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Um
De Palma legítimo
Com o audacioso suspense Femme Fatale,
o
diretor americano volta à sua melhor
forma:
a de um Hitchcock sem censura

Isabela Boscov
Playarte Pictures
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| Banderas
assiste ao strip-tease de Rebecca: uma loira na melhor tradição
noir |

Veja também |
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Qual
é o tipo de cinqüentão que, ao ser pai pela primeira
vez, batiza a filha de Lolita? Só pode ser o mesmo que, ainda em
início de carreira, chamou a namorada para trabalhar num filme
e deu a ela o papel de vadia da escola e, já casado com
ela, escalou-a outras três vezes para interpretar prostitutas. Ou
que, ainda na adolescência, passou semanas vigiando o pai e gravando
seus telefonemas a fim de provar que ele tinha uma amante. É quase
certo que o diretor Brian De Palma seria candidato a uma vaga vitalícia
no divã do psicanalista. Mas ele faz melhor: a exemplo de outros
grandes cineastas, como Alfred Hitchcock (a quem nunca cansa de emular),
De Palma dedicou os últimos 35 anos a transformar suas obsessões
em matéria-prima para alguns dos filmes mais originais produzidos
desde o fim da década de 60, quando ele e os amigos Martin Scorsese,
Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e George Lucas revolucionaram o
cinema americano. De todos os integrantes desse grupo, De Palma é
o único que nunca deixou de ser alvo de controvérsia, não
procurou superar suas fixações e só em raras ocasiões
abriu mão de seus mandamentos fazer um cinema que se baste
em si mesmo e seja uma reflexão constante sobre o ato de filmar.
Um exemplo exuberante e altamente gratificante desse credo é Femme
Fatale (Estados Unidos/França/Alemanha, 2002), que estréia
nesta sexta-feira no país.
Femme
Fatale anuncia a que veio desde a abertura, em que uma loira assiste
na televisão a uma cena do clássico noir Pacto de Sangue
aquela em que Fred MacMurray se dá conta de que Barbara
Stanwyck o usou para se livrar de seu marido, e ele é quem vai
pagar o pato. A loira é Laure Ash (a ex-modelo Rebecca Romijn-Stamos),
que nos minutos seguintes sairá de seu quarto disfarçada
de fotógrafa para protagonizar um espetacular roubo de diamantes
durante uma sessão de gala em Cannes (filmada no próprio
festival). Os diamantes estão cravados numa jóia em forma
de serpente que é a única vestimenta da modelo Rie Rasmussen.
Para se apoderar deles, Laure terá de seduzir Rie e despi-la, o
que ela faz com empenho notável, num banheiro do Palais du Festival.
Na seqüência, Laure vai trair seus parceiros no roubo, assumir
a identidade de uma sósia, fisgar um diplomata americano e sair
de cena. Até que, sete anos depois, ela se vê de volta a
Paris, onde uma foto feita por um paparazzo (Antonio Banderas) a coloca
na mira dos comparsas traídos. Movida pelo seu infalível
instinto de sobrevivência, Laure aplica aos homens que estão
em seu caminho a tática de Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue:
usá-los, descartá-los e sair por cima.
É
um alívio ver que, aos 62 anos, Brian De Palma é capaz de
voltar à sua forma plena quando o quer. Desde a década de
80, o diretor tem assumido a função de contratado dos estúdios
para tocar superproduções segundo ele, porque às
vezes se cansa de ser quem é e se afasta de suas obsessões
trabalhando como pistoleiro de aluguel. Os Intocáveis, Missão
Impossível e Missão: Marte são alguns
dos produtos desse outro De Palma. Por mais eficientes que sejam, não
se comparam aos filmes do De Palma verdadeiro e original, como Um Tiro
na Noite, Carrie, Vestida para Matar e Dublê de Corpo.
Ou ainda Femme Fatale, que, no enredo e na execução,
é um compêndio das taras e marcas estilísticas do
diretor. Estão aqui as citações aos filmes de Hitchcock
(em especial Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai), a loira
de frieza brutal e sensualidade devastadora (da qual Rebecca é
uma personificação e tanto), o cinismo e a violência.
Não faltam também as telas divididas, em que uma mesma ação
é observada de pontos de vista paralelos, os planos virtuosísticos,
que seguem um personagem minutos a fio, sem cortes, e o dom quase sem
rival para fazer com que cada tomada seja indispensável.
Acima de tudo, porém, Femme Fatale retoma um dos temas maiores
do cinema, e o favorito de De Palma: o olhar. Voyeur por excelência
entre os diretores, De Palma é um obcecado por mostrar como o simples
ato de ver uma coisa a modifica ou até mesmo determina sua existência
e como a verdade, portanto, é uma edificação
precária. Ao longo de sua carreira, o cineasta já foi acusado
de ser misógino, perverso, vulgar e sensacionalista. Mas não
é difícil defendê-lo. De Palma é um legítimo
remanescente dos anos 60, que renega por princípio as restrições
do fascismo politicamente correto e insiste em que um filme não
pode, e não deve, ser censurado pelo próprio autor ou impor
uma visão dos fatos à platéia. Nele, esses supostos
defeitos são as virtudes de um iconoclasta e um inimigo declarado
de atitudes totalitaristas. De Palma é tão coerente que
não faz questão de que a platéia assine embaixo do
seu manifesto. Quem quiser assistir a Femme Fatale só como
um suspense de mestre, acrobático e audacioso, pode se considerar
liberado para fazê-lo, sem nenhum peso na consciência.
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