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Perto
do Garotinho
O ex-governador
do Rio era
muito mais próximo do fiscal
milionário do que se imagina
Marcelo Carneiro e Ronaldo França
Leo Drumond/AE
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Uanderson Fernandes/AE
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| Garotinho
e Silveirinha: cargo de confiança na Fazenda e denúncias de extorsão
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Na
semana passada, explodiu no Rio de Janeiro um escândalo encabeçado
por um personagem conhecido como Silveirinha. Com um cargo importante
na Secretaria de Fazenda no governo de Anthony Garotinho, o fiscal de
renda Rodrigo Silveirinha Corrêa é acusado de ter remetido
ilegalmente para a Suíça o equivalente a 30 milhões
de reais. Ele, outros três fiscais estaduais e quatro auditores
da Receita Federal teriam contas no Discount Bank & Trust Company
cujos saldos somados chegam a 33 milhões de dólares, ou
110 milhões de reais. Já seria estranho que oito funcionários
públicos conseguissem juntar tamanha fortuna. Mas, se as suspeitas
se confirmarem, o que terá vindo à tona é a existência
de um poderoso esquema de extorsão que vigorou na Secretaria de
Fazenda do Rio de Janeiro durante a gestão de Garotinho. Não
é a primeira vez nem será a última
que um ex-governante se vê às voltas com escândalos
que envolvem seus colaboradores. Porém, no caso de Silveirinha,
há ingredientes suficientes para azedar a vida de Garotinho. Durante
toda a semana passada, o ex-governador bradou que mal conhecia o fiscal.
São muitos, entretanto, os indícios de uma ligação
entre os dois mais estreita do que se quer fazer crer. Silveirinha era
subsecretário adjunto de Administração Tributária,
encarregado da fiscalização das maiores empresas fluminenses,
responsáveis por 75% da arrecadação de impostos.
Portanto, em qualquer governo responsável, um funcionário
de confiança. Além disso, durante a campanha da atual governadora,
Rosinha Garotinho, era freqüentador assíduo da casa do ex-governador.
Ali, Silveirinha participava de reuniões restritas, como a realizada
em novembro do ano passado, já durante a transição.
Além dos anfitriões, havia apenas três pessoas, todas
de alta estatura na política fluminense.
Fez por merecer a distinção. O fiscal teve importância
estratégica na última eleição estadual. Ajudou
a arrecadar fundos para Rosinha e a assessorou nas discussões sobre
o novo planejamento tributário do Estado. "Ele foi um dos principais
arrecadadores da campanha de Rosinha", conta um político próximo
ao palácio. Não se pode dizer, portanto, que fosse um mero
assessor técnico. Em entrevista por fax a VEJA, Silveirinha diz
que apenas prestou assessoria na área tributária à
então candidata. Dias antes de o escândalo vir a público,
foi empossado na presidência da Companhia de Desenvolvimento Industrial
do Estado (Codin), com poder de distribuir mais de 200 milhões
em incentivos fiscais por ano. Revelado o esquema de depósitos
na Suíça, Silveirinha foi demitido. Garotinho contou a VEJA
que, quando soube do escândalo, telefonou para o subsecretário
e o chamou de "safado", "bandido" e "moleque". Silveirinha nega que tenha
sido esse o teor da conversa.
Na confusão que se instalou com a descoberta das contas na Suíça,
começou o jogo de empurra. O primeiro secretário de Fazenda
da gestão de Garotinho, Carlos Antônio Sasse, afirmou que
a indicação para o cargo foi feita por Garotinho. O ex-governador
nega. Silveirinha, que entrou oficialmente na vida de Garotinho em 1998,
como integrante de sua equipe de transição, faz coro com
o ex-governador: também diz que foi Sasse. Tal como filho feio,
a nomeação do fiscal ficou sem pai. O que é certo,
porque documentado, é que um dos primeiros atos do então
governador Garotinho, assinado no dia seguinte à sua posse, foi
a criação do cargo de subsecretário adjunto de Administração
Tributária, entregue a Silveirinha. Aparentemente, uma decisão
acertada. Um ano depois, a receita de ICMS do Estado havia subido de 500
milhões de reais mensais para 800 milhões. À medida
que a arrecadação aumentava, crescia o prestígio
do subsecretário, que montou uma equipe de sua confiança
da qual fazia parte, aliás, o atual chefe da Inspetoria de Contribuintes
de Grande Porte, André Miranda, nomeado na semana passada pela
governadora Rosinha Garotinho.
Os dados que servem como indicadores de eficiência também
camuflam o que se passava dentro dos gabinetes da Secretaria de Fazenda.
Na semana passada, VEJA ouviu de empresários e executivos de grandes
empresas como agia a gangue dos fiscais. Um empresário do setor
naval sofreu inúmeras autuações dos agentes da Fazenda,
todas por acusação de sonegação de ICMS. Ao
contratar um escritório de advocacia para cuidar do caso, foi finalmente
avisado de que, mediante pagamento de propina, as ações
fiscais seriam interrompidas. Como não concordou com o suborno,
dias depois sua empresa recebeu uma autuação de quase 100
milhões de reais. Um diretor de uma multinacional do setor de serviços,
com sede no Rio, conta que antes do período Silveirinha as multas
não passavam da casa dos milhares. Com ele à frente da fiscalização,
superaram a barreira dos milhões. Em algumas vezes, autuações
de valor muito alto eram justificadas por problemas simples, como erros
no preenchimento de guias. Pelo menos neste caso, o governador Anthony
Garotinho foi colocado a par dos fatos e prometeu providências.
