A ciência
enfatiza que o sono é essencial à consolidação
da memória e ao desempenho intelectual. Ele define até quais
são os horários do dia mais favoráveis ao aprendizado
O
inventor da lâmpada e do gravador de som, o americano Thomas Alva Edison
(1847-1931), cultivava um ideal de noite perfeita. Ela deveria fornecer o máximo
de energia para um novo dia de trabalho criativo sem consumir tempo em excesso.
Edison pregava os olhos por no máximo três horas seguidas. Ao despertar,
avaliava a qualidade da noite anterior e anotava detalhes em um diário.
Leonardo da Vinci (1452-1519) acordava antes do resto da humanidade, mas reservava
quinze minutos a cada duas horas para tirar uma soneca. O pintor da Mona Lisa
e idealizador do princípio do vôo do helicóptero conseguia
assim encarar seus desafios com a mente descansada. Albert Einstein (1879-1955)
determinou ser a luz a única constante do universo, mas gostava mesmo era
de penumbra. Ele dormia dez horas por noite e, a cada idéia nova, se premiava
com uma hora extra na cama. Intuitivamente, os três gênios perseguiam
uma rotina noturna pessoal capaz de prover combustível a suas mentes poderosas.
Só agora a medicina está explicando os efeitos notados por Edison,
Da Vinci e Einstein. A qualidade do sono afeta diretamente as funções
intelectuais e artísticas de modo decisivo, regulando as forças
mentais durante o período ativo do dia e armazenando o conhecimento e as
experiências valiosas da pessoa enquanto ela dorme.
Lübeck
University
Laboratório
do sono na Universidade de Lübeck, na Alemanha: lá foi decifrado o processo de
consolidação da memória
O efeito do sono, ou da falta dele, sobre a disposição física
e mental das pessoas é conhecido desde tempos imemoriais. A medicina está
conseguindo agora, em primeiro lugar, explicar a origem físico-química
desse efeito. Mas, principalmente, as pesquisas atuais ajudam a estabelecer um
cronograma das horas do dia nas quais a pessoa estará mais apta a aprender.
Esse cronograma, claro, depende de como a noite anterior foi aproveitada. Em segundo
lugar, está ficando cada vez mais nítido o processo pelo qual o
cérebro humano seleciona e armazena os milhares de informações
adquiridas durante o dia. Isso se dá durante o sono. Cada etapa do sono
é usada pelo cérebro para estocar determinado tipo de informação.
As musicais são gravadas logo nos primeiros minutos. Aquelas ligadas ao
pensamento lógico e matemático são registradas durante as
etapas finais dos ciclos do sono, marcadas pela movimentação veloz
dos olhos sob as pálpebras e permeadas de sonhos. Essa é a chamada
fase REM, a sigla em inglês para rapid eye movement. O alemão
Jan Born, da Universidade de Lübeck, coordenador da pesquisa, resume: "Deciframos
finalmente o fantástico processo de armazenamento do conhecimento na mente
humana".
Ao longo de um ano,
os alemães de Lübeck observaram todas as noites a atividade cerebral
de sessenta pessoas enquanto elas dormiam. Com imagens obtidas por meio de aparelhos
de ressonância magnética, os cientistas puderam enxergar claramente
o processo de consolidação das informações aprendidas
durante o dia. Eles mapearam com precisão todo o trajeto de uma informação,
desde o momento de sua absorção em estado de alerta até a
gravação durante o sono. A gravação é um processo
químico sem o qual os fatos do dia seriam simplesmente apagados. Os pesquisadores
descobriram uma faceta extraordinária desse processo justamente na fase
de sono REM. Nela, uma substância-chave está com sua atividade reduzida
no cérebro. Esse composto é a acetilcolina, justamente a substância
responsável pela retenção das informações no
hipocampo, uma região do cérebro onde os dados são armazenados
temporariamente e de onde podem evaporar se não forem coletados a tempo
para se tornar memória de longo prazo em outra área o neocórtex.
A nova pesquisa mostra com nitidez a trajetória da informação
do hipocampo ao neocórtex. Esse valioso processo só se dá
enquanto a acetilcolina está "adormecida". Sua inércia, ocorrida
durante o sono, abre caminho para os neurônios formarem uma rede por meio
da qual as informações farão a viagem do arquivo temporário
rumo ao depósito duradouro. A ilustração na página
98 mostra graficamente esse processo.
