
a carreira da modelo é um motor para toda a família. Apesar de eu
reclamar tanto da mãe brasileira, é um jogo justo. Ela realmente
se sacrifica pela carreira da filha, que, em geral, retribui na mesma proporção.
A grande maioria das modelos brasileiras faz muito pela família quando
começa a ganhar dinheiro. Veja
Uma sobrevivente da era das supermodels, Kate Moss, foi flagrada
em vídeo cheirando cocaína. Perdeu contratos, mas já se recuperou.
Como foi possível? Casablancas As pessoas que selecionam
modelos para os trabalhos também usam cocaína. Estou dizendo que
todo mundo da moda usa cocaína? Não. Tem alguns que usam, e os que
não usam não dão importância a isso. Faz parte desse
mundo ser gay, usar cocaína, fumar maconha, ter três amantes. Ninguém
vai condenar ninguém por isso. Veja
Como é o assédio às modelos? Casablancas
A sensualidade é um elemento essencial da moda. Sempre que
inclui uma roupa transparente em um desfile, o estilista põe a modelo nua
por baixo, porque o choque sexual provoca o impulso de compra. O ambiente é
muito sensual, há muita gente jovem, com muitos hormônios em funcionamento,
e as modelos muitas vezes querem ser sedutoras, provocam um pouco mais.
Veja As agências
dizem que as protegem. Como? Casablancas Em geral, a proteção
da modelo é excelente. Sempre que há um fotógrafo francamente
abusado, que realmente bota a mão, é boicotado pelas agências.
Sei de muitas carreiras que foram arruinadas porque ninguém mais mandava
modelos para trabalhar com eles. E, no fundo, os grandes fotógrafos não
precisam disso, porque muitas modelos se jogam em cima deles. Não por serem
safadas, mas porque acham que estão se jogando nos braços de um
deus. O fotógrafo faz uma imagem incrível delas e elas ficam apaixonadas
pelo fotógrafo. Veja
No caso do programa da BBC que mostrou Gérald Marie, seu
ex-sócio em Paris, oferecendo dinheiro para dormir com uma candidata a
modelo, foi ou não foi assédio? Casablancas
Foi tudo uma montagem, uma utilização abusiva de palavras e discussões
impróprias e de mentiras. Qualquer menina que já participou do Elite
Model Look sabe que durante os dias do concurso o que há de mais insuportável
é nunca estarem sozinhas. Passam o dia e a noite em grupos, com guardas
armados. Ele ofereceu dinheiro a uma jornalista, que estava em uma boate de prostitutas,
em Milão. Ela não era do concurso nem se passou por candidata, até
porque era muito mais velha, tinha 25 anos uma avó, em comparação.
Mas você ver o diretor da Elite Paris, um cretino, fazer a proposta e também
contar vantagem, dizendo que vai levar umas meninas para o iate de um amigo e
fazer uma festinha, é chocante. Eu mandei todo mundo embora e pedi que
se afastassem enquanto se apurava. Se tivessem feito o que eu falei, teria sido
apurado que o programa era uma montagem. Não fizeram e eu saí por
causa disso. Não houve nenhum ato no documentário que tivesse colocado
as meninas em risco. Agora, que o cara é um cafajeste, isso é verdade.
Veja O senhor
é trinta anos mais velho que sua mulher, a quem conheceu num concurso de
modelos. Confiaria sua filha, ou neta, de 13, 14 anos, a um homem assim? Casablancas
Não. Não confiaria porque sou completamente contrário
ao começo de carreira nessa idade. Modelo de 13 ou 14 anos é só
custo e dor de cabeça. Das 100 modelos que trabalham bem, 80% não
estão na agência onde começaram. Houve um trouxa que pagou
tudo, toda a formação, e outro muito menos trouxa que aproveitou.
Hoje em dia, digo que não quero mais falar com modelos porque, quando falo
com uma de 14 anos, ela não entende. Não que seja burra; simplesmente
não entende o vocabulário, as analogias. Para mim, é uma
tortura. Só que, se for esperar que elas façam 16 anos, não
vou achar mais ninguém. Agora, para responder a sua pergunta: eu comecei
a sair com a Aline quando ela me declarou que não queria ser modelo. Ela
é crente, duas vezes mais madura do que eu. No amor não há
regras. Veja
Qual o destino natural das modelos quando a carreira termina? Casablancas
Muitas ficam cansadas do que fazem e, apesar de ainda poderem ganhar
500 000 dólares por ano, preferem trabalhar em áreas em que ganham
muito menos. Isso acontece com 60% delas. Cerca de 30% passam a trabalhar com
pessoas que conhecem: editoras de moda, estilistas, fotógrafos de publicidade.
E por volta de 10% gostam mesmo é de estar na frente das câmeras
e por isso viram atrizes, apresentadoras, representantes de produtos ou marcas.
Veja Já
não está na hora de superar sua bronca com Gisele? Casablancas
Ela me deu uma punhalada nas costas como eu nunca levei. Na sexta-feira
anterior à sua saída, estávamos batendo papo, amigos. A Gisele
foi realmente a maior surpresa da minha vida profissional. E olhe que eu sou veterano,
roubei muitas modelos e muitas me foram roubadas. Essa me incomoda até
hoje. Você acredita que eu tive de dar emprego à irmã da Gisele,
Patrícia, porque ela não queria pagar o custo de manter a moça
em Nova York? Ela veio e disse que outra agência estava chamando a irmã
dela e propondo pagar 400 dólares por semana. Era uma chantagem. Eu contratei,
claro. Veja O
que ela fazia? Casablancas Acompanhava as modelos nos compromissos.
Sem falar inglês nem conhecer Nova York. É o que eu chamo de extorsão.
Veja O senhor
teve essa briga com a Gisele, já brigou com a Naomi. Quem é mais
difícil: elas ou John Casablancas? Casablancas Gosto
da Naomi. Já brigamos, fizemos as pazes. Ela é muito explosiva,
insuportável, generosa, carinhosa, egocêntrica. É um ser humano
cheio de paixão. Já a Gisele tem esse lado frio, germânico,
que me incomoda muito. Calculista. Nunca fala mal nem bem. Dá aquelas entrevistas
insuportáveis, em que fala do cachorro, da mãe, aquele vazio total.
Veja Criticar
a Gisele não é uma forma de se promover à custa dela? Casablancas
Sem dúvida. Se tem uma coisa que aprendi é que as coisas
um pouco ácidas, sarcásticas, viram notícia. Corro o risco
de às vezes dizerem que é dor-de-cotovelo. Lógico, é
mesmo. Uma dor tremenda, milhares de dores-de-cotovelo. Principalmente por ela
nunca ter reconhecido o grande trabalho que fiz por ela. Se a Gisele fizesse isso,
eu parava de criticar. |