Mas nada aconteceu. "Cheguei a conversar pessoalmente com o Silveirinha
depois, mas não adiantou", diz o diretor. Em outro caso revelador,
uma grande empresa do setor de alimentos com sede na Região Sul
tinha direito à devolução de uma parte do ICMS que
pagou. Queria receber à vista os mais de 30 milhões de reais.
O Estado poderia pagar a prazo, fazendo o desconto mensal. A empresa foi
informada de que a operação era possível, desde que
através da venda dos créditos para outras empresas. O preço
da facilitação: 30% da operação.
Com propinas dessa envergadura, fica fácil entender como Silveirinha
e os demais conseguiram juntar milhões de reais num banco da Suíça,
o Discount Bank & Trust Company, instituição financeira
comprada pelo Union Bancaire Privée (UBP) em junho do ano passado.
Conhecendo-se um pouco do esquema, compreende-se também que um
mês depois, em uma auditoria, o UBP tenha detectado irregularidades
nas contas dos brasileiros abertas por gerentes do Discount no Brasil.
Pela lei da Suíça, todos os depósitos suspeitos têm
de ser avisados às autoridades, para impedir que o país
se torne uma lavanderia de dinheiro. Pela versão oficial, foi o
que aconteceu. Mas há outra explicação para o flagrante.
Uma empresa suíça do setor químico teria pago a propina.
Ao justificar à matriz, forneceu a conta em que fez o depósito.
A própria empresa alertou o banco de lá. Em julho de 2002
um inquérito foi aberto no Ministério Público suíço
e em agosto o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro,
foi avisado oficialmente das investigações.
No despacho em que autorizou, na semana passada, a quebra de sigilo bancário
e o pedido à Justiça suíça de bloqueio dos
bens dos envolvidos, o juiz Lafredo Lisbôa, da 3ª Vara Federal
do Rio, afirma que "ainda não há prova da existência
de contas dos investigados no exterior". Sendo assim, o propinoduto continuará
a jorrar os dólares já batizados de "silverdinhas".
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UMA
ROTINA DE EXTORSÕES
Na
semana passada, VEJA ouviu de empresários e executivos
de companhias que atuam no Rio de Janeiro como funcionava o esquema
de extorsão no Estado. Os dois expedientes mais usados pela
gangue que agia na Secretaria de Fazenda eram os seguintes:
Grandes empresas sofriam visitas periódicas dos fiscais,
que resultavam em sucessivas autuações. Os valores
eram cada vez mais altos, devido a supostas irregularidades em procedimentos
simples, como preenchimento de guias de recolhimento. Em 1999, primeiro
ano do governo Garotinho, uma empresa do setor naval sofreu uma
série de multas, sob alegação de sonegação
de imposto sobre circulação de mercadorias e serviços
(ICMS). Através do advogado da empresa, os sócios
souberam que só se livrariam das multas mediante pagamento
de propina. A empresa não fez acordo e, em seguida, foi autuada
em quase 100 milhões de reais.
A cobrança de propina existia também em operações
legais feitas entre empresas, como a troca de créditos de
ICMS. A lei permite que uma empresa com recursos a receber do Estado
repasse esse direito a uma companhia devedora. É um negócio
especialmente interessante para empresas exportadoras. Para ser
concretizado, precisa de autorização da Secretaria
de Fazenda. No Rio de Janeiro, essa autorização era
negociada pelos fiscais corruptos e chegava a custar uma comissão
de até 30%. VEJA teve acesso ao caso de uma grande empresa
do setor de alimentos. Mesmo tendo direito a receber mais de 30
milhões de reais, caiu na rede dos fiscais. Para conseguir
seu dinheiro, teria de desembolsar 10 milhões de reais em
propinas.
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JOGO
DE EMPURRA
"Não
abri e não autorizei ninguém a abrir conta bancária
fora do país. Se existir de fato uma conta em meu nome na
Suíça, ela foi aberta sem meu conhecimento."
Rodrigo Silveirinha Corrêa, ex-subsecretário
de Administração Tributária, acusado de ter
remetido 8,9
milhões de dólares para a Suíça
"Ele
era sub do sub. Essas pessoas têm de ser tratadas como bandidos.
Nem as conhecia. Vim de Campos
e nem sabia quem eram."
Anthony
Garotinho, ex-governador do Rio
de Janeiro
"Eu
não o conhecia.
Fui conhecê-lo na equipe de transição de Garotinho."
Carlos
Antônio Sasse, secretário
de
Fazenda de Garotinho, que
nomeou Silveirinha
"Seria
muito mais bonito ele assumir que indicou pessoas erradas e que
não tinha conhecimento de que essas pessoas faziam isso do
que ficar negando ou querer jogar lama no ventilador dos outros."
Rosinha Garotinho, governadora
do Rio de Janeiro, sobre Carlos Antônio Sasse
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