
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Corrente
chapa-branca
"No
novo Brasil lulista, os bons sentimentos afundam na demagogia, os bons
propósitos esbarram no corporativismo, os bons princípios
camuflam a incompetência, os bons auspícios manifestam
um
otimismo cabalístico"
Decidi passar seis meses por ano no Rio de Janeiro. Tem mais a ver com
a fisioterapeuta do meu filho do que com a cidade em si. Aos poucos, porém,
vou me acostumando à vidinha carioca. Até comecei a ler
os cronistas locais. Em particular, Zuenir Ventura. Como pude sobreviver
esse tempo todo sem ele? Zuenir Ventura virou meu guia, meu oráculo.
Recorto seus artigos e releio-os compulsivamente, várias vezes
por dia. De tudo o que ele diz, eu digo o contrário. De tudo o
que ele faz, eu faço o contrário. É a coisa mais
cômoda que existe. Basta ver como ele se posiciona e, sem parar
para pensar, escolher o lado oposto. É bom viver sem pensar.
Outro dia, por exemplo, Zuenir Ventura elogiou o hábito dos banhistas
de Ipanema de aplaudir o pôr-do-sol. Desde então, quando
ouço os aplausos da janela de meu apartamento, sinto vontade de
arrumar as malas e ir embora daqui. Carioca é meio caipira. Aplaudir
o pôr-do-sol é pior do que aplaudir aterrissagem de avião.
A linguagem hiperbólica de Zuenir Ventura só reforça
o mal-estar: "Atordoados pela beleza, deslumbrados com o delírio
de luz e cor, os banhistas permanecem em contrito silêncio, observando
a enorme bola de fogo realizar sua lenta e cuidadosa descida". Em Ipanema,
o sol se põe atrás da favela do Vidigal. Zuenir Ventura
descreve a cena como uma autêntica "visão do paraíso".
Para mim, o paraíso tem esgoto e água encanada. E não
é do Comando Vermelho.
Para Zuenir Ventura, o pôr-do-sol da primeira terça-feira
do ano foi ainda mais espetacular do que o normal. Depois de consultar
especialistas em meteorologia, concluiu que o fenômeno estava diretamente
relacionado com a transição política do país.
O pôr-do-sol de Ipanema se tornou uma espécie de estrela
de Belém, anunciando o início de uma Nova Era. Ignoro qual
seja o significado simbólico para o fato de, desde aquele dia,
ter chovido sem parar no Rio de Janeiro. Zuenir Ventura está muito
esperançoso com o governo Lula. Tanto que já o definiu como
"histórico". É esquisito que alguém faça julgamentos
históricos antecipadamente. Que eu saiba, a história só
pode ser escrita depois dos acontecimentos. Trata-se, no máximo,
de uma aposta. Se Zuenir Ventura aposta a favor do governo, sou obrigado
a apostar contra. Todas as minhas fichas no preto, croupier.
Concordo que é um despropósito cismar com Zuenir Ventura.
Ele parece ser uma pessoa afável, generosa, simpática, disponível,
amiga. Fala bem de todo mundo e, mesmo quando assume um tom indignado,
continua inócuo. O problema é que passei a identificá-lo
com os aspectos mais irritantes do novo Brasil lulista: os bons sentimentos
afundam na demagogia, os bons propósitos esbarram no corporativismo,
os bons princípios camuflam a incompetência, os bons auspícios
manifestam um otimismo cabalístico. Como a maior parte dos brasileiros,
Zuenir Ventura aderiu a essa corrente para a frente, a essa corrente de
Santo Antônio chapa-branca. Espero que a tal lua-de-mel com o governo
acabe logo. Cansei de ver gente aplaudindo o pôr-do-sol. Cansei
de ler artigos sobre bursite.
|
|
 |