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Entrevista: Bolívar
Lamounier
A crise é positiva
O cientista político acha
que a aura mítica
de Lula acabou e isso pode ensinar os brasileiros a enxergar
seus governantes
de maneira mais lúcida

João Gabriel de Lima
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Fabiano Accorsi

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"O que amalgamou as diversas tendências
do PT foi a visão de que dentro da igreja do partido
estava a virtude, e fora dela o pecado" |
O cientista político Bolívar
Lamounier, de 62 anos, sempre foi um intelectual polêmico
à esquerda e à direita. Logo que o regime de 1964
se instaurou, Bolívar, recém-formado, foi fazer pós-graduação
nos Estados Unidos. Em 1966, veio a Belo Horizonte para visitas
familiares e acabou detido. Tornou-se o único preso político
sem processo formal no Brasil. Depois de três meses na cadeia,
ganhou habeas corpus e voltou para os Estados Unidos para concluir
seus estudos. Retornou ao Brasil em 1968 para iniciar sua carreira
de professor e bingo! foi "aposentado" pelo governo
militar. Com um detalhe curioso: foi retirado de uma função
que não tinha, pois o governo teoricamente só poderia
cassar funcionários públicos. Florestan Fernandes
e Fernando Henrique Cardoso, vítimas do mesmo decreto, se
enquadravam na categoria, mas Bolívar não era
professor de uma universidade privada. Se para a ditadura militar
o cientista político era um perigoso esquerdista, parte da
intelectualidade brasileira o via como "de direita", pelo fato de
ter estudado nos Estados Unidos e por professar uma crença
liberal-democrática. Filiado ao PSDB, Bolívar deu
a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Qual
a sua análise do atual governo?
Bolívar Infelizmente, o saldo até aqui
é negativo. Em primeiro lugar, é um governo que teve
como principal triunfo o fato de ter mantido a política econômica
da gestão anterior. Para fazer isso, no entanto, Lula teve
de comprar muitas indulgências, sob a forma de juros estratosféricos,
justamente porque durante mais de duas décadas o partido
dizia coisas muito vagas ou muito pouco realistas sobre economia.
Na política externa, temos tido uma seqüência
de equívocos muito grandes, como essa relação
carnal com a Venezuela e com Cuba. Do ponto de vista de gestão,
eu avalio o governo como bastante ruim. Mesmo um ministro destacado
e sério como Luiz Fernando Furlan, que está no setor
que tem os melhores resultados, o do comércio exterior, fez
uma crítica bastante contundente sobre a falta de projeto
e a falta de organização do governo. No social, existe
o Bolsa-Família, que é um pouco eleitoreiro, mas é
um programa amplo, e é necessário reconhecer isso.
Por fim, o governo afundou numa crise de corrupção
que atingiu o ponto mais vulnerável do PT, a questão
ética, porque era justamente aí que o partido se proclamava
melhor do que os outros.
Veja Ao desmoronar
como partido ético, o PT parece ter perdido todo o resto.
Por quê?
Bolívar O PT foi fundado quando o socialismo
no Leste Europeu estava a ponto de desmoronar. Assim, o socialismo
que o partido sempre disse que estava inventando teria de se distinguir
do marxismo-leninismo. Nessa metamorfose da ideologia de esquerda
numa coisa mais difusa, o elemento ético foi preponderando
sobre a visão da história e a teoria econômica
próprias do marxismo. Pelo lado programático, você
não uniria essa federação de grupos que forma
o PT estudantes, certo tipo de intelectuais, padres, sindicalistas,
funcionários públicos, muitos deles da extração
mais perfeitamente conservadora que o país havia produzido
nas décadas anteriores. O que amalgamou tudo isso foi a visão
messiânica de que dentro da igreja petista estava a virtude,
e fora dela o pecado.
Veja Os petistas
se defendem dizendo que corrupção sempre houve no
Brasil...
Bolívar A corrupção que se viu
neste ano é de um tipo que não tem paralelo na história
do país. Eu acho que não há dúvida de
que o PT montou um esquema para longo prazo. Tínhamos uma
rede, uma cadeia de práticas e organizações
ocultas, cuja finalidade era interligar publicidade, bancos, empresas,
e provavelmente instituições no exterior também,
porque o que o Duda Mendonça disse na televisão deixa
mais do que claro que há elos no exterior. É tão
vasta e tão complexa a rede que se pode dizer que havia um
organograma. Ou seja, para representar isso no papel você
precisa de um gráfico bastante complicado. É óbvio
que isso não foi criado só para pagar umas bandeirinhas
e umas camisetas. Basta lembrar que houve casos documentados de
diretores de partido que tiraram em espécie no banco algo
como 10 milhões de reais. Se um caso comprovado é
dessa ordem de grandeza, não é difícil imaginar
qual a magnitude total da coisa. É também evidente
que o esquema não era apenas para financiar gastos de uma
campanha passada, mas sim para continuar funcionando. Se fosse apenas
para 2002, os elos teriam sido rompidos. Mas ninguém rompeu
elo nenhum. O esquema só desmoronou quando foi descoberto.
