Ponto
de vista:Lya
Luft Sem retoque
ou com retoque?
"Gosto de ser
otimista, mas não posso perder
a visão da realidade, e nela não vejo nada deslumbrante"
Ilustração
Atômica Studio
Detesto o pessimismo e as lamúrias. Mas, às
vezes, eu me sinto assim, quando penso um pouco sobre as notícias
nossas de todo dia, que apresentam uma realidade em parte
coberta por uma pesada maquiagem. Como agir nessa situação
bipolar? De um lado, ficamos alucinados e eufóricos,
porque a Copa é nossa, as Olimpíadas serão
nossas, o petróleo é nosso, a cultura é
nossa, a educação e a saúde idem. A Copa
é nossa fica ótimo. Desde que signifique atletas
mais bem-cuidados, bem alimentados, tendo bons patrocínios
e benefícios que durem e perdurem bem depois desse
grande evento. Novos estádios e reforma dos já
existentes, animação do turismo, hotéis
lotados, dinheiro circulando, muitos novos empregos. Tudo
bem. Desde que não haja também dinheiro escoando
para bolsos indevidos.
Temos, por outro
lado, um olhar lúcido que percebe que somos atraídos
por miragens habilmente construídas. Os cientistas
entrevistados sobre a monstruosa jazida de petróleo
que já foi anunciada um ano atrás, sem
nenhum alarde são, no mínimo, discretos:
é qua-se uma hipótese ainda a possibilidade
de explorar o que fica a uma profundidade nunca antes explorada.
Precisaremos inventar novas tecnologias, preparar novos especialistas.
Meu velho pai dizia: "Não conte com o ovo antes
de a galinha botá-lo". Eis uma verdade eterna.
O imenso ovo da nova jazida ainda está no quentinho
de sua mãe.
Parece que a economia
vai bem. Mas o que significa o índice Bovespa para
quem ganha salário? A saúde receberá
não sei quantos bilhões: quando, como, onde,
na realidade real? O que vejo são hospitais pobres
e podres, médicos desesperados ou demitidos, doentes
atendidos em saguões (ou não atendidos), prateleiras
de remédios vazias, consultas de casos graves marcadas
para daqui a seis meses, um ano. Essa é a realidade
real.
A notícia
recente de que nosso PIB de 2005 foi maior do que disseram
os resultados de então é, no mínimo,
suspeita. O PIB era ou não era aquele? Se foi ruim,
para nosso conforto, a gente manda recalcular e muda o resultado?
Fazemos isso com a maior simplicidade, e meio mundo se regozija.
Viva, como estamos bem! Mas vejo escolas vazias por falta
de professores (quem ainda quer lecionar ganhando menos do
que uma empregada doméstica mediana?), sem luz, sem
merenda, sem a menor condição. Boa parte da
juventude brasileira está fora da escola, pedindo esmola
nas esquinas, servindo de avião para os traficantes,
assaltando com armas poderosas na mão ainda infantil.
Temos um boom imobiliário.
Nunca se anunciaram e construíram tantos edifícios.
Vamos voltar ao assunto daqui a dez, vinte anos, quando
como ocorre agora nos Estados Unidos os compradores
não puderem mais pagar as prestações,
pois hoje se vende apartamento a um prazo insano. Nada de
mais: já nos endividamos por um ano inteiro na festa
de Natal, e daí?
Gosto de ser otimista.
O pessimismo radical merece uma bala na cabeça, fim,
acabou-se a chatice. Mas não posso perder a visão
da realidade, e nela não vejo nada deslumbrante. É
verdade que há coisas boas em curso. Nem todas as descobertas
de corrupção foram definitivamente engavetadas,
embora ainda não se possa dizer que a impunidade é
rara. A revelação de trambiques, trampas e roubalheiras
assusta pelo inesperado e pelas dimensões, mas nos
dá certo alento. Em boa hora, pois a gente anda cansado
de usar o nariz de palhaço e o cenário de papelão.
Que os deuses permitam que as autoridades tenham autoridade
moral, que os governantes governem para o bem, que o povo
não seja usado para melhorar o jardim das delícias
alheio. Que, com ordem, se desfrute um progresso verdadeiro,
generalizado, seguro e... sem retoques.