Edição 1936 . 21 de dezembro de 2005

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André Petry
"Todo político é ladrão"

"A Câmara dos Deputados não gosta
quando o eleitor generaliza dizendo que
'todo político é ladrão'. Talvez devesse
então trabalhar para desfazer essa
impressão. E não o contrário"

A Câmara dos Deputados acaba de informar à platéia que pegar dinheiro sujo pode. Embolsar dinheiro de origem desconhecida pode. Confessar publicamente que pegou dinheiro sujo e de origem desconhecida também pode.

A Câmara dos Deputados mandou o recado acima ao país inteiro quando absolveu o deputado Romeu Queiroz, do PTB de Minas Gerais, por 250 votos a 162. Absolveu-o de qualquer punição, ainda que Romeu Queiroz seja um mensaleiro confesso.

A Câmara dos Deputados achou absolutamente inocente o fato de Romeu Queiroz ter sacado 453.000 reais da conta de Marcos Valério – 103.000 reais vindos do caixa dois da Usiminas e 350.000 reais vindos sabe-se lá de qual latrina financeira.

A Câmara dos Deputados permanecerá tendo entre seus membros o deputado Romeu Queiroz, que começou sua carreira política em 1986 – e enriqueceu. Até então era um modesto funcionário da Caixa Econômica Federal, mas nos últimos vinte anos, enquanto cumpria três mandatos de deputado estadual em Minas e dois mandatos de deputado federal em Brasília, enriqueceu. Tornou-se dono de três concessionárias de veículos e da segunda maior empresa de ônibus de Contagem. Seu patrimônio declarado à Justiça Eleitoral no ano passado é de 6,2 milhões de reais.

A Câmara dos Deputados é uma casa de amigos muito fraternos. Romeu Queiroz, depois de ser absolvido com folga, foi claro na explicação da gênese de sua vitória. "Tenho muitos amigos na Casa", disse. Comentou ainda que recebeu pelo menos cinqüenta votos da bancada do PT. No governo do PT, um ministro, Walfrido Mares Guia, do Turismo, foi autorizado a abandonar seu posto de trabalho para empenhar-se em plenário pela absolvição do amigo. "Eu o conheço há 35 anos e sei que ele não tirou nenhum tipo de vantagem de natureza alguma", disse Mares Guia, também do PTB de Minas, absolvendo o infrator confesso.

A Câmara dos Deputados acha que não fez nada de mais em preservar o mandato de Romeu Queiroz. Seu porta-voz e presidente, o deputado Aldo Rebelo, explicou que "cada caso é um caso". Queria tranqüilizar a platéia, sugerindo que os próximos mensaleiros a sentar no banco dos réus podem vir a ser punidos com a perda do mandato – como, aliás, mandam a lei, o bom senso e a vergonha na cara.

A Câmara dos Deputados convenceu-se da defesa de Romeu Queiroz, que disse não ter ficado com um único tostão dos 453.000 reais que sacou do valerioduto. Ele diz que distribuiu tudo para as campanhas de correligionários.

A Câmara dos Deputados acaba de decretar o seguinte: pode-se pegar dinheiro sujo e clandestino desde que o criminoso entenda que seu destino é limpo e nobre.

A Câmara dos Deputados não gosta quando o eleitor, ao responder às pesquisas, exagera e generaliza dizendo que "todo político é ladrão". De fato, é uma generalização injusta.

A Câmara dos Deputados talvez devesse então trabalhar para desfazer essa impressão. E não o contrário.

 
 
 
 
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