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Roberto
Pompeu de Toledo
O
pecado mortal
de Hugo Chávez
Ele
caiu no erro,
comum entre
os líderes
de esquerda
da
América Latina,
de dividir o país
O evento mais significativo na América Latina, na semana passada,
não foi a posse do novo presidente do Equador, Lucio Gutiérrez,
outro líder de esquerda que chega ao poder. Também não
foi a tentativa de relançamento do Mercosul pelos presidentes Lula,
do Brasil, e Duhalde, da Argentina, nem a articulação de
um grupo de países da região para servir de mediador na
crise da Venezuela. O evento mais significativo deu-se nos ares, e tem
a ver também com a Venezuela: um Boeing 727 que partira de Caracas
com destino a Santo Domingo teve de voltar, por razões de segurança,
tal a balbúrdia a bordo desde que os passageiros identificaram
a presença, entre eles, de um condestável do regime de Hugo
Chávez, o general da reserva Belisario Landis, ex-comandante da
Guarda Nacional e atual embaixador na República Dominicana. Os
passageiros apupavam e ofendiam o general. A gritaria chegou a tal ponto
que o piloto, meia hora depois da decolagem, julgou por bem voltar. Só
depois de, outra vez em terra, serem os noventa passageiros submetidos
a uma sessão destinada a esfriar os ânimos, durante a qual
se comprometeram a manter a calma, o Boeing reencetou a viagem.
O episódio mostra a que ponto se chegou, na Venezuela. "Os venezuelanos
vivem uma hipnose coletiva muito perto da histeria", diagnosticou, numa
entrevista, o poeta Rafael Arráiz. O espaço de um Boeing
ficou pequeno demais para conter representantes dos dois pedaços
em que se dividiu a população. Imagine-se o que pode acontecer
se um chavista e um antichavista se encontram num elevador, que é
menor ainda. Ou se, por descuido e um acaso do destino, entram ambos,
ao mesmo tempo, no mesmo toalete. Não. Na verdade, nem é
preciso imaginar espaços fechados e limitados para ilustrar a dificuldade
de convivência. A Venezuela, como um todo, tornou-se pequena demais,
para os dois grupos.
Chávez é um líder fanfarrão e primitivo, mas
a oposição também não é flor que se
cheire. Basta observar, nas fotos, como predominam, nas manifestações,
os brancos e bem vestidos, para concluir que são os privilegiados
de sempre que puxam o movimento contra o governo. Também a condena
o fato de chamar Chávez de ditador, mas, ao mesmo tempo, não
mostrar escrúpulos em passar por cima das leis e das instituições,
como fez na frustrada tentativa de golpe do ano passado. A procura, da
parte de um grupo e de outro, de abrigo à sombra dos valores da
democracia, repete um velho padrão latino-americano de hipocrisia,
para acrescentar uma terceira palavra começada com "H" à
hipnose e à histeria invocadas pelo poeta Arráiz, todas
as três muito reveladoras do momento venezuelano.
Tudo indica que a oposição é ainda mais hipócrita
que o governo, ao se proclamar defensora dos valores democráticos.
Bem pesadas as coisas, porém, a culpa maior é de Chávez.
A ele, como chefe de Estado, pela visibilidade que tal condição
lhe confere e pelo peso da instituição que representa, cabe,
mais que a qualquer outro, zelar pelo país. E Chávez cometeu
o erro primordial, um dos maiores, se não o maior, que pode cometer
um líder em geral, e mais ainda um chefe de Estado dividiu
os liderados. Não tanto pelas ações concretas, que
afinal nem saíram do papel, e nem mesmo pelas propostas, que não
eram tão radicais assim, mas pelas palavras, pelo tom e pelo estilo,
Chávez pôs fogo no país.
Trata-se de erro comum nos chefes de governos de esquerda da América
Latina. João Goulart o cometeu, no Brasil, com discursos que não
passavam de bravatas e provocações inúteis. Salvador
Allende voltou a fazê-lo no Chile. O fato de não conter,
e até incitar a divisão, tem se revelado um erro, quanto
mais não seja, pelo simples fato de que quem assim age acaba perdendo.
Alguém replicaria que Fidel Castro, outro que dividiu profundamente
seu povo, é um vencedor, já que se mantém há
quarenta anos no poder. Engano. Fidel, com sua política confrontacionista,
é o responsável pela criação de uma outra
Cuba, estabelecida do outro lado do canal da Flórida. Haverá
exemplo maior de fratura do que esse de uma metade que se muda para fora
do país? Esta outra Cuba, jamais apaziguada, está pronta
para dar o bote, assim que o velho comandante desaparecer.
O caso de Chávez, bem como o de similares do passado, sublinha
a novidade do governo Lula, no Brasil. Lula é um líder de
esquerda que, ao contrário do modelo histórico, ou mesmo
do estilo empregado, em outros tempos, por ele próprio e seu partido,
chega ao poder com um discurso de união. Ainda na semana passada,
ao comentar, no Equador, a ascensão de Gutiérrez, o presidente
brasileiro afirmou, com lucidez: "Não podemos esquecer que a nação
é composta por outros segmentos da sociedade, e que precisamos
fazer política com todos os segmentos". Aos mais afoitos entre
os partidários de Lula, que considerariam sua postura conciliadora
demais, o drama da Venezuela serve de alerta. Para Chávez, não
há mais perspectiva de vitória. O máximo a que pode
aspirar é a sobrevivência.
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