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21 de novembro de 2007
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"Descontrola, descontrola!"

Cineastas contratam Fátima Toledo para arrancar
do elenco, não importa como, as emoções necessárias


Julia Duailibi

 

Fotos Lailson Santos
A preparadora de elenco Fátima Toledo submete seus pupilos a um duro treinamento. Numa aula, a modelo Ticiane Pinheiro pula, berra e se atira no chão até machucar o joelho: "A dor desbloqueia"

No cinema brasileiro, o preparador de elenco é um profissional em ascensão. Quase todos os filmes de destaque dos últimos anos contaram com o seu trabalho. A mais influente é Fátima Toledo, de Tropa de Elite e Cidade de Deus. Em seu rastro seguem nomes como Sergio Penna (Bicho de Sete Cabeças), Walter Lima Junior (Cazuza) ou Márcio Mehiel (Crianças Invisíveis). É a busca do naturalismo e, acima de tudo, o desejo de pôr gente comum para atuar o que leva diretores importantes a delegar poder ao preparador, que muitas vezes dá o tom das cenas. Em Tropa de Elite, por exemplo, só Wagner Moura, o capitão Nascimento, lia o roteiro previamente. Todos os outros diante das câmeras ficavam sabendo o que tinham de fazer quando Fátima Toledo lhes dava uma ordem. Ao contrário do coach americano, contratado para ajudar um ator a construir um personagem e superar dificuldades específicas, como aprender um sotaque, o preparador brasileiro cuida do elenco como um todo. Seu repertório de técnicas é eclético e chega à bioenergética (terapia segundo a qual o corpo sempre fala a verdade) e ao cundalini (tipo de ioga para despertar a energia vital). Isso soa um bocado "holístico", mas os fins são pragmáticos. Pode-se dizer que o Brasil está criando uma escola de "atuação de resultados", cujo objetivo é arrancar do elenco – não importa como, e pouco importa se formado por veteranos ou amadores – as emoções necessárias. "Aqui não há construção de personagem. Faço os atores viver cada situação", diz Fátima. Ela é a formuladora daquilo que alguns já chamam de O Método.

Fátima Toledo é uma alagoana brava de 54 anos, pouco mais de 1,50 metro de altura, cabelos curtos e ruivos. No começo dos anos 80, dava aula de teatro na Febem e foi contratada pelo cineasta Hector Babenco para lidar com os meninos que atuariam em Pixote, uma das primeiras produções nacionais a contar com preparação de elenco. Fátima usa o cundalini, mas é mesmo conhecida pelas dores que impõe aos pupilos. Com ela por perto, não é raro que haja choro, vômito ou pancadaria nos ensaios. Num de seus exercícios, ela põe música alta e atiça o pessoal: "Descontrola, descontrola!". Seus discípulos pulam, gritam, atiram-se na parede, chamam-se de lagartixa. Em Cidade Baixa, os amigos Wagner Moura e Lázaro Ramos acabaram se atracando depois de dançar uma valsa, na qual tinham de apontar os defeitos um do outro. Em Tropa de Elite, Wagner Moura viu nascer seu personagem, o capitão Nascimento, quando, humilhado, de quatro no chão, explodiu e partiu para cima do ex-capitão do Bope que ajudava Fátima no treinamento. O ex-policial saiu com o nariz quebrado. "As pessoas chegam para filmar carregadas de lixo pessoal. Se eu não tirar isso, não consigo entrar. A dor desbloqueia", diz a preparadora.

Há quem procure Fátima Toledo para fazer um desbloqueio preventivo – vai que aparece uma boquinha no cinema. O playboy Ricardo Mansur e a modelo Ticiane Pinheiro se submeteram à tortura e foram indicados para um papel. Muitos atores tarimbados que passaram por suas mãos tremem ao lembrar da experiência e temem sua influência nos bastidores. Poucos criticam O Método. Mas há discordâncias. Márcio Mehiel foi assistente de Fátima, é todo elogios para ela, mas hoje se diz adepto de técnicas mais suaves. "É como médico: tem gente que dá floral, tem gente que dá tarja preta", diz. Na mesma linha vai o ator e diretor de teatro Celso Frateschi. "Preparação é um trabalho de pesquisa sério", afirma. "Essa coisa de sadomasoquismo é mais que ridícula. É deplorável."

 

O PASSO-A-PASSO DO "MÉTODO"

Como a preparadora de elenco Fátima Toledo adestra suas vítimas – sejam elas leigos, sejam atores tarimbados como Wagner Moura

Divulgação
Wagner Moura


Primeiro passo
OLHAR 43

O que é: descobrir a personalidade do ator, seus medos e fraquezas
Como:
submetê-lo a situações de pressão e testar sua tolerância por meio de exercícios físicos e psicológicos. Também vale o uso de técnicas como o cundalini e a bioenergética
Máxima:
"olho muito as pessoas, elas se traem a todo momento"


Segundo passo
VISTA A CAMISA

O que é: extrair características do ator que têm a ver com as do personagem
Como: é preciso quebrar barreiras emocionais pelos conflitos físico e verbal. Exceto nas cenas de sedução, que pedem algo mais suave, como a oleoterapia e a massagem
Máxima: "Exercícios mostram a pessoa, e então eu consigo entrar. A dor quebra a pessoa, e ela mostra quem é"


Terceiro passo

CÂMERA, AÇÂO

O que é: cuidar do ator na filmagem da cena
Como: o preparador permanece no set e dá ordens. Os atores não recebem o roteiro e têm de improvisar, o que dá naturalidade ao filme
Máxima: "Não há construção de personagem. Faço os atores viver cada situação"



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