|
André
Petry
"Todo político
é ladrão"
"A Câmara dos Deputados
não gosta
quando o eleitor generaliza dizendo que
'todo político é ladrão'. Talvez devesse
então trabalhar para desfazer essa
impressão. E não o contrário"
A Câmara dos Deputados
acaba de informar à platéia que pegar dinheiro sujo
pode. Embolsar dinheiro de origem desconhecida pode. Confessar publicamente
que pegou dinheiro sujo e de origem desconhecida também pode.
A Câmara dos Deputados
mandou o recado acima ao país inteiro quando absolveu o deputado
Romeu Queiroz, do PTB de Minas Gerais, por 250 votos a 162. Absolveu-o
de qualquer punição, ainda que Romeu Queiroz seja
um mensaleiro confesso.
A Câmara dos Deputados
achou absolutamente inocente o fato de Romeu Queiroz ter sacado
453.000 reais da conta de Marcos Valério 103.000 reais
vindos do caixa dois da Usiminas e 350.000 reais vindos sabe-se
lá de qual latrina financeira.
A Câmara dos Deputados
permanecerá tendo entre seus membros o deputado Romeu Queiroz,
que começou sua carreira política em 1986 e
enriqueceu. Até então era um modesto funcionário
da Caixa Econômica Federal, mas nos últimos vinte anos,
enquanto cumpria três mandatos de deputado estadual em Minas
e dois mandatos de deputado federal em Brasília, enriqueceu.
Tornou-se dono de três concessionárias de veículos
e da segunda maior empresa de ônibus de Contagem. Seu patrimônio
declarado à Justiça Eleitoral no ano passado é
de 6,2 milhões de reais.
A Câmara dos Deputados
é uma casa de amigos muito fraternos. Romeu Queiroz, depois
de ser absolvido com folga, foi claro na explicação
da gênese de sua vitória. "Tenho muitos amigos na Casa",
disse. Comentou ainda que recebeu pelo menos cinqüenta votos
da bancada do PT. No governo do PT, um ministro, Walfrido Mares
Guia, do Turismo, foi autorizado a abandonar seu posto de trabalho
para empenhar-se em plenário pela absolvição
do amigo. "Eu o conheço há 35 anos e sei que ele não
tirou nenhum tipo de vantagem de natureza alguma", disse Mares Guia,
também do PTB de Minas, absolvendo o infrator confesso.
A Câmara dos Deputados
acha que não fez nada de mais em preservar o mandato de Romeu
Queiroz. Seu porta-voz e presidente, o deputado Aldo Rebelo, explicou
que "cada caso é um caso". Queria tranqüilizar a platéia,
sugerindo que os próximos mensaleiros a sentar no banco dos
réus podem vir a ser punidos com a perda do mandato
como, aliás, mandam a lei, o bom senso e a vergonha na cara.
A Câmara dos Deputados
convenceu-se da defesa de Romeu Queiroz, que disse não ter
ficado com um único tostão dos 453.000 reais que sacou
do valerioduto. Ele diz que distribuiu tudo para as campanhas de
correligionários.
A Câmara dos Deputados
acaba de decretar o seguinte: pode-se pegar dinheiro sujo e clandestino
desde que o criminoso entenda que seu destino é limpo e nobre.
A Câmara dos Deputados
não gosta quando o eleitor, ao responder às pesquisas,
exagera e generaliza dizendo que "todo político é
ladrão". De fato, é uma generalização
injusta.
A Câmara dos Deputados
talvez devesse então trabalhar para desfazer essa impressão.
E não o contrário.
|