O estudo alemão reforça a teoria do sono como fator fundamental
da boa memória. Uma nova leva de pesquisas fez avançar ainda mais
o entendimento desse processo ao medir os efeitos do repouso sobre o desempenho
das pessoas, submetendo-as em diversas fases do dia a testes intelectuais. Elas
são unânimes em mostrar os danos à memória provocados
por uma noite mal dormida e como tudo melhora depois de um bom período
de descanso. Um grupo de pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos,
traduziu essa situação em números. O estudo de Harvard, apresentado
no último congresso da Academia Americana de Neurologia, é o mais
abrangente sobre o assunto já feito com voluntários. Eles foram
monitorados ao longo de seis meses. Ao cabo de oito horas seguidas de sono, os
voluntários da pesquisa de Harvard lembravam, em média, 44% mais
fatos aprendidos no dia anterior em comparação com aqueles privados
de sono. "A relação entre sono e memória é de uma
clareza geométrica", diz o pesquisador Jeffrey Ellenbogen, um dos autores
do estudo. Uma segunda etapa da pesquisa americana investigou ainda em que medida
o sono pode ajudar a atenuar certos problemas de aprendizado (veja
quadro).
Ao investigarem
a memória durante o sono, os especialistas obtiveram ainda respostas sobre
o processo de seleção de informações quando o cérebro
está em estado de repouso noturno. Trava-se ali uma competição
frenética entre as informações assimiladas. Apenas uma parte
delas, afinal, fará a jornada rumo ao arquivo duradouro no neocórtex,
cuja capacidade é limitada. Qual o critério de decisão para
separar as informações valorosas o suficiente para ser guardadas
daquelas descartáveis? A neurociência hoje pode responder com certeza
a essa questão. A resposta é surpreendente. As informações
absorvidas quando a pessoa está sob algum tipo de emoção
forte são justamente aquelas aptas a conquistar, durante a noite, um lugar
definitivo no cérebro. Por essa razão, as pessoas tendem a se lembrar
em profusão de detalhes dos mais lindos momentos da vida, mas também
dos mais desagradáveis. A emoção é a chave de entrada
das informações no neocórtex. Quando em excesso, a emoção
pode ter efeito diametralmente oposto. Razão pela qual as pessoas não
se recordam de instantes finais de acidentes ou mesmo reprimem inconscientemente
as lembranças de fatos aterrorizantes, como, por exemplo, testemunhar o
assassinato da mãe pelo pai. Conclui o neurofisiologista Flávio
Alóe, do Hospital das Clínicas de São Paulo: "O processo
de esquecimento durante o sono é tão vital quanto o do armazenamento
das informações. Sem ele, o cérebro entraria em colapso".
Esse conjunto de conclusões
sobre o sono derruba definitivamente a velha e equivocada teoria
segundo a qual sua exclusiva contribuição ao aprendizado seria a
de proporcionar ao cérebro um momento de descanso, ao protegê-lo
das influências externas. Com o ocaso da antiga teoria surge uma nova, a
da "inatividade" noturna como vital para o armazenamento das informações
acumuladas no decorrer do dia. O fisiologista Alfred Loomis, da Universidade Princeton,
foi o primeiro a descrever, em 1937, o cérebro noturno como um dínamo
em atividade. Amparado pelo eletroencefalograma, então um exame revolucionário,
Loomis flagrou uma intensa atividade elétrica noturna no cérebro
de seus pacientes. Sua observação inicial mostrou o sono se desenvolvendo
em fases, cada uma com uma freqüência elétrica diferente. Isso
permitiria, mais tarde, distinguir as cinco etapas do sono. Apenas recentemente
os cientistas começaram a fazer uso das conclusões de sete décadas
atrás para entender melhor os caminhos do aprendizado e sua fixação
na memória. As duas primeiras modalidades de memória a ter seus
processos desvendados foram a motora (o drible de um jogador, o salto de um atleta)
e a espacial (o projeto de um arquiteto). Os alemães ajudaram a colocar
mais um tijolo no edifício ao rastrear os mecanismos de fixação
da memória intelectual durante o sono.
