Os jornalistas Plinio Apuleyo
Mendoza, colombiano, Carlos Alberto Montaner, cubano, e Álvaro
Vargas Llosa, peruano, tiveram uma felicidade rara na vida
dos escritores. O trio cunhou uma expressão definitiva:
"perfeito idiota latino-americano". Sob essa rubrica,
abriga-se a barulhenta turma dos que atribuem ao capitalismo
todos os males do mundo, dos que abominam os Estados Unidos
e admiram o comunismo tropical de Cuba. Pouco mais de dez
anos depois de O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano,
a trinca reuniu-se novamente para barrar a marcha do socialismo
encarquilhado, ainda que com roupagem "do século
XXI" sobre este continente. A Volta do Idiota
(tradução de André Pereira da
Costa e Luciano Trigo; Odisséia; 240 páginas;
34,90 reais), que chega agora às livrarias brasileiras,
é uma análise devastadora da nova onda de idiotia
que vem afligindo a América Latina, com representantes
vistosos na Venezuela, na Bolívia, no Equador. O livro
também traz duas outras expressões que prometem
se popularizar: esquerda carnívora e esquerda vegetariana.
A primeira é representada por caudilhos autoritários
como Hugo Chávez. Na sua versão vegetariana,
a esquerda adaptou-se ao mundo globalizado e fez as pazes
com os fundamentos da economia de mercado e do estado democrático.
Michelle Bachelet, presidente socialista do Chile, é
o melhor exemplo dessa corrente.
Incluído entre os vegetarianos,
o presidente Lula é tratado com condescendência no livro. Seu compromisso
com a responsabilidade fiscal é elogiado, com a ressalva de que o crescimento
econômico do Brasil é pífio se comparado aos resultados de
emergentes como China e Índia. A Volta do Idiota responsabiliza
o "sistema político brasileiro" pela impossibilidade de aprovar
reformas que aliviem a carga fiscal que pesa sobre as empresas como se
o governo que anda aí brigando para manter a CPMF tivesse algum desejo
de maneirar a mordida tributária. Em uma perífrase desajeitada,
os autores ainda afirmam que Lula "não combateu como deveria"
a "corrupção do partido governista". Em entrevista a VEJA,
Álvaro Vargas Llosa filho do romancista Mario Vargas Llosa, que
assina o prólogo de A Volta do Idiota admite que o livro
pega leve com Lula, por razões estratégicas: "Ele merece nosso
apoio por ter se afastado, até agora, da tentação populista
que assola a América Latina", diz.
As trapalhadas peronistas do argentino Néstor Kirchner, o indigenismo de
fancaria do boliviano Evo Morales e os delírios nacionalistas do equatoriano
Rafael Correa são devidamente destroçados em A Volta do Idiota.
O melhor capítulo é dedicado ao ditador venezuelano Hugo Chávez,
o tiranossauro rex da esquerda carnívora. A formação ideo-lógica
de Chávez é examinada em detalhe e revela uma inusitada parceira
entre a esquerda carnívora e a direita mais feroz. O guru político
de Chávez foi o fascistão argentino Norberto Ceresole, que chegou
a ser conselheiro do general e ditador Viola. A partir das idéias fascistas
de Ceresole, Chávez desenhou o caminho para a sua "revolução
bolivariana", através da cooptação das Forças
Armadas e da concentração de poder, com o progressivo enfraquecimento
da democracia representativa. "Na Colômbia, no Peru, no México,
Chávez tem financiado ilegalmente ONGs e movimentos políticos próximos
ao seu populismo. É uma estratégia mais insidiosa, e portanto mais
perigosa, do que as guerrilhas que Fidel Castro financiou nos anos 70", diz
Llosa. O idiota mais perigoso é aquele que às vezes mostra esperteza.
DIVISÕES DO JURÁSSICO
Os
líderes da esquerda latino-americana segundo os autores de A Volta
do Idiota
A
ESQUERDA CARNÍVORA O ditador da
Venezuela, Hugo Chávez, não respeita princípios democráticos
básicos como a liberdade de imprensa e o direito à propriedade.
É um perigoso dinossauro carnívoro
A
ESQUERDA VEGETARIANA O presidente Lula
foi carnívoro na oposição mas, uma vez eleito, aderiu
a regras fundamentais como a responsabilidade fiscal. Tornou-se um dinossauro
herbívoro
A função social é
um roubo
O
socialista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) deixou uma palavra
de ordem famosa: "A propriedade é um roubo". Poderia ser um slogan
para aquela esquerda que os autores de A Volta do Idiota chamam de "carnívora".
Em Reflexões sobre o Direito à Propriedade (Campus/Elsevier; 214
páginas; 39 reais), Denis Lerrer Rosenfield, professor de filosofia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, faz uma defesa candente mas rigorosa
do direito individual à propriedade. Se o direito à propriedade
é relativizado, argumenta o autor, todos os valores do estado de direito
democrático podem ruir. Restrições à propriedade com
base em uma vaga "função social" só alimentam a
sanha predatória de organizações como o Movimento dos Sem-Terra.
O livro não se limita ao tema de seu modesto título: um de seus
aspectos mais interessantes é a análise crítica da "democracia
participativa" proposta por certas correntes de esquerda (dentro do PT, por
exemplo, já surgiu a idéia brilhante de que o presidente deveria
ser capaz de chamar plebiscitos nacionais sem a aprovação do Congresso).
É por meio de plebiscitos e mobilizações de massa que a esquerda
mais radical consegue minar a democracia representativa. "A subversão
da democracia se faz hoje por meios democráticos", diz Rosenfield.
É o processo que está em curso na Venezuela, onde a nova Constituição
de Hugo Chávez, "democraticamente" aprovada por um Congresso
submisso ao ditador, prevê que o governo pode expropriar qualquer tipo de
bens por motivos de "interesse social".
Carlos
Casaes/Ag. A Tarde
Invasão
de terras promovida pelo MST: ataque ao estado de direito