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Tales
Alvarenga
O testamento do PT
"Resta uma questão desconfortável
para
os brasileiros. Como o petismo conseguiu
enganar tanta gente ao mesmo tempo?"
Segundo as últimas pesquisas,
o presidente Lula deverá perder a eleição de
2006. O partido mostrou-se incompetente e desonesto. E não
há carisma que se sustente quando a sociedade inteira descobre
que caiu num golpe de políticos espertalhões. Conforme
mostram as pesquisas, a fama ruim de Lula e do PT acaba de chegar
às periferias e aos grotões.
Feitas as contas, a experiência
do Brasil com os petistas saiu barata. Roubaram e mentiram muito,
mas, pelo menos, não destruíram as instituições
nacionais, como fez o fanfarrão Hugo Chávez na Venezuela.
Resta uma questão desconfortável para os brasileiros.
Como o petismo conseguiu enganar tanta gente ao mesmo tempo?
Lula conseguiu o milagre. Conquistou
simultaneamente as periferias e a inteligência acadêmica
com o mesmo discurso que hoje dá nos nervos dos brasileiros.
Suas metáforas simplórias e seu descompromisso com
a racionalidade encantaram igualmente os ignorantes e aqueles que
são tidos como grandes sábios. Conhecidos professores
da USP chegaram a posar como cenário de fundo para a propaganda
eleitoral criada pelo marqueteiro Duda Mendonça. Estão
com tanta vergonha do papel de bobo que Duda os fez representar
que, tagarelas como eram, andam mudos até hoje.
Lula tinha características
únicas como candidato, mas foi preciso aparecer Duda Mendonça
para fazê-las emergir. Ao contrário dos professores
que o apoiaram, nunca usou expressões que a malta não
entende, como "um mundo solidário" ou "a iníqua distribuição
de renda no país". Na campanha, falava em "três refeições
por dia" e na "segurança de um salário garantido no
fim do mês". Lula foi pobre na infância e sempre soube
falar com sinceridade das coisas que só os pobres conhecem.
Isso lhe trouxe o voto da periferia e do grotão. A classe
média aderiu quando Duda apagou a imagem do "sapo barbudo"
e criou o Lula boa gente, bem-comportado, cheio de amor para dar.
Os intelectuais das universidades,
esses vieram por gravidade. A universidade tende à esquerda.
Pode-se comparar a ilusão política da esquerda a um
impulso em direção ao primitivo. O intelectual esquerdista
acredita na pureza original do ser humano. Dispondo dessa matéria-prima
intocada, acha ele, pode-se construir uma sociedade livre de compulsões
como a ganância, o egoísmo e a inveja. O esquerdista,
mesmo que não tenha consciência desse fenômeno
(e em geral não tem), imagina que o capitalismo é
o pecado original da humanidade, aquele vício tenebroso que
torna o homem incapaz de cooperar com os semelhantes. A derrubada
do Muro de Berlim deu um solavanco nessa utopia regressiva. Mas
a pastoral retrô continua se esgueirando por aí, entre
saudosistas da velha bússola marxista.
Lula nunca foi esquerdista, mas
sempre enfatizou (indireta e inconscientemente) a necessidade de
despertar o bom selvagem que existiria dentro de cada um de nós.
Sua pregação é a da luta do bem contra o mal,
da solidariedade contra o egoísmo. Isso lhe trouxe a adesão
hipnotizada dos bispos católicos e dos intelecas. Tanto intelectuais
quanto bispos se sentiram traídos pelo "neoliberalismo" de
Antonio Palocci. Mas, a essa altura, já estavam presos no
alçapão lulista de apanhar pássaros distraídos.
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