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Tudo
pronto para a guerra
Reuters
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O
PODER
Bush
controla o
calendário: "O
tempo está se
esgotando" para Saddam
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Veja também |
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Se
o presidente George
W. Bush decidisse desfechar hoje a nova tempestade no deserto que se abaterá
sobre o Iraque, já teria tudo na mão. São 110 000
militares no teatro de operações (um número que deverá
chegar a 150 000 em breve), uma incomparável máquina de
guerra já instalada no Oriente Médio e um centro de comando
em funcionamento no emirado de Catar completo, inclusive com os
comandantes de campanha devidamente despachados para lá.
O envio de tropas e de material militar deverá continuar, pois
a hiperpotência americana faz tudo sempre com um enorme excedente
de recursos. Até o fim de fevereiro, o período sobre o qual
se concentram as especulações a respeito do início
da campanha, o gigante estará pronto, e com sobra. Só fica
faltando a ordem presidencial. De que ela virá, restam poucas dúvidas.
Bush prometeu uma "mudança de regime" no Iraque, e é exatamente
isso o que pretende fazer. Segundo indica toda a imensa mobilização
militar, só não haverá guerra se: a) Saddam Hussein
receber um recado direto de Alá e resolver poupar a seu povo o
sofrimento que inevitavelmente a intervenção americana provocará;
b) algum general resolver transmitir pessoalmente a mensagem divina e
despachar o tirano para o além. Dadas a indiferença de Saddam
pela miséria dos iraquianos e a sua extraordinária capacidade
de sobrevivência, através do terror espalhado entre os inimigos
e, principalmente, os amigos, as probabilidades de que isso aconteça
são muito pequenas.
Saddam terá de ser desativado na marra, num tipo de intervenção
americana sem precedentes, pela volatilidade da região onde ocorrerá,
pelo esforço que demandará e pelas possibilidades que abrirá,
tanto para o bem quanto para o mal. O "tempo está se esgotando"
para Saddam, disse na semana passada um Bush irritado com as concessões
que precisa fazer para dar uma moldura de legitimidade internacional à
operação contra o Iraque de Saddam. Pelo calendário
não declarado da ala mais agressiva do governo americano, os inspetores
da ONU encarregados de vistoriar instalações iraquianas
suspeitas de armazenar armas químicas e biológicas apresentariam
agora, no dia 27, o relatório sobre seu trabalho, o regime de Saddam
ficaria enroscado, e pronto: estariam preenchidas as condições
para iniciar o bombardeio. Acontece que os inspetores já pediram
mais alguns meses de trabalho. Na quinta-feira passada encontraram o indício
mais contundente até agora de ilicitudes iraquianas: doze ogivas
do tipo usado para armas químicas, onze vazias e uma duvidosa.
AP
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A
FORÇA
Porta-aviões
americano no
Golfo:
a máquina de guerra em ação
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Bush estará disposto a dar esse tempo ou, aproveitando-se de exemplos
como o das ogivas químicas, irá à guerra sem o endosso
da comunidade internacional nem o apoio de aliados tradicionais, com exceção
da sempre fiel Inglaterra? Mesmo que ele resolva esperar, a fragilidade
política dos argumentos do governo americano em favor da intervenção
militar não deverá mudar muito. Ao longo de um ano, desde
que anunciou a intenção de defenestrar ditadores que potencialmente
possam passar armas de destruição em massa para radicais
islâmicos, Bush não conseguiu convencer a opinião
pública internacional de que Saddam constitui uma ameaça
suficientemente grande que justifique a mais drástica de todas
as medidas. Mesmo no plano interno, apenas um quarto dos americanos apóia,
hoje, uma guerra contra o Iraque sem a anuência de países
aliados. Quando Bush pai lançou a primeira Tempestade no Deserto,
tinha argumentos solidíssimos. Saddam havia invadido e anexado
criminosamente um país vizinho, o Kuwait, e ainda poderia se animar
a tomar também os riquíssimos campos de petróleo
da Arábia Saudita, hipótese que transformaria a economia
planetária em um pandemônio. Bush filho, ao contrário,
tem uma causa cheia de buracos. Não comprovou que o Iraque de Saddam,
sob sanções econômicas e desarmado à força,
apesar das óbvias tentativas de burlar a vigilância da ONU,
é um risco para a segurança internacional. Isso para não
falar de uma suposta conexão, nem de longe substanciada, entre
o carniceiro de Bagdá e os terroristas da Al Qaeda.
