Uma nova geração
de colecionadores
vai em busca de arte contemporânea
Mike Clarke/AFP
Campos de Trigo
Vincent van Gogh, 1890
Preço estimado:
de US$ 28 milhões
a US$ 35 milhões
Não vendido no
leilão da Sothebys
O
economista canadense John Kenneth Galbraith definiu certa
vez o estouro de uma bolha econômica como "tragédia
em que nada se perde, a não ser dinheiro". A idéia
é mais verdadeira quando se trata do comércio
de artes, que não tem impacto sobre a vida dos comuns
mortais. Mas o colapso de um mercado é sempre um espetáculo
momentoso, e por isso o resultado de um leilão da Sothebys
causou muito frisson. O leilão aconteceu no dia 7 e
foi extraordinário porque um quadro de Vincent van
Gogh não alcançou o preço mínimo
de venda. Van Gogh pintou o sétimo quadro mais caro
do mundo, O Retrato do Dr. Gachet, vendido em 1990
por 82,5 milhões de dólares. Agora, ninguém
se dispôs a pagar 28 milhões de dólares
por Campos de Trigo, da fase final do holandês.
Pior ainda: das 76 obras impressionistas e modernas postas
à venda, várias não atingiram preço
mínimo e outras dezenove ficaram encalhadas, todas
elas assinadas por mestres como Picasso, Renoir, Gauguin,
Miró e Monet. Um evento que esperava arrecadar 355
milhões de dólares estacionou em 270 milhões.
Parecia o sinal de que um mercado aquecido estava prestes
a desmoronar algo que se vaticina há tempos.
Na semana passada,
contudo, novos leilões realizados pela própria
Sothebys e por sua concorrente Christies mostraram
que ainda não foi desta vez que a "bolha das artes"
arrebentou. O que acontece é a entrada em cena de um
novo grupo de colecionadores, dotados de um gosto próprio
e talvez um pouco menos impulsivos na hora de fechar negócios.
Desde os anos 80, algumas levas de compradores de arte debutaram
no mercado. Primeiro vieram os milionários japoneses,
depois os oligarcas russos e alguns misteriosos magnatas de
Hong Kong, Cingapura ou Dubai. Os novatos de agora são
executivos de fundos de investimento, que estudam cada lance
tendo em vista o lucro mas nem por isso deixam de ter
suas preferências artísticas.
Stefan Wermuth/Reuters
Homme à la Pipe
Pablo Picasso, 1969
Preço estimado:
de US$ 12 milhões
a US$ 15 milhões
Vendido no leilão da Sothebys
por US$ 11,8 milhões
Philipe Ségalot,
um ex-diretor da Christies, descreve desta forma os
recém-chegados num artigo da revista The New Yorker:
"Esses jovens nasceram numa sociedade definida pelos
meios de comunicação. Eles se identificam mais
com a arte contemporânea do que com a arte moderna e
são muito competitivos. Querem superar os melhores
museus, e é só colecionando arte contemporânea
que você pode fazer isso". Ora, nos leilões
da semana passada os pintores contemporâneos alcançaram
cotações expressivas (e inéditas para
muitos deles). Na Sothebys, duas obras do inglês
Francis Bacon foram vendidas por 33 milhões e 46 milhões
de dólares. Na Christies, uma tela de Mark Rothko
também chegou a 33 milhões de dólares.
Do Rio de Janeiro, o marchand Jean Boghici observa o movimento.
"Os colecionadores querem algo produzido em sua época",
diz ele. Mas, especialista em modernistas, Boghici também
sentencia: "Quem não comprou aquele Van Gogh bobeou.
A obra é boa, e o preço estava ótimo".