Nunca houve no Brasil nada remotamente semelhante.
Veja Nem no
governo de Fernando Collor?
Bolívar Collor não teve nem tempo de
montar um esquema assim. Ele surgiu na vida nacional já durante
a campanha de 1989, improvisadamente. Aí, de repente, montou
uma pequena quadrilha, que arrecadou fundos e, depois da eleição,
continuou arrecadando para fins privados e isso tornou sua
condenação mais fácil. Collor foi ejetado do
governo como pessoa física, como líder de um grupo
de pessoas físicas que se apropriou do Estado. Aí
é que está a diferença nevrálgica em
relação ao caso petista. O PT montou seu esquema para,
aparentemente, financiar o partido a longo prazo. Eu não
vou entrar no mérito do que é mais grave, se é
roubar para fins privados ou roubar para um partido. O que eu quero
é tipificar. Um partido que faz um esquema desses para se
perpetuar no poder tem um ranço totalitário muito
sério. Ele está achando que é justo, ético,
legal e patriótico montar uma rede de corrupção
para si próprio. O PT acredita que o benefício dele
é eticamente superior ao benefício de outras agremiações.
Isso o caracteriza como um partido não-democrático.
Se é essa a justificação que o PT consegue
imaginar para esse comportamento o de que roubava para o
partido, e não para fins privados , isso, a meu ver,
piora o soneto.
Veja Quando
se compara a magnitude do escândalo com o número de
punidos, muita gente tem a sensação de que saiu barato
para os corruptos. É isso mesmo?
Bolívar Para mim, a figura da quebra de decoro
parlamentar tem de ser muito mais política do que jurídica.
O voto do plenário deve decidir se o deputado, ou senador,
cometeu algum ato que o inabilita para o convívio político-parlamentar,
como autoridade da República que ele é. Eu acho que
assim o Congresso seria forçado a definir os padrões
do que ele acha razoável. Um exemplo da vida real: os deputados
que buscaram, ou mandaram buscar, dinheiro num banco. O simples
fato de que o sujeito foi, ou mandou alguém ir, com seu conhecimento
pleno, buscar dinheiro em espécie, dinheiro cuja origem ele
desconhecia mas que sabia que não era legal, para mim já
é razão suficiente para a exclusão do Parlamento.
Se isso vai envolver outros crimes tipificados na legislação,
se vai dar cadeia, já é uma outra discussão.
Veja Isso não
leva ao risco de cassações eminentemente políticas?
Bolívar É possível, mas acho
que é muito pior o risco contrário, de ninguém
jamais ser cassado. Isso levaria à desmoralização
da instituição, à transformação
do Congresso num antro de corrupção, fisiologismo,
trazendo inevitável desapreço da opinião pública.
Isso seria péssimo para a democracia.
Veja Como o
senhor viu a batalha jurídica do deputado José Dirceu
para manter seu mandato?
Bolívar Foi coerente com a linha de defesa
adotada pelo partido, de que ninguém sabia de nada. Ora,
José Dirceu foi durante anos o homem que mais mandou no PT,
e mesmo assim nunca tomou conhecimento das práticas de financiamento
do partido? É um conto da carochinha. Se não sabia
de nada, José Dirceu é de uma incompetência
inacreditável, não consigo entender como passou trinta
meses na Casa Civil.
Veja A seu ver,
quanto Lula sabia?
Bolívar O presidente Lula tem uma biografia
reverenciada, é um homem pobre que veio do Nordeste, que
venceu na vida, que teve um papel vital durante a ditadura militar.
Em face dessa questão, ele tem o benefício da dúvida
mais elástico que se possa imaginar. Eu não estou
propondo o impeachment do presidente, nada disso. Mas eu penso que
ele não estava dizendo a verdade. Eu não consigo imaginar
que um presidente da República ignore por anos a fio como
eram financiadas as diversas campanhas petistas, para deputado,
para senador, e a sua própria, que foi a mais cara da história
do Brasil. Será que ele não se perguntou de onde vinha
o dinheiro? A melhor resposta para esse questionamento foi do próprio
Delúbio Soares, quando disse que o pessoal acreditava em
Papai Noel. Quer dizer, muitos petistas achavam que um senhor de
barbas brancas descia com um trenó puxado por renas e cheio
de sacos de dinheiro.
Veja Como o
senhor vê a postura dos intelectuais petistas diante da crise,
como por exemplo Marilena Chaui?
Bolívar Especificamente no caso de Marilena
Chaui, eu acho que ela, confrontada com a crise, abdicou do papel
de intelectual. Um intelectual deve participar, analisar, dar luzes
a seus alunos e mesmo aos integrantes do partido ao qual se filia.
A tese que ela defendeu, segundo a qual era tudo uma conspiração
da mídia contra o PT, é absurda. Como se o PT nunca
tivesse praticado nenhuma corrupção e tudo fosse um
complô para derrubar Lula. Diga-se, em defesa de Marilena,
que ela não é a única intelectual que vem se
omitindo. Existem vários outros que estão devendo
uma explicação.
