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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Quando
a sociedade quer...
"Os brasileiros
aprenderam que vaga na escola é
inegociável. Mas não aprenderam que é crucial uma educação
de qualidade, em que se aprenda a ler, escrever e pensar"
Era uma vez um país muito grande e
muito quente. Era um país de lastimáveis tradições
educativas. Séculos se passaram antes que conseguisse abrir escolas para
todos os jovens. Mas quanto mais aumentava a matrícula, maior o número
dos que ficavam atolados no meio do caminho. Finalmente, as coisas boas começaram
a acontecer. O país conseguiu levar todos à escola e começou
a desatolar os que estavam travados no meio. Seguiu-se um enorme aumento nas graduações
do ciclo inicial de estudos. Houve assim mais alunos para abastecer um ensino
médio até então mirrado. Foi tão rápido o crescimento
das matrículas que, em dez anos, quase triplicou. Ao que parece, em nenhum
outro país do mundo o ensino médio cresceu a uma taxa tão
elevada. Nisso tudo, há um fator curioso a ser registrado. Nenhum estado
naquele país planejou fazer crescer a matrícula no ensino médio,
tampouco fez previsões orçamentárias para suportar tal crescimento.
As escolas cresceram, nem se sabe como, e o dinheiro para pagar as contas apareceu.
O país chama-se Brasil. Era
uma vez um país pequeno e frio aliás, muito frio. Há
alguns anos, o descontentamento popular contra a educação se exacerbou.
Aumentou a barragem de reclamações. Pelo que noticiava a imprensa,
a sociedade achava totalmente inadequada a qualidade da educação
oferecida pelo governo. E não se fazia de rogada nas queixas que se multiplicavam,
ocupando farto espaço na mídia apesar do estilo frio e circunspeto
do povo. Mas, em algum momento, alguém abre uma publicação
da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico (OCDE) em que se noticiavam os resultados do teste Pisa (Programa
Internacional para Avaliação de Alunos) e descobre que a educação
naquele país havia obtido o primeiro lugar no mundo. Ou seja, reclamavam
de barriga cheia, pois haviam obtido o melhor desempenho nesse teste (o mesmo
em que o Brasil obteve o último lugar). Alguns já terão adivinhado
tratar-se da Finlândia. Aparentemente, são casos que nada têm
em comum. Mas, pensando bem, têm tudo em comum, pois mostram o poder da
sociedade quando embirra que quer alguma coisa.
Ilustração Ale Setti  |
Durante muitos anos, faltaram
vagas nas escolas brasileiras, sem que isso causasse comoção ou
maior embaraço para os políticos e administradores. Mas progressivamente
a sociedade foi descobrindo que é uma excelente idéia ir à
escola e lá permanecer o maior número de anos possível. Com
as mudanças tecnológicas, aceleradas na década de 90, os
empregos bons migraram para os mais educados. Obviamente, todos entenderam que
era necessário ficar mais tempo na escola. As novas levas de graduados
do ensino fundamental tornaram-se maiores e muitos já formados quiseram
voltar a estudar. Políticos e administradores não ousaram deixar
que essa enorme massa de alunos ficasse sem vaga, e o dinheiro apareceu. Foi um
claro exemplo da sociedade querendo e podendo.
E na Finlândia, onde todos reclamam, apesar de a educação
ser ótima? É exatamente o contrário, a educação
é boa, justamente, porque todos reclamam. Mudando um pouco de assunto,
para ilustrar o ponto, ninguém reclama mais da culinária do que
os franceses. E ninguém tem melhor culinária do que a França.
É o espírito furiosamente crítico que impulsiona a culinária
ou a qualidade da educação.
Os brasileiros aprenderam que vaga na escola é inegociável
daí, quem se atreverá a negá-la? Mas não aprenderam
que é crucial uma educação de qualidade, em que se aprenda
a ler, escrever e pensar. Por isso, ainda não a temos. Somente quando o
preço político de oferecer educação de segunda qualidade
tornar-se proibitivo é que nossos administradores temerão pelas
suas carreiras e tratarão de melhorar a qualidade. Os problemas técnicos
são menores. Já fizemos coisas mais difíceis.
Os políticos têm excelentes radares, farejam de longe o que a sociedade
quer de verdade (Será que os congressistas realmente queriam cassar colegas?
Ou tornou-se politicamente perigoso não fazê-lo?). Se a demanda não
é para valer, fica tudo nos discursos grandiloqüentes. Mas, se a sociedade
exige, aí é diferente. Por isso, só teremos qualidade na
educação quando o governo perceber que não oferecê-la
trará perdas políticas temíveis. Claudio
de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net) |