
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Literatura tóxica
Dos
poemas sobre o ópio aos
romances sobre o ecstasy, como
os escritores se relacionaram com
as drogas nos últimos 200 anos
Carlos Graieb
Empregada originalmente como anestésico para cavalos, a ketamina
transformou-se em Special K, uma droga popular nas raves, aquelas festas
que duram até de manhã e são movidas a música
tecno. Seu efeito mais marcante é produzir breves estados de apagão,
durante os quais os usuários são sugados para o que chamam
de "dimensão K". Ainda não se conhece nenhum poema ou ficção
que trate dessa experiência, mas o crítico inglês Marcus
Boon não tem dúvida de que eles logo surgirão, assim
como já existem romances sobre o ecstasy. "Neste momento, algum
adolescente está escrevendo um romance com o título Dimensão
K", afirma ele. E isso acontece porque 200 anos de escrevinhação
inspirada pelas drogas ou a respeito delas acabaram por consolidar um
gênero literário. Em The Road of Excess (A
Via do Excesso), Boon reconta a história desse gênero de
maneira inovadora e cativante, apesar de acadêmica. Recém-lançado
nos Estados Unidos, o livro aborda textos famosos e outros nem tanto,
assim como fala de viciados confessos e de autores que preferiram não
se alongar sobre suas experiências com substâncias clandestinas.
O fundador da literatura tóxica, diz Boon, foi o inglês Thomas
De Quincey, que, em 1821, publicou Confissões de um Comedor
de Ópio. Depois dele, outras figuras registraram suas viagens.
O francês Charles Baudelaire criou a expressão "paraísos
artificiais" em 1860, para descrever o estado induzido pelo haxixe e pelo
láudano. Seu conterrâneo Henri Michaux, já no século
XX, explorou os efeitos da mescalina. O alemão Walter Benjamin
filosofou sobre o haxixe. O romancista inglês Aldous Huxley fez
testes com psicodélicos. E os beats americanos, como Jack Kerouac
e William Burroughs, banquetearam-se num verdadeiro smorgasbord de substâncias.
Boon, no entanto, não se limita às figuras mais conhecidas.
The
Road of Excess mostra que, se De Quincey inaugurou o discurso literário
sobre as drogas, anteriormente já havia autores bastante íntimos
delas. No século XVII, por exemplo, o poeta inglês John Dryden
zombou em versos de um dramaturgo adversário por seu vício
em ópio um "remédio" que o crítico Dr. Johnson,
na mesma época, também usava. Os românticos ingleses
Keats, Byron e Shelley foram consumidores ocasionais do láudano
ao passo que seu colega Samuel Coleridge viciou-se realmente, de
1790 até sua morte, em 1834. Seu poema Kubla Khan, de 1816,
é antecedido de uma nota que revela como "um sono induzido por
droga" levou à composição. Na Alemanha, o poeta Novalis
(1772-1801), apreciador do ópio, especulava filosoficamente sobre
seu uso na criação de "um novo corpo". E até o extraordinário
Goethe, uma das maiores figuras do século XVIII, pode ter dado
um tapinha no haxixe segundo um manuscrito descoberto recentemente
na Áustria.
Marcus Boon também discute casos pouco explorados do período
"pós-De Quincey". Um dos mais interessantes é o do francês
Marcel Proust, autor de Em Busca do Tempo Perdido, um monumento
literário modernista. Acometido de asma e problemas do sono, desde
a adolescência ele tomou coquetéis que incluíam barbitúricos,
ópio, morfina, heroína e éter. Embora louve a maneira
como Proust refletiu, por exemplo, sobre o problema da percepção
do tempo, a crítica até hoje negligencia o fato de que seu
corpo "estava sempre inundado de substâncias que produzem exatamente
as reações cognitivas descritas em seus livros". Outro exemplo
curioso é o do filósofo Jean-Paul Sartre. Nos anos 50, ele
se entupia de anfetaminas. Isso resultou num estilo palavroso e desordenado
de escrita, e em obras virtualmente impenetráveis como Crítica
da Razão Dialética e Saint Genet. Além
desses estimulantes, Sartre também fez uso de um psicodélico,
a mescalina. Seus colegas pensadores Martin Heidegger e Michel Foucault
o imitaram nesse ponto, embora tenham preferido o LSD.
Segundo Marcus Boon, drogas diferentes produziram diferentes efeitos literários.
Narcóticos como o ópio deram origem a uma espécie
de gnosticismo a crença de que o homem está preso
num mundo corrompido, e de que a droga proporcionaria o vislumbre de um
outro universo, autêntico, onde reside a verdade. O haxixe engendrou
utopias de transformação social. Os psicodélicos
ficaram associados a experiências esotéricas. Já os
estimulantes, como a cocaína, são as drogas menos ligadas
a idéias de transcendência ou espiritualidade. Desde cedo,
elas foram tão-somente "ferramentas de trabalho" a imagem
clássica é a do beat Jack Kerouac ligadíssimo, datilografando
dia e noite o romance Na Estrada num rolo de papel de parede. O
poeta inglês W.H. Auden era outro que recorria a anfetaminas para
trabalhar. Mas, nesse campo, ninguém bate o escritor de ficção
científica Philip K. Dick, autor de Minority Report. Ele
estava em permanente excitação química. Os estimulantes
parecem ter-lhe sugerido vários personagens que são homens-máquina
e alguns que não sabem se são deuses ou aleijões.
Em momento nenhum Marcus Boon defende o uso de drogas. Pelo contrário,
ele combate a idéia de que elas conduzam a uma experiência
estética. Criada pelos românticos, e associada depois aos
temas da rebeldia e da transgressão, essa idéia seria responsável
por boa parte da mística em torno dos tóxicos. De fato,
a leitura de The Road of Excess faz duvidar muito da capacidade
das drogas de transformar alguém em artista. De Paraísos
Artificiais, de Baudelaire, a Trainspotting, do escocês
Irvine Welsh, passando por Uivo, do beat Allen Ginsberg, escritores
chapados produziram alguns bons textos, mas nenhuma obra-prima
a menos que se queira creditar toda a produção de Proust
ao éter ou à morfina. Mais ainda. "Desde 1950 não
há avanços na literatura sobre narcóticos", escreve
Boon. "Os mesmos relatos confessionais de vício e desintoxicação
continuam sendo escritos. Os ambientes são diferentes, mas a história
é a mesma: prazer, sofrimento, redenção ou perda."
Como diria o doidíssimo William Burroughs, no fundo "nunca acontece
nada no mundo das drogas".
|
|
 |
|
 |

|
 |