Se resolver ignorar as resistências internacionais e partir para
a ação-solo, o presidente americano dará a ordem
para o início dos combates possivelmente no fim de fevereiro ou
começo de março, quando as condições climáticas
para uma guerra no deserto são menos severas. Especialistas do
Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um grupo de estudos
independente com sede em Washington, vislumbram três cenários
possíveis. No mais otimista, a intervenção americana
no Iraque duraria no máximo seis semanas e causaria um pequeno
e temporário aumento na cotação do petróleo,
hoje em torno de 30 dólares o barril. O pior cenário prevê
um conflito de seis meses, com prejuízos pesados aos poços
de petróleo. Neste caso, o preço do barril poderia chegar
a 80 dólares. As conseqüências para a economia americana
seriam graves: recessão profunda, traduzida em contração
de 4% do produto interno bruto dos EUA já no segundo trimestre
deste ano e aumento do índice de desemprego. Desnecessário
lembrar quanto o resto do planeta se ressente quando a maior economia
de todos os tempos vai mal.
A incomparável superioridade militar e a fartura de recursos são
os trunfos do governo Bush para apostar na hipótese otimista: uma
campanha rápida, com um mínimo de baixas americanas e um
número "aceitável" de iraquianos inocentes que serão
inevitavelmente imolados. A certeza da vitória é tão
inabalável que o pós-guerra também já está
traçado. O atual presidente vai fazer o que seu pai evitou em 1991:
assumir a responsabilidade por derrubar Saddam, governar o país
durante um período interino e evitar que os iraquianos se estraçalhem
ou partilhem o país. Os riscos são grandes. O Iraque é
habitado ao norte pelos curdos, um grupo étnico com aspirações
à independência impossíveis de ser atendidas devido
à instabilidade que provocaria em vizinhos como a Turquia, um aliado
vital dos Estados Unidos. Uma tentativa de rebelião no fim da primeira
guerra do Iraque deixou mais de 2 milhões de refugiados. No sul,
a população é árabe, mas segue majoritariamente
a vertente xiita do islamismo, o que a torna simpática ao Irã
outra aproximação que os Estados Unidos não
podem admitir. Para administrar tudo isso foi concebido o mais ambicioso
plano de intervenção externa americana desde a ocupação
da Alemanha e do Japão, em 1945. A presença militar no Iraque
deverá se estender por, no mínimo, dezoito meses após
o fim do conflito. Um administrador civil, provavelmente designado pela
ONU, deverá ser o encarregado de gerir a economia e comandar o
processo político que contemple uma nova Constituição
e eleições.
Reuters
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O
ATAQUE
Militares
iraquianos: pelo
cenário otimista, a guerra
acaba em
seis semanas
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A
conta será salgada. Calcula-se que os Estados Unidos deverão
gastar 5 bilhões de dólares para recuperar as instalações
de petróleo e outros 20 bilhões para reconstruir o parque
industrial iraquiano. O investimento compensa. As imensas reservas de
petróleo serão um maná para as empresas americanas
do ramo e, suspenso o embargo, para a própria recuperação
do Iraque. Imagine-se um Iraque livre das atrocidades de Saddam, produzindo
plenamente e com um projeto democrático. Parece bom demais para
ser verdade. Mas é um sinal de esperança num momento em
que o país se prepara para ver, de novo, mais morte e destruição.
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