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Edição 1 786 - 22 de janeiro de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

O pecado mortal
de Hugo Chávez

Ele caiu no erro, comum entre
os
líderes de esquerda da
América
Latina, de dividir o país

O evento mais significativo na América Latina, na semana passada, não foi a posse do novo presidente do Equador, Lucio Gutiérrez, outro líder de esquerda que chega ao poder. Também não foi a tentativa de relançamento do Mercosul pelos presidentes Lula, do Brasil, e Duhalde, da Argentina, nem a articulação de um grupo de países da região para servir de mediador na crise da Venezuela. O evento mais significativo deu-se nos ares, e tem a ver também com a Venezuela: um Boeing 727 que partira de Caracas com destino a Santo Domingo teve de voltar, por razões de segurança, tal a balbúrdia a bordo desde que os passageiros identificaram a presença, entre eles, de um condestável do regime de Hugo Chávez, o general da reserva Belisario Landis, ex-comandante da Guarda Nacional e atual embaixador na República Dominicana. Os passageiros apupavam e ofendiam o general. A gritaria chegou a tal ponto que o piloto, meia hora depois da decolagem, julgou por bem voltar. Só depois de, outra vez em terra, serem os noventa passageiros submetidos a uma sessão destinada a esfriar os ânimos, durante a qual se comprometeram a manter a calma, o Boeing reencetou a viagem.

O episódio mostra a que ponto se chegou, na Venezuela. "Os venezuelanos vivem uma hipnose coletiva muito perto da histeria", diagnosticou, numa entrevista, o poeta Rafael Arráiz. O espaço de um Boeing ficou pequeno demais para conter representantes dos dois pedaços em que se dividiu a população. Imagine-se o que pode acontecer se um chavista e um antichavista se encontram num elevador, que é menor ainda. Ou se, por descuido e um acaso do destino, entram ambos, ao mesmo tempo, no mesmo toalete. Não. Na verdade, nem é preciso imaginar espaços fechados e limitados para ilustrar a dificuldade de convivência. A Venezuela, como um todo, tornou-se pequena demais, para os dois grupos.

Chávez é um líder fanfarrão e primitivo, mas a oposição também não é flor que se cheire. Basta observar, nas fotos, como predominam, nas manifestações, os brancos e bem vestidos, para concluir que são os privilegiados de sempre que puxam o movimento contra o governo. Também a condena o fato de chamar Chávez de ditador, mas, ao mesmo tempo, não mostrar escrúpulos em passar por cima das leis e das instituições, como fez na frustrada tentativa de golpe do ano passado. A procura, da parte de um grupo e de outro, de abrigo à sombra dos valores da democracia, repete um velho padrão latino-americano de hipocrisia, para acrescentar uma terceira palavra começada com "H" à hipnose e à histeria invocadas pelo poeta Arráiz, todas as três muito reveladoras do momento venezuelano.

Tudo indica que a oposição é ainda mais hipócrita que o governo, ao se proclamar defensora dos valores democráticos. Bem pesadas as coisas, porém, a culpa maior é de Chávez. A ele, como chefe de Estado, pela visibilidade que tal condição lhe confere e pelo peso da instituição que representa, cabe, mais que a qualquer outro, zelar pelo país. E Chávez cometeu o erro primordial, um dos maiores, se não o maior, que pode cometer um líder em geral, e mais ainda um chefe de Estado – dividiu os liderados. Não tanto pelas ações concretas, que afinal nem saíram do papel, e nem mesmo pelas propostas, que não eram tão radicais assim, mas pelas palavras, pelo tom e pelo estilo, Chávez pôs fogo no país.

Trata-se de erro comum nos chefes de governos de esquerda da América Latina. João Goulart o cometeu, no Brasil, com discursos que não passavam de bravatas e provocações inúteis. Salvador Allende voltou a fazê-lo no Chile. O fato de não conter, e até incitar a divisão, tem se revelado um erro, quanto mais não seja, pelo simples fato de que quem assim age acaba perdendo. Alguém replicaria que Fidel Castro, outro que dividiu profundamente seu povo, é um vencedor, já que se mantém há quarenta anos no poder. Engano. Fidel, com sua política confrontacionista, é o responsável pela criação de uma outra Cuba, estabelecida do outro lado do canal da Flórida. Haverá exemplo maior de fratura do que esse de uma metade que se muda para fora do país? Esta outra Cuba, jamais apaziguada, está pronta para dar o bote, assim que o velho comandante desaparecer.

O caso de Chávez, bem como o de similares do passado, sublinha a novidade do governo Lula, no Brasil. Lula é um líder de esquerda que, ao contrário do modelo histórico, ou mesmo do estilo empregado, em outros tempos, por ele próprio e seu partido, chega ao poder com um discurso de união. Ainda na semana passada, ao comentar, no Equador, a ascensão de Gutiérrez, o presidente brasileiro afirmou, com lucidez: "Não podemos esquecer que a nação é composta por outros segmentos da sociedade, e que precisamos fazer política com todos os segmentos". Aos mais afoitos entre os partidários de Lula, que considerariam sua postura conciliadora demais, o drama da Venezuela serve de alerta. Para Chávez, não há mais perspectiva de vitória. O máximo a que pode aspirar é a sobrevivência.

   
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