Toma Lá,
Dá Cá mistura o espírito
da chanchada à fórmula da comédia americana
Marcelo
Marthe
Fotos
divulgação/Globo
Toma
Lá, Dá Cá: elenco que mistura novatos e "macacas
velhas"
Toma Lá,
Dá Cá, da Rede Globo, é um humorístico à
moda antiga. Nos últimos anos, a tendência na emissora foi investir
em produções como A Grande Família e A Diarista,
gravadas com cenários variados, tomadas externas e apuro técnico
semelhante ao das novelas. Além disso, esses programas têm o ritmo
ditado pelos cortes e colagens da mesa de edição. Já o Toma
Lá, Dá Cá pretende emular as comédias de situação
americanas as sitcoms em seu formato mais tradicional. Tão
velho quanto a televisão (basta lembrar de I Love Lucy, dos anos
50), o gênero se caracteriza pela economia de recursos. Toma Lá,
Dá Cá, que fala sobre duas famílias de um condomínio
carioca, é produzido em estúdio, com cenários mínimos,
e em ritmo teatral: o texto de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa é
representado sem pausas, com uma única repetição para acertar
os erros. Uma platéia de cerca de 100 pessoas faz as vezes de claque. Como
nas sitcoms, o riso é devidamente editado. Mas o jeitão artesanal
é preservado no produto final.
Quando o Toma Lá, Dá Cá foi lançado, em agosto,
parecia mero repeteco de Sai de Baixo, que reinou nas domingueiras entre
1996 e 2002. Lá estavam os mesmos Miguel Falabella e Marisa Orth que faziam
o escroque Caco Antibes e a burralda Magda. Mas Sai de Baixo nada tinha
a ver com uma sitcom. Estava mais para chanchada: gravado num teatro, com ampla
participação da platéia, consistia tão-somente numa
sucessão de gagues. O roteiro era quase inexistente e os atores tinham
espaço para improvisar. "Éramos macacas velhas que se revezavam
falando bobagem no palco", lembra Falabella. Em Toma Lá, Dá
Cá segue-se a cartilha americana, o que exige um esforço de
carpintaria por parte dos roteiristas. As piadas têm de se suceder em ritmo
acelerado em média três por minuto e as várias
situações precisam se entrelaçar, de maneira que todo o elenco
contribua para a trama.
Em tempo: se
os trunfos de uma sitcom são as boas atuações e um roteiro
afiado para funcionar, Toma Lá, Dá Cá passa bem no
primeiro quesito. Arlete Salles está impagável como Copélia,
a avó com idade mental de adolescente, e a escalação do elenco
jovem foi feliz com destaque para Fernanda Souza no papel de Isadora, a
adolescente de classe média convertida em funkeira. Para alívio
geral, Falabella e Marisa Orth estão mais contidos do que de costume. Falabella,
aliás, chama atenção pela forma física. Ou melhor:
a falta de. "Engordei 8 quilos porque parei de fumar", diz o ator. "Mas
no próximo Carnaval este corpão vai dar espetáculo na avenida."
Não deixa de ser curioso que a Globo aposte numa sitcom quando esse formato
vive dias de ocaso em sua origem. O gênero já dominou o horário
nobre da TV americana. Desde o fim de Friends, porém, não
deu origem a nenhum grande sucesso. Toma Lá, Dá Cá atingiu
a média de 24 pontos no ibope, o que não é nada de extraordinário
(A Diarista, que era exibida no mesmo horário nas noites de terça,
saiu do ar marcando 22). Mas satisfaz à Globo, que deve investir em outra
temporada no ano que vem. Ao menos por enquanto a sit-com, essa espécie
televisiva ameaçada de extinção, encontrou refúgio
no horário nobre brasileiro.
Ela é pura graça
Fernanda:
"Sou a própria garota sanfona"
O
elenco de Toma Lá, Dá Cá tem seus macacos velhos,
como Miguel Falabella e Diogo Vilela. Mas os novatos chamam atenção.
Conhecidas até agora apenas no teatro, Alessandra Maestrini e Stella Miranda
seguram a onda como a empregada caipira e a síndica corrupta. O desconhecido
George Sauma, em seu primeiro papel de destaque na TV, também convence
como o adolescente Tatalo. Quem mais tem ganhado cacife com a participação
na sitcom, contudo, é a atriz Fernanda Souza intérprete da
abusada Isadora. A cúpula da Globo é só elogios para o seu
desempenho. "Há tempos não surgia uma artista com seu timing
cômico", diz um executivo da emissora. "Estou apaixonado",
derrete-se Falabella.
Fernanda, de
23 anos, despontou ainda adolescente como protagonista da novelinha Chiquititas,
do SBT. Contratada pela Globo, ficou um bom tempo relegada a papéis menores
quando os conseguia. "Eu até fazia testes, mas não passava
em nada", diz ela. Depois de dois anos sem contrato, foi resgatada pelo noveleiro
Walcyr Carrasco e pelo diretor Jorge Fernando, que a chamaram para fazer a novela
das 6 Alma Gêmea (2005). A personagem Mirna, que contracenava com
uma pata, foi um sucesso. Em O Profeta (2006), seu trabalho seguinte, ela
teve de engordar 7 quilos (à base de pizza) para viver a professora Carola
que novamente se transformou em uma âncora da trama. Para se ajustar
à silhueta provocante de Isadora, Fernanda teve de perder os mesmos 7 quilos.
"Eu sou a própria garota sanfona", diz. Mas ela nem pensa em
reclamar. Fernanda conquistou um contrato de longa duração com a
Globo, até 2011. Um fato raro para atriz tão jovem.