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Edição 1 786 - 22 de janeiro de 2003
Internacional Iraque

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Iraque: À espera dos bombardeios

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Tudo pronto para a guerra


Reuters

O PODER
Bush controla o calendário: "O tempo está se esgotando" para Saddam



Veja também
Nova tempestade no deserto
Na internet
Site EUA contra Iraque

Se o presidente George
W. Bush decidisse desfechar hoje a nova tempestade no deserto que se abaterá sobre o Iraque, já teria tudo na mão. São 110 000 militares no teatro de operações (um número que deverá chegar a 150 000 em breve), uma incomparável máquina de guerra já instalada no Oriente Médio e um centro de comando em funcionamento no emirado de Catar — completo, inclusive com os comandantes de campanha devidamente despachados para lá.
O envio de tropas e de material militar deverá continuar, pois a hiperpotência americana faz tudo sempre com um enorme excedente de recursos. Até o fim de fevereiro, o período sobre o qual se concentram as especulações a respeito do início da campanha, o gigante estará pronto, e com sobra. Só fica faltando a ordem presidencial. De que ela virá, restam poucas dúvidas. Bush prometeu uma "mudança de regime" no Iraque, e é exatamente isso o que pretende fazer. Segundo indica toda a imensa mobilização militar, só não haverá guerra se: a) Saddam Hussein receber um recado direto de Alá e resolver poupar a seu povo o sofrimento que inevitavelmente a intervenção americana provocará; b) algum general resolver transmitir pessoalmente a mensagem divina e despachar o tirano para o além. Dadas a indiferença de Saddam pela miséria dos iraquianos e a sua extraordinária capacidade de sobrevivência, através do terror espalhado entre os inimigos e, principalmente, os amigos, as probabilidades de que isso aconteça são muito pequenas.

Saddam terá de ser desativado na marra, num tipo de intervenção americana sem precedentes, pela volatilidade da região onde ocorrerá, pelo esforço que demandará e pelas possibilidades que abrirá, tanto para o bem quanto para o mal. O "tempo está se esgotando" para Saddam, disse na semana passada um Bush irritado com as concessões que precisa fazer para dar uma moldura de legitimidade internacional à operação contra o Iraque de Saddam. Pelo calendário não declarado da ala mais agressiva do governo americano, os inspetores da ONU encarregados de vistoriar instalações iraquianas suspeitas de armazenar armas químicas e biológicas apresentariam agora, no dia 27, o relatório sobre seu trabalho, o regime de Saddam ficaria enroscado, e pronto: estariam preenchidas as condições para iniciar o bombardeio. Acontece que os inspetores já pediram mais alguns meses de trabalho. Na quinta-feira passada encontraram o indício mais contundente até agora de ilicitudes iraquianas: doze ogivas do tipo usado para armas químicas, onze vazias e uma duvidosa.

AP

A FORÇA
Porta-aviões americano no Golfo:
a máquina de guerra em ação


Bush estará disposto a dar esse tempo ou, aproveitando-se de exemplos como o das ogivas químicas, irá à guerra sem o endosso da comunidade internacional nem o apoio de aliados tradicionais, com exceção da sempre fiel Inglaterra? Mesmo que ele resolva esperar, a fragilidade política dos argumentos do governo americano em favor da intervenção militar não deverá mudar muito. Ao longo de um ano, desde que anunciou a intenção de defenestrar ditadores que potencialmente possam passar armas de destruição em massa para radicais islâmicos, Bush não conseguiu convencer a opinião pública internacional de que Saddam constitui uma ameaça suficientemente grande que justifique a mais drástica de todas as medidas. Mesmo no plano interno, apenas um quarto dos americanos apóia, hoje, uma guerra contra o Iraque sem a anuência de países aliados. Quando Bush pai lançou a primeira Tempestade no Deserto, tinha argumentos solidíssimos. Saddam havia invadido e anexado criminosamente um país vizinho, o Kuwait, e ainda poderia se animar a tomar também os riquíssimos campos de petróleo da Arábia Saudita, hipótese que transformaria a economia planetária em um pandemônio. Bush filho, ao contrário, tem uma causa cheia de buracos. Não comprovou que o Iraque de Saddam, sob sanções econômicas e desarmado à força, apesar das óbvias tentativas de burlar a vigilância da ONU, é um risco para a segurança internacional. Isso para não falar de uma suposta conexão, nem de longe substanciada, entre o carniceiro de Bagdá e os terroristas da Al Qaeda.

Se resolver ignorar as resistências internacionais e partir para a ação-solo, o presidente americano dará a ordem para o início dos combates possivelmente no fim de fevereiro ou começo de março, quando as condições climáticas para uma guerra no deserto são menos severas. Especialistas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um grupo de estudos independente com sede em Washington, vislumbram três cenários possíveis. No mais otimista, a intervenção americana no Iraque duraria no máximo seis semanas e causaria um pequeno e temporário aumento na cotação do petróleo, hoje em torno de 30 dólares o barril. O pior cenário prevê um conflito de seis meses, com prejuízos pesados aos poços de petróleo. Neste caso, o preço do barril poderia chegar a 80 dólares. As conseqüências para a economia americana seriam graves: recessão profunda, traduzida em contração de 4% do produto interno bruto dos EUA já no segundo trimestre deste ano e aumento do índice de desemprego. Desnecessário lembrar quanto o resto do planeta se ressente quando a maior economia de todos os tempos vai mal.

A incomparável superioridade militar e a fartura de recursos são os trunfos do governo Bush para apostar na hipótese otimista: uma campanha rápida, com um mínimo de baixas americanas e um número "aceitável" de iraquianos inocentes que serão inevitavelmente imolados. A certeza da vitória é tão inabalável que o pós-guerra também já está traçado. O atual presidente vai fazer o que seu pai evitou em 1991: assumir a responsabilidade por derrubar Saddam, governar o país durante um período interino e evitar que os iraquianos se estraçalhem ou partilhem o país. Os riscos são grandes. O Iraque é habitado ao norte pelos curdos, um grupo étnico com aspirações à independência impossíveis de ser atendidas devido à instabilidade que provocaria em vizinhos como a Turquia, um aliado vital dos Estados Unidos. Uma tentativa de rebelião no fim da primeira guerra do Iraque deixou mais de 2 milhões de refugiados. No sul, a população é árabe, mas segue majoritariamente a vertente xiita do islamismo, o que a torna simpática ao Irã — outra aproximação que os Estados Unidos não podem admitir. Para administrar tudo isso foi concebido o mais ambicioso plano de intervenção externa americana desde a ocupação da Alemanha e do Japão, em 1945. A presença militar no Iraque deverá se estender por, no mínimo, dezoito meses após o fim do conflito. Um administrador civil, provavelmente designado pela ONU, deverá ser o encarregado de gerir a economia e comandar o processo político que contemple uma nova Constituição e eleições.

 
Reuters

O ATAQUE
Militares iraquianos: pelo cenário otimista, a guerra acaba em seis semanas

A conta será salgada. Calcula-se que os Estados Unidos deverão gastar 5 bilhões de dólares para recuperar as instalações de petróleo e outros 20 bilhões para reconstruir o parque industrial iraquiano. O investimento compensa. As imensas reservas de petróleo serão um maná para as empresas americanas do ramo e, suspenso o embargo, para a própria recuperação do Iraque. Imagine-se um Iraque livre das atrocidades de Saddam, produzindo plenamente e com um projeto democrático. Parece bom demais para ser verdade. Mas é um sinal de esperança num momento em que o país se prepara para ver, de novo, mais morte e destruição.

 
 
   
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