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Claudio
de Moura Castro
Aprendizagem
de mentira
"Nossas
autoridades proibiram o trabalho de
menores onde há
máquinas funcionando. Ou seja,
só podem trabalhar em fábrica que não produz"
Ilustração Ale Setti
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Ao completar a 10ª série, com 16 anos, Fritz (poderia ser
Hans) é contratado como aprendiz na gigantesca fábrica da
Volkswagen, na Alemanha. Durante três anos e meio, vai trabalhar
e aprender, sob a tutela de um mestre. Um dia por semana, freqüentará
uma escola pública especial, onde estudará línguas,
humanidades, ciência e tecnologia. Reza a lei que Fritz ganhará
menos que o salário mínimo, pois produz menos e alguém
vai gastar seu tempo ensinando-lhe o ofício.
José, ao terminar seu ensino fundamental, aos 16 anos, gostaria
de trabalhar na fábrica da Volkswagen de São Paulo. De fato,
a lei manda a Volks contratar alguém como José. Manda também
que pague o salário mínimo, não menos.
No entanto, José não pode fazer na fábrica de São
Paulo o que Fritz faz na fábrica da Alemanha. Isso porque há
uma nova regulamentação proibindo menores de trabalhar em
fábricas, pelo perigo que elas oferecem.
Ou seja, para os alemães, a fábrica é segura. Mas
uma fábrica quase igual no Brasil é considerada insegura.
Nossas doutas autoridades proibiram o trabalho de menores, por exemplo,
onde há máquinas funcionando. Podem trabalhar em máquina
parada, mas somente se tiver dispositivo que impeça seu acionamento.
Ou seja, só podem trabalhar em fábrica que não produz.
Há 81 proibições, barrando os menores em praticamente
todas as atividades industriais. A lei obriga a empresa a contratar aprendizes.
Porém agora há outra lei dizendo que os aprendizes não
podem trabalhar. A solução é fazer um curso no Senai,
longe da fábrica, perdendo os benefícios do que se aprende
com o trabalho "de verdade". A formação do Senai é
de boa qualidade. Mas, além do sacrifício de uma valiosa
experiência de trabalho, não há vagas suficientes
para todos. Ao acolher em suas escolas esses aprendizes que são
pagos para trabalhar na fábrica, o Senai deixa de atender outros
tantos jovens ou adultos que igualmente necessitam de preparação
para o trabalho.
A aprendizagem é milenar. Sua estruturação ocorreu
na Idade Média, gerando as corporações de ofício.
Continua uma excelente idéia, pois o aprendiz aprende, ao mesmo
tempo que trabalha e produz. Todavia, além de pagar a contribuição
do Senai, agora o empregador pagará também a um aprendiz
que está proibido de trabalhar. Algumas exceções
serão permitidas, analisadas caso a caso. Mas, se a mais clássica
forma de aprender um ofício requer um favor de alguma autoridade
local, tem-se, no mínimo, uma grotesca distorção.
É também um convite à fraude e ao não-cumprimento
da lei.
É
meritória a intenção de proteger o aprendiz de riscos
e abusos. Mas jamais algum país industrial impediu menores de trabalhar
em fábricas. Uns mais, outros menos, todos os países da
Europa têm aprendizes em suas fábricas.
Riscos sempre há e todo cuidado para reduzi-los é justificado.
Mas o risco de acidentes no setor informal e de morte violenta para jovens
nas grandes cidades brasileiras é dezenas de vezes maior que o
risco de acidentes em fábricas. Em outras palavras, um jovem de
classe operária está mais seguro dentro da fábrica
da Volks (ou qualquer outra do gênero) que na rua.
Toda vez que exageramos na proteção aos empregados
menores ou maiores é às expensas de reduzir os incentivos
para o emprego formal. No caso dos aprendizes, chegamos à perfeição.
Estamos prestes a acabar com uma tradição milenar de aprender
um ofício. Pior, o aprendiz que a indústria não pode
acolher é mais um jovem no exército da informalidade, trabalhando
sem contrato e em situações de muito maior risco (dentro
e fora de seu trabalho). Certamente a aprendizagem não é
a solução para todos os problemas, não deve substituir
a escola regular nem tirar o espaço de outras formas. Mas deve
somar-se às outras modalidades, enriquecendo a oferta de preparação
de mão-de-obra.
Houve abusos no trato com os aprendizes, gerando uma preocupação
legítima. Contudo, a resposta do governo foi dar um pontapé
na história. A fórmula de coibir o abuso não pode
ser pela via simplista de eliminar seu uso.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net.)
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