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O produtor holandês John de Mol, de 47 anos, é o responsável pela maior revolução ocorrida na TV nos últimos anos. Criador do programa Big Brother, sucesso que já foi exibido em mais de vinte países, ele transformou em febre mundial um novo gênero televisivo o reality show. Nesse rótulo, cabem desde atrações que mostram como interagem pessoas isoladas em um ambiente fechado, caso do Big Brother, até gincanas realizadas em lugares hostis, como No Limite. Filho de um cantor conhecido na Holanda, De Mol começou sua carreira como disc-jóquei de uma rádio pirata e se tornou um dos maiores empresários de comunicação de seu país. Surgida em 1994, sua empresa, a Endemol, criou mais de 300 programas de TV, entre os quais várias produções cujos formatos foram exportados recentemente para o Brasil, como Fama, Acorrentados e Amor a Bordo. Há pouco mais de dois anos, o grupo espanhol Telefónica assumiu o controle da Endemol, num negócio que envolveu 5 bilhões de dólares. Às vésperas da estréia da terceira edição do Big Brother no país, pela Rede Globo, De Mol concedeu esta entrevista a VEJA, por telefone, de seu escritório em Amsterdã. Ele conta como concebeu o programa, rebate as críticas feitas aos reality shows e fala sobre o futuro da televisão.
Veja Muitos críticos acreditam que os reality
shows baixaram ainda mais o nível da TV. O que o senhor pensa
a respeito disso?
De
Mol
Gosto de comparar o que está ocorrendo na televisão atualmente,
na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil, com o fenômeno que atingiu
a música pop nos anos 60. Naquela época, o surgimento do
rock'n'roll agravou a distância que separava os gostos da juventude
e dos mais velhos. Creio que hoje estamos vivendo um choque de gerações
parecido em relação à TV. Isso explica o estranhamento
causado pelos reality shows em certa parcela dos espectadores,
e muitas dessas críticas. Seja como for, se existe uma qualidade
na televisão, é o fato de ela ser um meio democrático:
caso você não goste de um programa, basta mudar de canal.
Veja Formatos que remontam aos primórdios da televisão,
como a telenovela, estariam com os dias contados?
De
Mol
De jeito nenhum. Na televisão sempre haverá espaço
para o melodrama. Os velhos formatos sobreviverão, mas para isso
terão de se reciclar, inclusive bebendo da fonte dos reality
shows. Na verdade, os espectadores não querem ver só
realidade, tampouco apenas ficção o ideal é
uma combinação desses ingredientes. Essa reciclagem já
tem sido feita nos últimos tempos. Um exemplo são os programas
de calouros, que eram a coisa mais jurássica em exibição
na TV até que surgiram atrações que fundem essa velha
fórmula com a novidade dos reality shows é
o caso de programas como Fama e Popstars. Tanto quanto a
telenovela ou os calouros, os reality shows são um formato
que veio para ficar. Aposto que daqui a quarenta anos eles ainda estarão
no ar. Só é preciso ter cuidado para não surrar demais
a fórmula. Durante algum tempo, os canais americanos e europeus
andaram exibindo reality shows além da conta e a saturação
dos espectadores ficou evidente quando os índices de audiência
começaram a cair. É que, tão logo uma emissora faz
sucesso com um programa do gênero, as outras criam versões
quase idênticas, e logo se fica diante da cópia da cópia
da cópia.
Veja Quais são os ingredientes que garantem o sucesso
de um novo programa?
De
Mol A
Endemol já produziu cerca de 300 programas dos gêneros mais
variados, e eu às vezes não consigo entender por que um
deles faz sucesso e outro, que parecia ser de maior apelo, não.
Televisão é a coisa mais imprevisível do mundo. Isso
se complica ainda mais pelo fato de que, neste momento, passamos por um
período de muitas mudanças. Com as possibilidades abertas
pelas novas tecnologias, a TV deverá viver uma revolução
nos próximos anos.
Veja Como a tecnologia pode mudar tão radicalmente
a TV?
