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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Um certo José
Pensemos neste Natal
em sua figura
quieta, singela, trancafiada em sua
solidão e, talvez, em sua tristeza
No Natal garantem-lhe um lugar.
É quando ele assume seu posto no presépio, junto com
a mulher, o menino, o burro, a vaca, os pastores e os misteriosos
personagens chamados "reis magos". É um dos poucos papéis
que lhe atribuem. A rigor, um de apenas dois papéis
o outro é o de comandar a fuga da família para o Egito.
Depois ele desaparece dessa história, talvez a mais conhecida
do mundo, sem deixar rastro. Não avisam se morreu ou se foi
embora. Ele é produto de dois roteiristas desatentos que,
mal nos dão conta de sua existência, mudam de assunto
e se esquecem dele sem remédio.
Estamos falando de José,
esposo de Maria, mãe de Jesus um estranho personagem,
que se imagina solitário e taciturno, talvez triste, algo
desamparado, mas cumpridor. Os dois roteiristas desatentos são
os evangelistas Mateus e Lucas, os únicos a tratar da infância
de Jesus. Mateus ainda lhe dedica um pouco mais de cuidado, e descreve
seu incômodo ao saber que a mulher, que nunca tocara, estava
grávida. É o melhor momento de José, o mais
humano, o travo do marido traído a amargar-lhe a garganta
e a doer-lhe na testa. Estava ele ruminando sua infelicidade
e o troco que iria dar a Maria repudiá-la, ainda que
discretamente, sem expô-la à execração
pública quando lhe aparece, em sonho, o Anjo do Senhor
e informa que a gravidez era obra do Espírito Santo. Ah,
bom, se é assim... José conforma-se a seu destino
de marido de conveniência e pai de mentira.
Grande coisa, diriam os mais
céticos. Contando com a intimidade do Anjo do Senhor e as
privilegiadas informações que este lhe sussurrava
em sonho, quem ousaria agir diferentemente? Não nos deixemos
corromper. O fato é que José era bom. O melhor dos
homens. É possível supô-lo dia após dia
em sua oficina de carpinteiro, silencioso, modesto, enquanto no
filho despontavam excêntricos dotes e a mulher resplandecia
no prestígio sem paralelo de ter dado à luz sendo
virgem. Nos primeiros 1 000 anos do cristianismo, José não
mereceu homenagens da Igreja Católica. Só em 1129
surge a primeira igreja a ele dedicada em Bolonha, na Itália.
Na famosa Legenda Áurea, um repositório de
vidas de santos escrito por Jacopo de Varazze no século XIII,
José nem foi incluído. Seu culto só começa
de verdade no século XV, graças às pregações
de São Bernardino de Siena, Jean de Gerson e outros. Nesse
mesmo século o papa Sisto IV (1471-1484) finalmente o encaixa
no calendário romano, reservando-lhe a data de 19 de março.
José é desses personagens
concebidos para resolver certos problemas no enredo. Logo na abertura
do Evangelho de Mateus, ele resolve o primeiro, o de estabelecer
uma conexão entre Jesus e o rei Davi. Mateus apresenta uma
genealogia que começa com Abrão, chega a Davi, e de
Davi, 27 gerações depois, deságua em José.
Cumpria-se assim a profecia de que o Messias nasceria no tronco
de Davi, aparentemente tão necessária para convencer
os incréus que para esse efeito o evangelista se esquece
de que José não era um pai de verdade. Outro problema
que ele ajuda a resolver é o das várias menções,
no Novo Testamento, aos "irmãos de Jesus". Como a Igreja
fazia questão de preservar a virgindade de Maria, mesmo depois
do parto, surgiu a solução de atribuir os tais irmãos
a um casamento anterior de José. Esta tese concorre com outra,
mais favorecida pela Igreja Católica, segundo a qual, quando
nos Evangelhos está escrito "irmãos", deve-se ler
"primos".
Sobretudo, José resolve
o problema de completar uma família em torno de Jesus. Esta
a sua grande função no presépio: a de celebrar
as virtudes da família nuclear, tão prestigiosa, no
seu caso, que passa (e isso acontece na mesma época em que
começa a ser cultuado) a se chamar de "sagrada". Não
menos de acordo com as realidades da vida é a família
da mãe sozinha, e isso não só no tempo de Jesus
como em todos os outros, o nosso inclusive. No Brasil, a cada quatro
famílias, uma tem a mulher no comando. Mas um marido foi
julgado necessário, mesmo que a mulher prescindisse de seus
préstimos para gerar filhos, e lá foi José,
obsequioso como era de sua natureza, assumir o encargo, ainda que
intimamente talvez mortificado, ferido em seus brios de varão
e de macho. Assim que se cumprem os relatos da infância de
Jesus, ele desaparece de cena. Teria agora abandonado a família,
assim como tantos pais? Prefere-se, em seu favor, imaginar que morreu.
E, se morreu, babau. Morreu tão completamente que os evangelistas
não se deram ao trabalho de noticiar-lhe a morte.
José é, por excelência,
aquilo que no teatro e no cinema se chama de ator coadjuvante. Sua
função é criar condições para
que os outros brilhem. É uma função que exige
nobreza de sentimentos, essenciais que lhe são a renúncia
e o sacrifício. Pensemos em José, neste Natal, quieto
em seu canto, rústico, singelo, trancafiado em sua solidão
e seu sacrifício, talvez também em sua tristeza. Por
uma vez, pensemos em sua sorte, ao contemplar as figuras do presépio.
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