Cineastas contratam Fátima Toledo para arrancar
do elenco, não importa como, as emoções
necessárias
Julia Duailibi
Fotos Lailson Santos
A preparadora de elenco Fátima
Toledo submete seus pupilos a um duro treinamento. Numa
aula, a modelo Ticiane Pinheiro pula, berra e se atira
no chão até machucar o joelho: "A dor
desbloqueia"
No
cinema brasileiro, o preparador de elenco é um profissional
em ascensão. Quase todos os filmes de destaque dos
últimos anos contaram com o seu trabalho. A mais influente
é Fátima Toledo, de Tropa de Elite e
Cidade de Deus. Em seu rastro seguem nomes como Sergio
Penna (Bicho de Sete Cabeças), Walter Lima Junior
(Cazuza) ou Márcio Mehiel (Crianças
Invisíveis). É a busca do naturalismo e,
acima de tudo, o desejo de pôr gente comum para atuar
o que leva diretores importantes a delegar poder ao preparador,
que muitas vezes dá o tom das cenas. Em Tropa de
Elite, por exemplo, só Wagner Moura, o capitão
Nascimento, lia o roteiro previamente. Todos os outros diante
das câmeras ficavam sabendo o que tinham de fazer quando
Fátima Toledo lhes dava uma ordem. Ao contrário
do coach americano, contratado para ajudar um ator
a construir um personagem e superar dificuldades específicas,
como aprender um sotaque, o preparador brasileiro cuida do
elenco como um todo. Seu repertório de técnicas
é eclético e chega à bioenergética
(terapia segundo a qual o corpo sempre fala a verdade) e ao
cundalini (tipo de ioga para despertar a energia vital). Isso
soa um bocado "holístico", mas os fins são
pragmáticos. Pode-se dizer que o Brasil está
criando uma escola de "atuação de resultados",
cujo objetivo é arrancar do elenco não
importa como, e pouco importa se formado por veteranos ou
amadores as emoções necessárias.
"Aqui não há construção de
personagem. Faço os atores viver cada situação",
diz Fátima. Ela é a formuladora daquilo que
alguns já chamam de O Método.
Fátima Toledo
é uma alagoana brava de 54 anos, pouco mais de 1,50
metro de altura, cabelos curtos e ruivos. No começo
dos anos 80, dava aula de teatro na Febem e foi contratada
pelo cineasta Hector Babenco para lidar com os meninos que
atuariam em Pixote, uma das primeiras produções
nacionais a contar com preparação de elenco.
Fátima usa o cundalini, mas é mesmo conhecida
pelas dores que impõe aos pupilos. Com ela por perto,
não é raro que haja choro, vômito ou pancadaria
nos ensaios. Num de seus exercícios, ela põe
música alta e atiça o pessoal: "Descontrola,
descontrola!". Seus discípulos pulam, gritam,
atiram-se na parede, chamam-se de lagartixa. Em Cidade
Baixa, os amigos Wagner Moura e Lázaro Ramos acabaram
se atracando depois de dançar uma valsa, na qual tinham
de apontar os defeitos um do outro. Em Tropa de Elite,
Wagner Moura viu nascer seu personagem, o capitão
Nascimento, quando, humilhado, de quatro no chão, explodiu
e partiu para cima do ex-capitão do Bope que ajudava
Fátima no treinamento. O ex-policial saiu com o nariz
quebrado. "As pessoas chegam para filmar carregadas de
lixo pessoal. Se eu não tirar isso, não consigo
entrar. A dor desbloqueia", diz a preparadora.
Há quem
procure Fátima Toledo para fazer um desbloqueio preventivo
vai que aparece uma boquinha no cinema. O playboy Ricardo
Mansur e a modelo Ticiane Pinheiro se submeteram à
tortura e foram indicados para um papel. Muitos atores tarimbados
que passaram por suas mãos tremem ao lembrar da experiência
e temem sua influência nos bastidores. Poucos criticam
O Método. Mas há discordâncias. Márcio
Mehiel foi assistente de Fátima, é todo elogios
para ela, mas hoje se diz adepto de técnicas mais suaves.
"É como médico: tem gente que dá
floral, tem gente que dá tarja preta", diz. Na
mesma linha vai o ator e diretor de teatro Celso Frateschi.
"Preparação é um trabalho de pesquisa
sério", afirma. "Essa coisa de sadomasoquismo
é mais que ridícula. É deplorável."
O PASSO-A-PASSO
DO "MÉTODO"
Como a preparadora
de elenco Fátima Toledo adestra suas vítimas
sejam elas leigos, sejam atores tarimbados como
Wagner Moura
Divulgação
Wagner
Moura
Primeiro passo OLHAR 43
O que é:
descobrir a personalidade do ator, seus medos e
fraquezas Como:submetê-lo
a situações de pressão e testar
sua tolerância por meio de exercícios físicos
e psicológicos. Também vale o uso de técnicas
como o cundalini e a bioenergética Máxima:
"olho muito as pessoas, elas se traem a todo momento"
Segundo passo VISTA
A CAMISA
O que é:
extrair características do ator que têm
a ver com as do personagem Como:
é preciso quebrar barreiras emocionais pelos
conflitos físico e verbal. Exceto nas cenas de
sedução, que pedem algo mais suave, como
a oleoterapia e a
massagem Máxima:
"Exercícios
mostram a pessoa, e então eu consigo entrar.
A dor quebra a pessoa, e ela mostra quem é"
Terceiro passo CÂMERA, AÇÂO
O
que é: cuidar do ator na filmagem da cena Como: o preparador
permanece no set e dá ordens. Os atores não
recebem o roteiro e têm de improvisar, o que dá
naturalidade ao filme Máxima:
"Não há construção
de personagem. Faço os atores viver cada situação"