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Edição 1 786 - 22 de janeiro de 2003
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Pátria gaúcha

Na série A Casa das Sete Mulheres,
os gaúchos
são heróis e os
"brasileiros" encarnam o mal

Marcelo Marthe

 
Fotos divulgação
A Casa das Sete Mulheres: batalhas superproduzidas

Veja também
Galeria de fotos: os personagens da série
Vídeo: cena de batalha
Site oficial

Em exibição na Rede Globo desde o último dia 7, a série A Casa das Sete Mulheres se destaca por conjugar dois atributos que andavam divorciados nas produções do gênero: qualidade e boa audiência (26 pontos de média). Com orçamento de superprodução – 10 milhões de reais –, o folhetim de 52 capítulos impressiona pela fotografia, que ressalta as exuberantes paisagens da Serra Gaúcha, e pelas cenas de batalha, as mais complexas que já se viram na televisão nacional. A emissora também acertou ao apostar em nomes pouco conhecidos para encabeçar o elenco, como o gaúcho Werner Schünemann, que vive o personagem histórico Bento Gonçalves, e a paulista Camila Morgado, intérprete da sonhadora Manuela, apaixonada pelo agitador italiano Giuseppe Garibaldi (Thiago Lacerda). Mas há um aspecto curioso em A Casa das Sete Mulheres: sua trama com viés separatista. A série se baseia num romance protagonizado pela família de Bento Gonçalves, que comandou a Guerra dos Farrapos (1835-1845). Nessa revolução, a elite local tentou proclamar a independência do Rio Grande do Sul em relação ao então nascente império do Brasil. Como se trata de um folhetim – em que mocinhos são mocinhos e bandidos são bandidos –, daí resultou uma situação insólita na tela: os gaúchos estão do lado do bem, enquanto os "brasileiros" encarnam o mal.

Essa opção dramatúrgica vem sendo realçada pelos autores do programa, Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão. Transparece, por exemplo, na forma idealizada como se retrata o gaúcho Bento Gonçalves. Ele é mostrado como um homem fiel, movido pelo desejo de acabar com injustiças sociais como a escravidão. Na verdade, era um caudilho que lutava para resguardar seus interesses de proprietário de terras e, como quase todos os farroupilhas, foi abolicionista só na retórica. "Falar em democracia racial nos Pampas naquela época, como estamos vendo na série, é surreal", diz a historiadora Maria Medianeira Padoin, da Universidade Federal de Santa Maria. O líder também não se mantinha tão fiel assim à sua mulher, Caetana (Eliane Giardini). "Sabe-se que ele era louquinho por suas escravas negras", reconhece, em tom de brincadeira, Maria Adelaide Amaral. Aos poucos, a autora pretende inserir na trama novos personagens e situações com a intenção de amenizar o tom separatista e não endeusar tanto assim a figura do líder farroupilha.

 
Lacerda, como Garibaldi, e Camila, no papel de Manuela: tem também banho de cachoeira

Outro dado que chama a atenção é que, na pátria rio-grandense do diretor Jayme Monjardim, a geografia é bem diferente da realidade. As imagens de paredões e cachoeiras, mostradas sempre com uma música climática ao fundo, dão a impressão de que a serra e a campanha gaúcha, onde se desenrolou a guerra, estão próximas. Na verdade, a distância é de centemas de quilômetros, e as tropas farroupilhas não se aventuravam pelos paredões. Mas deve-se reconhecer que o resultado é de encher os olhos – inclusive porque proporciona que as beldades da série tomem banho de cachoeira.

   
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