Em um esporte iluminado
nos últimos anos por longilíneas atletas russas,
a tenista belga Justine Henin é uma notável
exceção. Franzina e asmática, ela consagrou-se
pela terceira vez como a melhor do circuito internacional
de tênis feminino. Vencedora de dois dos quatro principais
torneios (Roland Garros e o Aberto dos Estados Unidos) de
2007, ela encerrou a temporada com um total de dez títulos.
O último foi o Masters de Madri, disputado pelas oito
melhores tenistas do ranking. A vitória final, no domingo
11, foi sobre a russa Maria Sharapova, dublê de tenista
e modelo cuja altura é 21 centímetros superior
à de Justine. Tamanho é documento no tênis?
Quem vê a belga na quadra percebe logo que isso é
bastante relativo. O repertório de jogadas perfeitas
e a capacidade de surpreender as adversárias fazem
dela uma jogadora superior às grandonas do circuito
e explicam seu espetacular índice de 63 vitórias
em 67 partidas em 2007.
Uma tenista mais
alta ou mais forte usufrui algumas vantagens, principalmente
para sacar ou para bloquear a bola próxima à
rede. Na partida entre Venus Williams e Justine no Aberto
dos Estados Unidos, em setembro, o saque mais rápido
da americana atingiu a velocidade de 196 quilômetros
horários. O da belga não ultrapassou 188 quilômetros
por hora. Fora isso, o tênis continua sendo um esporte
no qual a técnica e a tática se sobrepõem
à constituição física. A pequena
belga sabe bater na bolinha de forma a compensar a estrutura
física menor. Seu repertório de golpes é
mais diversificado se comparado ao de jogadoras possantes,
como Venus Williams. Sua capacidade de identificar os pontos
fracos das adversárias e explorá-los ao máximo
é excepcional. "Ela sabe ler muito bem as dificuldades
das jogadoras e atacar justamente onde elas não gostam",
disse a VEJA Larri Passos, treinador de Gustavo Kuerten.
Justine tem uma
história atribulada. Sua mãe morreu quando ela
estava com 12 anos. Aos 17, pouco depois de se tornar tenista
profissional, rompeu com o pai e saiu de casa para morar com
o namorado. O rompimento foi causado pela intenção
paterna de controlar sua carreira. Esse tipo de conflito é
bastante freqüente no mundo do tênis feminino.
Justine e o futuro marido, Pierre-Yves Hardenne, foram morar
em um apartamento sobre o açougue da família
dele. Evidentemente, seu talento já era conhecido e
ela pôde seguir carreira com a ajuda financeira da Federação
Belga de Tênis e de alguns parentes. Justine só
voltou a reencontrar o pai neste ano, quando ela foi visitar
um irmão que havia sofrido um acidente de carro. O
ano foi tumultuado por outro acontecimento: a separação
do marido. Justine atingiu o topo do ranking pela primeira
vez em 2003. Naquele ano, submeteu-se a um período
de treinamento exaustivo nas mãos do preparador físico
americano Pat Etcheberry o mesmo que aprimorou o desempenho
dos tenistas americanos Pete Sampras e André Agassi.
"Eu tinha vontade de chorar e, depois dos treinos, não
conseguia sequer descer escadas, tal a dor nas pernas",
contou a tenista numa entrevista. "A estatura de Justine
esconde um preparo físico impecável. Esse pode
ser atestado pela maneira como ela corre de um lado para o
outro da quadra", observa o preparador físico
catarinense Mark Caldeira.
Neste ano, Justine
descobriu que sofre de asma crônica. Ela sentiu dificuldade
para respirar durante o Aberto dos Estados Unidos e decidiu
ficar fora do torneio seguinte, em Pequim. A poluição
da cidade chinesa poderia agravar sua asma recém-diagnosticada.
Com 25 anos, Justine já atingiu uma idade madura para
o tênis. Entre as dez melhores do mundo, só Serena
Williams (26 anos) e Venus Williams (27) são mais velhas.
Mas não falem de aposentadoria com ela. Justine já
anunciou a intenção de jogar até os 30
anos. Seu treinador, o argentino Carlos Rodríguez,
atribui a motivação de Justine não ao
dinheiro, mas à sua personalidade forte e combativa.
Sem o físico esbelto ou o rostinho bonito das russas,
Henin quase não consegue aumentar seu patrimônio
com as atividades extraquadra da maioria de suas colegas.
A principal fonte de renda de Maria Sharapova é a publicidade.
Em um ano, a russa ganha fora do tênis quase a mesma
quantia que Justine conseguiu faturar com os prêmios
recebidos durante toda a carreira: 19 milhões de dólares.
Não significa, evidentemente, uma situação
de pobreza. Na verdade, ela bateu o recorde feminino em prêmios
acumulados em uma temporada. Foram 5,3 milhões de dólares
neste ano. Para se ter uma idéia de como isso é
um bom dinheiro no circuito profissional, o espanhol Rafael
Nadal, número 2 do mundo, ganhou 4,6 milhões
de dólares neste ano, apesar de o tênis masculino
pagar prêmios bem maiores que os do feminino.