John Neschling fez história
à frente da Osesp. Está na hora de pensar na sucessão
Sérgio
Martins
Monalisa
Lins/AE
Neschling
e a orquestra: trapalhadas políticas e limitações sonoras
Recentemente,
a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) anunciou sua
temporada de concertos para 2008. O maestro carioca John Neschling, seu diretor
artístico, qualificou a programação de "ambiciosa".
No entanto, dos dezenove regentes convidados, só três são
do primeiro escalão: o francês Michel Plasson, o polonês Antoni
Wit e o alemão Helmuth Rilling. Também são poucos entre os
visitantes os instrumentistas notáveis: destacam-se os violinistas Sarah
Chang e Boris Belkin. No repertório, buscou-se uma equação
já consagrada, que privilegia os compositores canônicos com pequenas
incursões pelo contemporâneo e pela música brasileira. Assim,
pode-se prever, para o público, uma temporada agradável, mas de
forma nenhuma surpreendente. Quanto à própria orquestra, não
há nada na programação que permita imaginar um passo adiante
em sua evolução, e muito menos um salto de qualidade. Ela deve permanecer
estacionada no patamar (respeitável) que alcançou. O que leva a
uma indagação legítima: depois de dez anos sob a batuta de
Neschling, teria a Osesp chegado a um ponto de estagnação?
John
Neschling assumiu uma Osesp decadente em 1997 e a transformou no melhor grupo
sinfônico que o país já teve. Internamente, ele promoveu uma
revolução. Afastou instrumentistas e soube atrair novos talentos.
Também foi hábil no campo político. Conseguiu que o governo
paulista gastasse 44 milhões de reais na construção da Sala
São Paulo, uma excelente sala de espetáculos. O mesmo governo destina
à Osesp um orçamento anual polpudo, atualmente da ordem de 43 milhões
de reais. Neschling recebe um salário de 100 000 reais por mês.
Mas os músicos, sob sua administração, também viram
subir seus rendimentos. O salário médio na orquestra é hoje
de 8 000 reais.
Neschling rege
com segurança partituras de Beethoven ou Mahler, que compõem o repertório
básico de qualquer orquestra. Mas não é um maestro brilhante.
Suas limitações ficam evidentes na execução de peças
de grande complexidade rítmica ou naquelas de arranjo intricado, que requerem
clareza para que os detalhes não se percam. A explicação
mais freqüente para essa deficiência é que o maestro não
tem um gestual preciso. Faz movimentos circulares com a batuta seus detratores
o apelidaram de "o regente que rege redondo" e não dá
a entrada para os músicos no momento apropriado. Os defensores de Neschling
o comparam a Wilhelm Furtwängler, lendário chefão da Filarmônica
de Berlim, que também não tinha um gestual bonito. Só que
ele deu à orquestra um padrão sonoro que nem seu sucessor, o egocêntrico
Herbert von Karajan, ousou alterar. A Osesp não possui um padrão
tão claro ela apenas toca forte, e transmite vigor. Mas, quando
é preciso modular esse vigor, os problemas sobressaem novamente. Em peças
com filigranas, a Osesp soa empastelada, enquanto os músicos parecem disputar
um troféu de força. Em março deste ano, a orquestra fez turnê
pela Europa. Um dos atrativos do repertório era La Mer (O Mar),
de Debussy. Neschling consultou um solista de renome sobre sua leitura da obra.
"Soou como um bloco de concreto jogado no mar", foi a resposta.
Além
de talento artístico, o diretor de uma grande orquestra precisa ter habilidade
nos bastidores. Neschling é um homem hábil e corajoso, mas dilapidou
parte de seu patrimônio cultivando um estilo imperial. Nas coxias, já
não conta com a simpatia incondicional dos músicos da orquestra.
Que fique bem entendido: regentes não nasceram para ser simpáticos.
Daniel Barenboim passa carraspanas ruidosas e Lorin Maazel surge nos ensaios da
Filarmônica de Nova York com uma carranca de dar medo. Mas os músicos
extraem uma recompensa estética do convívio com essas figuras difíceis.
Na Osesp, há frustração. Nesch-ling grita demais e não
mostra o tino de outrora para detectar e corrigir deficiências da orquestra.
Um maestro europeu que comandou a Osesp em 2006 reclamou da afinação
do naipe de sopros. Outro sentenciou: "Nunca vi músicos com tanto
medo de se soltar".
Neschling conta
com o apoio do conselho da Osesp, instituição formada por notáveis
como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o economista Persio Arida. Mas
acumula polêmicas e trapalhadas políticas. Foi desastrosa sua condução
da crise que, em 2006, maculou o Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos (houve
sinais de que a seleção dos concorrentes foi manipulada). Duas semanas
atrás, ele teve de pedir desculpas formais ao governador de São
Paulo, José Serra, a quem chamou de "mimado" e "autoritário"
num momento de destempero (o discurso foi parar no site YouTube).
Segundo
músicos e ex-colaboradores, Neschling pro-pala a tese de que a orquestra
correria risco caso ele saísse. Pensar assim é desconsiderar o fato
de que, graças ao seu próprio trabalho, a Osesp é hoje uma
instituição sólida. É também cultivar fantasias
do tipo "depois de mim, o dilúvio". Faz parte da vida de grandes
orquestras trocar de comando (veja quadro). Conduzir uma transição
desse tipo acrescentaria uma estrela ao currículo de Neschling. O mundo
da regência vive um bom momento. Há nomes que despontam, como o do
finlandês Osmo Vanska, que opera milagres na limitada Orquestra Sinfônica
de Minnesota, nos Estados Unidos, ou o do americano David Zinman, autor de uma
revolucionária leitura das nove sinfonias de Beethoven. Talvez pudessem
trazer um sopro de novidade à Osesp. E por salário equivalente ao
de Neschling.
FOI BOM ENQUANTO DUROU
Maestros
que souberam sair na hora certa
Kurt
Masur Orquestra: Gewandhaus, de Leipzig
(1970-1996) Principais feitos: imprimiu sua personalidade na orquestra,
que teve o compositor Mendelssohn entre seus diretores artísticos. Suas
gravações das nove sinfonias de Beethoven com a Gewandhaus são
históricas O que aconteceu com a orquestra: depois de Masur,
trabalhou com os maestros Herbert Blomstedt e Riccardo Chailly e ainda é
uma das grandes orquestras da Europa
Eddy
Risch/Keystone/AP
Eddy
Risch/Keystone/AP
Claudio
Abbado Orquestra: Filarmônica
de Berlim (1989-2002) Principais feitos: provou ser um substituto à
altura de Herbert von Karajan, uma lenda da regência. Suavizou a sonoridade
da orquestra e fez gravações impecáveis das sinfonias de
Beethoven e Mahler O que aconteceu com a orquestra: contratou o inglês
Simon Rattle para a vaga de Claudio Abbado. Rattle tem mais carisma e potencial
de vendas que seu antecessor
Esa
Pekka-Salonen Orquestra: Filarmônica
de Los Angeles (1992-2009) Principais feitos: trouxe um público
jovem para os concertos. O carisma dele foi fundamental para que a diretoria da
filarmônica investisse 274 milhões de dólares na construção
da Walt Disney Concert Hall O que aconteceu com a orquestra: escolheu
para a vaga de Salonen o venezuelano Gustavo Dudamel, um jovem e promissor talento
da regência