De
Mol
Um bom exemplo é o próprio Big Brother. Dez anos
atrás, seria tecnicamente impensável realizar um programa
como esse. Não era possível gravar um grupo de pessoas durante
o dia todo, usando quinze câmeras, e depois editar rapidamente o
material gravado, para ir ao ar na mesma noite. Da mesma forma, novidades
que aparecerão nos próximos anos vão afetar muito
a relação do telespectador com a TV. Daqui a dois anos,
por exemplo, prevê-se que todo telefone celular trará uma
microcâmera acoplada e isso abrirá muitos horizontes
para a TV. Atualmente, estamos trabalhando em novos programas nos quais
o espectador participará utilizando esse equipamento.
Veja Como surgiu a idéia do Big Brother?
De
Mol
Para ser honesto, foi por acaso. Há cinco anos, promovemos um encontro
de criadores num hotel, para conceber um novo programa para uma emissora
holandesa. A reunião foi um fracasso: depois de passarmos o dia
todo juntos, não surgiu uma idéia sequer digna de nota.
Então, o jeito foi encher a cara num bar. Já tinha tomado
uma quantidade razoável de drinques quando alguém na mesa
mencionou que havia lido num jornal americano uma notícia sobre
um projeto científico chamado Biosfera 2, em que um grupo de pesquisadores
se isolara numa estufa por um longo período, como se estivessem
em outro planeta, e todo aquele blá-blá-blá. Logo
de cara, fiquei muito interessado em saber mais detalhes sobre o Biosfera
2 e o que acontecera na experiência. A idéia básica
do Big Brother nasceu aí. Engana-se quem imaginar que o
livro 1984, de George Orwell, tenha sido uma influência.
Não foi. Na obra de Orwell, é o governo que observa tudo
o que as pessoas fazem através de câmeras ele fala
de autoritarismo, e não de voyeurismo, como é o nosso caso.
Só peguei o nome Big Brother emprestado porque ele soava
melhor do que o título inicial do programa, A Gaiola Dourada.
Veja O Biosfera 2 falhou em seus objetivos científicos.
O que o levou a crer que algo inspirado nele funcionaria na TV?
De
Mol Antes
de responder a essa pergunta, gostaria de fazer uma observação:
o Biosfera 2 era um projeto sério que acabou se revelando uma piada,
enquanto o Big Brother é um programa de entretenimento que
acabou se tornando objeto de uma porção de estudos. A vida
é curiosa, não? Bem, a meu ver, os fatores que levaram ao
fracasso do projeto são exatamente os ingredientes que fazem o
sucesso do programa. Mas isso não ocorreu por acaso. Para conceber
o Big Brother, entrevistamos várias pessoas que ficaram
isoladas no projeto Biosfera 2 e tiramos lições que foram
aproveitadas na TV.
Veja Quais lições?
De
Mol A
coisa mais importante que aprendemos é que, quando um grupo permanece
isolado por muito tempo, todos os seus membros tendem a seguir um comportamento
mais ou menos padronizado. No começo, as pessoas tentam fingir
que são mais boazinhas do que realmente são. Depois de duas
ou três semanas, essas mesmas pessoas já não estão
mais nem aí com as aparências: caem as máscaras, e
elas passam a se comportar como na vida real. É o que ocorre nos
reality shows. Muita gente me pergunta se as pessoas que participam
de um programa como o Big Brother não estariam representando
personagens, e já se especulou até mesmo se poderia haver
fraudes deliberadas nesse sentido. Eu diria que o formato do programa
é à prova de farsas. Naquela situação, pode-se
representar um papel por duas semanas, mas não o tempo todo. Depois
de acompanhar tantas edições do Big Brother ao redor
do planeta, posso dizer que em nenhum lugar há pessoas 100% boas
ou 100% más. Todo mundo tem seu lado de crápula, e irá
exibi-lo em algum momento.
Veja A cada nova edição do Big Brother,
vemos casais se formarem no ar e participantes fazendo juras de amizade
eterna. A convivência num reality show pode gerar sentimentos
de amizade e amor autênticos e duradouros, ou será só
uma ilusão que acaba com o fim do programa?
De
Mol Não
creio que seja só ilusão. Num reality show, as pessoas
encontram-se isoladas e sob grande tensão. Essa situação
acaba funcionando como um catalisador capaz de acelerar a formação
de laços emocionais, tanto positivos quanto negativos, entre os
participantes. É perfeitamente possível nascer um caso de
amor sincero ao longo de um reality show ainda que, muitas
vezes, os casais dêem a impressão de estar apenas querendo
saciar um desejo físico mais imediato.