Veja Quem?
Bolívar O próprio Chico Buarque nunca
disse muito bem o que ele pensa de Cuba a esta altura do campeonato,
quando se sabe que milhares de execuções já
foram perpetradas pela ditadura de Fidel Castro. Não sei
se Antonio Candido já falou sobre isso. Que eu saiba, não.
Se essas pessoas tivessem uma postura mais independente, mais crítica,
e se dissessem em alto e bom som o que pensam, eu imagino que até
pudessem ter um papel no futuro da ilha quando ela desmoronar de
vez, com a morte de Fidel.
Veja O senhor
diz e escreveu que a tentação populista é um
traço forte do caráter nacional. Essa tentação
ainda existe?
Bolívar Eu nunca digo que em política
algo não pode acontecer. Os sistemas de governo não
são naturais, são construções. Você
pode ter rupturas e retrocessos. Por exemplo, no início do
século XX a Argentina era infinitamente mais rica do que
o Brasil, tinha uma situação social melhor, e um nível
educacional muito mais alto. O desempenho político da Argentina
ao longo do século XX, no entanto, foi péssimo, muito
pior do que o do Brasil, com muito mais crises e muito mais golpes.
Outro caso clássico foi a Alemanha, que sucumbiu ao delírio
do nazismo. Bush disse recentemente que, com o avanço econômico,
a China se transformará necessariamente numa democracia representativa.
Acho uma afirmação prematura. Se os chineses começarem
agora a criar instituições pluralistas, talvez isso
aconteça, mas existe também a possibilidade de se
tornar um novo tipo de totalitarismo. O caso brasileiro é
curioso. Não temos uma construção institucional
tão boa, mas ela é certamente robusta. E é
assim porque, ao contrário do que José Dirceu disse
recentemente que a democracia no Brasil começou com
o PT , ela começou em 1824, quando se fez a opção
pelo princípio representativo, e em 1826, quando se estabeleceu
o Parlamento. A implantação dos mecanismos democráticos
no Brasil tem quase 200 anos. Não é à toa que
são tão enraizados. Os países latino-americanos,
com exceção talvez do Chile, sempre tiveram caudilhos.
Veja Como o
senhor vê a personalidade de Lula e como ela influencia o
governo?
Bolívar Fernando Henrique, ao mesmo tempo em
que é um facilitador de relacionamentos por sua personalidade
afável, sua cordialidade e sua simpatia, tem também
opiniões muito fortes sobre o conteúdo das políticas
públicas. Ele dialoga, ele ouve, ele cede, mas sabe exatamente
o que quer em cada setor. Lula não me parece que seja assim.
Ele também é afável, é brincalhão.
Como Fernando Henrique, é um facilitador de relacionamentos.
Mas eu não vejo em Lula um interesse em entender e dominar
os diversos aspectos do funcionamento estatal. Não estou
nem de longe aludindo a problemas de instrução. Apenas
não vejo nele essa motivação. Sua principal
virtude é atuar como um facilitador de relacionamentos numa
equipe heterogênea. Esse papel fica bem num presidente do
PT, justamente por ser um partido com tantas tendências. De
um presidente, espera-se que imprima uma orientação
ao governo.
Veja Os escândalos
podem tornar os brasileiros descrentes da democracia e das instituições
políticas?
Bolívar Vejo mais aspectos positivos do que
negativos. A pessoa que se diz desencantada, que xinga o governo,
que freqüentemente está falando do assunto com os colegas
está participando da política, e isso é bom.
Outro ponto positivo: tirar o aspecto mágico e messiânico
do PT e de Lula traz benefícios para todo mundo. Países
não têm nada a ganhar com a mistificação
ou a idolatria. O mundo político lida com interesses que
precisam ser negociados, compostos e orientados, e isso não
se pode desenvolver quando se acredita em mágica. Terceiro
ganho: muitos mecanismos de reforma serão acionados. Por
exemplo: o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu com todas as letras
que nunca havia lido relatório de nenhum partido sobre a
parte financeira. O TSE sempre exerceu muito bem o papel de proteger
o eleitor contra coações de vários tipos, mas
fiscalizar o partido político no gasto de campanha ele nunca
fez, e no ano que vem certamente vai fazer. A reforma política
também voltou à agenda, depois de ser dada como morta.
Por último, há o aspecto didático da crise.
Você teve em sete meses, de maneira compacta, densa e em tempo
integral, um curso a respeito da corrupção política
para 85 milhões de eleitores. Com organograma, com descrição
dos procedimentos, mostrando como o dinheiro sai daqui e entra ali.
Isso é fantástico, não tem paralelo em nenhum
país do mundo. Não de forma tão espetacular,
tendo até um personagem teatral, shakespeariano, na figura
de Roberto Jefferson. A crise ensinou muita coisa ao eleitor brasileiro,
e esse aspecto positivo supera os negativos.
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