Edição 1944 . 22 de fevereiro de 2006

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André Petry
Reeleição? Onde?

"Em vez de encarar os bons números das pesquisas como generosa renovação de um voto de confiança, Lula prefere interpretá-los como salvo-conduto para a impunidade"

A recuperação de Lula nas pesquisas eleitorais está sendo interpretada como uma indicação de que, nove meses depois do estouro da boiada mensaleira, finalmente as coisas estão voltando ao lugar de antes. É certo que a popularidade de Lula está, sim, voltando ao lugar de antes, mas, afora isso, praticamente nada mais é igual à era anterior ao escândalo de corrupção. Nem parecido. No fundo, é tudo tão diferente que, do ponto de vista político, é quase uma temeridade falar em "reeleição" de Lula. O mais correto talvez fosse falar na sua "eleição". Isso porque:

A cúpula de campanha não é a mesma. Em 2002, a campanha de Lula era comandada por uma tróica então poderosa e influente: Luiz Gushiken, que hoje é um ministro destronado e só aparece em público para dar explicações sobre algum exotismo com verbas publicitárias; José Dirceu, que agora é ex-ministro e deputado cassado sob a acusação de ser o capo do mensalão; e Antonio Palocci, que segue ministro mas, enrolado nos desvãos de Ribeirão Preto e nas suas "imprecisões terminológicas", ganhou uma estatura moral própria para coleções de miniaturas.

A propaganda não é a mesma. Em 2002, Lula, que havia muito queria aplicar uma reviravolta no marketing eleitoral do PT, finalmente conseguiu contratar o publicitário Duda Mendonça. O publicitário substituiu o discurso político do candidato por platitudes metafóricas, mas caiu mesmo por causa dos 10 milhões de reais no exterior e das contas secretas lá fora. Duda Mendonça hoje é urticária.

O partido não é o mesmo. O PT de 2002 não existe mais. Era um partido conhecido pela garra de sua militância e pela retidão ética de seus membros. Agora, a militância perdeu o prumo. A retidão ética, nem é preciso dizer, desabou com a revelação de que a cúpula do partido fora tomada pela delinqüência. O PT de 2006 é uma legenda que, em meio à desmoralização, tenta superar a desorientação.

A esquerda não é a mesma. Com sua podridão, o PT aplicou o mais sério golpe que a esquerda brasileira já recebeu desde que, nos anos 20 do século passado, o sindicalismo operário, o tenentismo e a intelectualidade modernista começaram a ganhar unidade ideológica. Nem a ditadura militar, com perseguição, exílio e eliminação física de militantes, conseguiu arrebentar com a esquerda de forma tão devastadora quanto o golpe petista.

Nem o candidato é o mesmo. O Lula de 2002 era visto por todos, inclusive pelos adversários, como um político honesto e sincero. Deixou de sê-lo. Enrolou-se nos malabarismos para desviar-se do mensalão quando desdenhou das denúncias, depois justificou o caixa dois, depois ameaçou pedir desculpa, depois jogou a culpa numa conspirata da elite direitista até que, na semana passada, disse que "errar é humano" e que os companheiros que erraram não podem ser "execrados". Ninguém confunde gratuitamente erro com crime, punição com linchamento.

Em vez de encarar os bons números das pesquisas como a generosa renovação de um voto de confiança, Lula prefere interpretá-los como um salvo-conduto para a impunidade. Quanta mudança em apenas quatro anos!

 
 
 
 
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