Veja Nos Estados Unidos, alguns ex-participantes de reality
shows estão processando redes de televisão porque julgam
que foram humilhados em cena. Os programas estão indo longe demais?
De
Mol
Posso garantir que não há espaço para humilhação
ou agressividade nos programas da Endemol. Numa edição do
Big Brother em Portugal, um participante partiu para a agressão.
Em trinta segundos, o sujeito já havia sido defenestrado. É
normal ocorrer pequenas intrigas, discussões e explosões
de ansiedade nessas produções, porque as pessoas enfrentam
uma situação de isolamento e pressão. Mas não
são esses conflitos que dão graça ao programa? É
o que o público quer ver. Costumo dizer que o Big Brother
é sempre um reflexo de cada país em que está sendo
gravado. Se você olhar para os lados, vai perceber que aquelas situações
que se vêem mais comumente no programa brasileiro, como os namoros
derramados, são coisas típicas de um ambiente social latino.
Veja Além do óbvio atrativo do prêmio
em dinheiro, o que leva as pessoas a se expor num reality show?
De
Mol
No mundo inteiro, há um padrão interessante nas respostas
dos candidatos que desejam participar de nossos programas. Quando questionados
por que eles gostariam de estar no Big Brother, por exemplo, todos
vêm com a mesma conversa: é pelo desafio, pelo dinheiro do
prêmio ou para se tornar famoso. Mas, se você reparar bem,
verá que o que leva as pessoas a participar é a sensação
de que a vida delas é muito previsível e monótona.
Elas acreditam que estar num reality show é uma chance de
quebrar o marasmo.
Veja Como já foi mencionado, o surgimento dos reality
shows provocou uma avalanche de ensaios e trabalhos acadêmicos
que teorizam sobre o apelo voyeurístico dessas atrações.
O senhor se interessa por esse tipo de discussão?
De
Mol
Só na Holanda, intelectuais já produziram mais de dez teses
acadêmicas e olha que apenas sobre o Big Brother.
Mas não me interesso por esses estudos, pois não tenho a
mínima propensão para a divagação teórica.
Deixo essa tarefa para os intelectuais que adoram tecer páginas
e páginas sobre os mecanismos psicológicos que levam as
pessoas a se comportar desta ou daquela maneira diante da câmera.
Como homem de TV, minha meta é simplesmente produzir programas
que atraiam o máximo de audiência.
Veja Como o senhor se transformou num produtor de TV?
De
Mol
Minha primeira experiência com comunicação de massa
foi como disc-jóquei de uma rádio pirata que mantive em
minha adolescência, nos anos 70. Eu transmitia a programação
de dentro de um barco ancorado no Mar do Norte. Como eu me divertia fazendo
aquilo sozinho, achava que nunca me adaptaria à TV, em que as produções
envolvem muita gente e são cheias de complicações
técnicas. Tive minha primeira chance com um emprego numa emissora
estatal, em que eu era encarregado de editar vídeos de futebol.
Mas foi mais tarde, quando atuei na transmissão de um concurso
de Miss Holanda, que compreendi o quanto aquele trabalho era empolgante.
Nunca mais parei de fazer televisão.
Veja O senhor aceitaria participar de uma edição
do Big Brother?
De
Mol
Se eu tivesse tempo para isso, acho que participaria sem constrangimento.
Dentre as centenas de programas que minha companhia produz, Big Brother
é um daqueles que não me assustam. Trata-se de um teste
fantástico para descobrir quem você é e quão
forte consegue ser de verdade, não do jeito que você
imagina ser. Adoraria descobrir se eu vim ao mundo para ser líder
ou se sou uma pessoa talhada para seguir os outros.
Veja O senhor imagina como seria seu desempenho?
De
Mol Talvez
fosse melhor fazer essa pergunta às pessoas que convivem comigo
e que conhecem bem meus defeitos. Basicamente, sou um sujeito recatado.
Por outro lado, sofro de impaciência, quero ver os resultados de
tudo muito rapidamente. Acho que, se não fosse eliminado logo no
começo, ganharia força ao longo do programa, com alguma
chance de disputar o prêmio no final.
Veja O senhor arriscaria prever que tipo de programa sucederá
os reality shows no gosto do público?
De
Mol Se
eu soubesse, não contaria a você.
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