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André
Petry Reeleição? Onde?
"Em
vez de encarar os bons números das pesquisas como generosa renovação
de um voto de confiança, Lula prefere interpretá-los como salvo-conduto
para a impunidade" A recuperação
de Lula nas pesquisas eleitorais está sendo interpretada como uma indicação
de que, nove meses depois do estouro da boiada mensaleira, finalmente as coisas
estão voltando ao lugar de antes. É certo que a popularidade de
Lula está, sim, voltando ao lugar de antes, mas, afora isso, praticamente
nada mais é igual à era anterior ao escândalo de corrupção.
Nem parecido. No fundo, é tudo tão diferente que, do ponto de vista
político, é quase uma temeridade falar em "reeleição"
de Lula. O mais correto talvez fosse falar na sua "eleição". Isso
porque:
A cúpula de campanha não é a mesma. Em 2002,
a campanha de Lula era comandada por uma tróica então poderosa e
influente: Luiz Gushiken, que hoje é um ministro destronado e só
aparece em público para dar explicações sobre algum exotismo
com verbas publicitárias; José Dirceu, que agora é ex-ministro
e deputado cassado sob a acusação de ser o capo do mensalão;
e Antonio Palocci, que segue ministro mas, enrolado nos desvãos de Ribeirão
Preto e nas suas "imprecisões terminológicas", ganhou uma estatura
moral própria para coleções de miniaturas.
A propaganda não é a mesma. Em 2002, Lula, que havia
muito queria aplicar uma reviravolta no marketing eleitoral do PT, finalmente
conseguiu contratar o publicitário Duda Mendonça. O publicitário
substituiu o discurso político do candidato por platitudes metafóricas,
mas caiu mesmo por causa dos 10 milhões de reais no exterior e das contas
secretas lá fora. Duda Mendonça hoje é urticária.
O partido não é o mesmo. O PT de 2002 não
existe mais. Era um partido conhecido pela garra de sua militância e pela
retidão ética de seus membros. Agora, a militância perdeu
o prumo. A retidão ética, nem é preciso dizer, desabou com
a revelação de que a cúpula do partido fora tomada pela delinqüência.
O PT de 2006 é uma legenda que, em meio à desmoralização,
tenta superar a desorientação.
A esquerda não é a mesma. Com sua podridão,
o PT aplicou o mais sério golpe que a esquerda brasileira já recebeu
desde que, nos anos 20 do século passado, o sindicalismo operário,
o tenentismo e a intelectualidade modernista começaram a ganhar unidade
ideológica. Nem a ditadura militar, com perseguição, exílio
e eliminação física de militantes, conseguiu arrebentar com
a esquerda de forma tão devastadora quanto o golpe petista.
Nem o candidato é o mesmo. O Lula de 2002 era visto por
todos, inclusive pelos adversários, como um político honesto e sincero.
Deixou de sê-lo. Enrolou-se nos malabarismos para desviar-se do mensalão
quando desdenhou das denúncias, depois justificou o caixa dois, depois
ameaçou pedir desculpa, depois jogou a culpa numa conspirata da elite direitista
até que, na semana passada, disse que "errar é humano" e que os
companheiros que erraram não podem ser "execrados". Ninguém confunde
gratuitamente erro com crime, punição com linchamento.
Em vez de encarar os bons números das pesquisas como a generosa renovação
de um voto de confiança, Lula prefere interpretá-los como um salvo-conduto
para a impunidade. Quanta mudança em apenas quatro anos! |