Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Viagem à Europa,
modelo 1830
O diário de
um médico anglo-baiano mostra
como era viajar no tempo das embarcações
a vela e das diligências
Cansado dos tormentos
nos aeroportos? Irritado com os buracos nas estradas? Um consolo
para o leitor é travar conhecimento com o que era viajar
nos idos de 1830. Um livro recente, O Diário de
Jonathas Abbott (Editora Francisco Alves), dá uma
idéia muito concreta da aventura em que então
consistia uma viagem do Brasil à Europa, ou mesmo os
deslocamentos dentro da Europa. Jonathas Abbott, nascido na
Inglaterra e radicado na Bahia desde a adolescência,
tinha 34 anos quando empreendeu a viagem. Médico e
professor de medicina já então de algum destaque,
em Salvador, e que mais destacado ainda se tornaria depois,
ele fez a viagem com o objetivo de aperfeiçoar-se em
Paris com os luminares da época em medicina e cirurgia,
mas não deixou de, nos intervalos dos estudos, empreender
viagens de turismo pela Itália e de visita aos parentes
na Inglaterra. Durante os dois anos de permanência na
Europa, manteve um diário, que dormiu nos arquivos
da família até ser publicado pelo trineto, embaixador
Fernando Abbott Galvão, também responsável
pelas minuciosas notas e apêndices que acompanham o
volume.
Abbott partiu de
Salvador no dia 20 de julho de 1830 e em 19 de setembro desembarcou
em Dover, na Inglaterra, porto de destino da galera sueca
Ariadne. O vento, como é compreensível,
para quem viajava numa embarcação a vela, é
o grande protagonista do diário durante a travessia.
Uma hora, caprichoso, ameaça empurrar a galera ao encontro
da costa do Canadá. Em outras, ausenta-se. "Há
dois dias que estamos em calmaria, andando caranguejamente
com os movimentos mais engraçados do mundo", anota
o diarista em 26 de agosto. Da Inglaterra à França
ele atravessa nessa nova maravilha que é o barco a
vapor. O percurso não dura mais que onze horas, e o
viajante comemora: "Isto é andar, o mais é
peta". Do Porto de Calais, toca ir a Paris um
percurso que não chega a 300 quilômetros, mas
que cobrou dois dias para ser vencido. Abbott viajou numa
diligência com outras 25 pessoas e bagagens respectivas.
Os cavalos "não queriam, ou não podiam,
correr; promessas, carinhos, chicote, a nada os brutos se
moviam". Às vezes os passageiros desciam, para
aliviar o peso do veículo.
Tanto melhor que
o viajante dispunha da arma do humor, para contrabalançar
os dissabores. Muitos meses depois, durante uma viagem de
Paris a Marselha, coube-lhe dividir a carruagem com uma freira
"cujos pezinhos exalam os suaves perfumes do queijo podre".
Como observa Rubens Ricupero, no prefácio do livro,
a viagem ParisMarselha (cujos 750 quilômetros
se vencem hoje em três horas no TGV, o trem de alta
velocidade francês) implicava ficar "uma semana
encerrado dentro de uma caixa apertada, não podendo
entrar ar fresco por causa da poeira, obrigado a aturar todos
os cheiros estranhos de passageiros para os quais o banho
era luxo raro".
Se o leitor está
cansado dos rituais dos aeroportos, passaporte para cá
e para lá, revista, abre a mala, tira o sapato, espera
pela bagagem, o diário de Abbott mostra que, também
nesse item, as coisas já não eram agradáveis.
Ao voltar à França, depois de uns dias na Inglaterra,
ele tem retidas na alfândega as calças que adquirira
em Londres tecido inglês estava proibido de entrar
na França. Em outra ocasião, ao subir de Nápoles
para Roma, naquela Itália então dividida em
vários pequenos estados, teve seu passaporte examinado
cinco vezes, ao penetrar nos domínios pontifícios
sendo que, "de cada vez, se pára e se paga".
Caso se esteja igualmente cansado de, no estrangeiro, ser
assaltado por comparações desfavoráveis
ao Brasil, o livro é um lenitivo. Diante do panorama
que lhe oferece a Paris de 1830, recém-sacudida pela
revolução que destronou a dinastia Bourbon e
pôs o rei-cidadão Luís Felipe em seu lugar,
observa: "No Brasil temos rusgas, mas não tão
bárbaras e ferozes como as dos franceses". Ao
passar ao largo da Sardenha, quando viajava para a Sicília,
o capitão do navio lhe diz que ali as pessoas iam à
missa com fuzil no ombro, e que, se ocorre de um barco avariar-se
pelas proximidades, em vez de receber socorro, será
roubado. Conclusão de Abbott: "Toda a Europa,
portanto, não está mais adiantada que o Brasil,
que tanto esses senhores acusam de bárbaro e cruel".
Inglês de nascimento,
ele se mostra o mais brasileiro dos brasileiros, o mais baiano
dos baianos, e está sempre morrendo de saudade. Sente
falta das frutas da Bahia: "Quem me dera o pé
de uma laranjeira... um coco mole para lhe beber a água!".
No Jardim Botânico de Marselha, depara com uma bananeira
e lhe tira o chapéu, "tão satisfeito
fiquei de ver uma patrícia, mesmo entre as plantas".
Sobretudo, Abbott tem saudade das namoradas, inclusive
que tipo, e que época! as que deixou entre as
recolhidas de um convento de Salvador. Estamos diante de alguém
sempre alerta aos encantos femininos, que lança em
seu diário apreciações sobre a qualidade
das mulheres de cada cidade, e cujos olhos se deleitam quando
conseguem vislumbrar um pedaço de perna. Nem tudo eram
agruras, nas viagens.