Outras pesquisas fizeram sintonia fina das descobertas anteriores. Elas centraram
suas atenções nos períodos mais indicados ao trabalho mental
(veja quadro). São
dois, principalmente. Um deles, o da parte da manhã, ocorre mais ou menos
duas horas depois do despertar. Nesse momento o corpo libera uma quantidade maior
de hormônios estimuladores dos neurônios. O cérebro chega,
então, ao auge de sua atividade e permanece assim por mais quatro
horas. Uma das descobertas mais recentes, feita por um grupo de pesquisadores
da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, flagrou situação
igualmente positiva cerca de doze horas depois do despertar, quando ocorre no
cérebro a produção acelerada de um tipo de proteína
cuja concentração estimula as conexões entre os neurônios.
Foi possível observar justamente nesse momento e nas três
horas seguintes a ele uma espécie de replay das informações
aprendidas ao longo do dia, fenômeno batizado de "reverberação"
pelos cientistas. Afirma um dos autores do trabalho, o neurocientista Iván
Izquierdo, argentino radicado no Brasil: "Esse momento de replay é a hora
mais favorável para fazer uma revisão de matéria aprendida
em outros momentos do dia".
Certos hábitos noturnos também têm influência
positiva ou negativa sobre o aprendizado, e os cientistas já sabem
como explicar isso. Para 90% das pessoas, o repouso ideal tem a duração
de oito horas. É o tempo necessário para concluir cinco ciclos de
sono um padrão favorável tanto ao descanso como à
memória. Há quem alcance o mesmo efeito antes disso, mas é
uma minoria. Ainda segundo as pesquisas, o melhor sono para o aprendizado se encerra
por volta das 6 da manhã. Por duas razões. Primeiro, porque o corpo
está biologicamente "programado" para o repouso até essa hora. A
temperatura do corpo está 1 grau Celsius mais baixa. O segundo motivo:
quem acorda mais cedo consegue aproveitar todos os picos de aprendizado. Quem
sai da cama por volta das 8 da manhã tem o período favorável
à atividade intelectual reduzido em 20%. Há um certo consenso sobre
a impossibilidade de compensar mais tarde o tempo de atividade máxima perdido
pela manhã. Por volta das 9 da noite, o corpo começa a liberar hormônios
indutores do sono e os neurônios de novo se preparam para as funções
noturnas. Diz John Fontenele Araujo, do laboratório de cronobiologia da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte: "Estudo depois dessa hora é
sempre menos produtivo".
Um
novo e revolucionário capítulo sobre sono e aprendizado foi aberto
pelas descobertas dos processos de aquisição e armazenamento de
conhecimento. Para onde se caminha agora? A nova fronteira a ser quebrada é
explicar a inter-relação entre os dados armazenados.
Um recente estudo da Universidade Harvard vai exatamente nessa direção.
Ele mostra os neurônios durante o sono fazendo conexões entre informações
aparentemente díspares ou adquiridas em situações diferentes.
"Isso explica o fato de muita gente acordar com a sensação de ter
tido uma brilhante idéia enquanto dormia", disse a VEJA o neurocientista
Robert Stickgold, coordenador da pesquisa. Muitas foram as soluções
arquitetadas durante a noite por sábios da história. O químico
russo Dmitri Mendeleiev (1834-1907) teve o clique decisivo para criar a tabela
periódica dos elementos durante o sono. O canadense Frederick Banting (1891-1941),
um dos agraciados com o Prêmio Nobel pela descoberta da insulina na década
de 20, contou ter sonhado com a solução. O caso mais intrigante
é o do alemão Friedrich Kekulé (1829-1896). Debruçado
sobre os mistérios da química orgânica, ele saiu-se com a
estrutura da molécula de benzeno depois de sonhar com a forma arredondada
de uma cobra devorando a si mesma. À luz das novas descobertas talvez não
seja assim tão inútil passar um terço da vida dormindo.
O SONO DOS GÊNIOS
A ciência do sono nem sequer existia quando alguns dos maiores gênios
da história já intuíam que, de algum modo, o repouso tinha
papel fundamental em seus inesgotáveis processos criativos. Cada um adotou
uma rotina de descanso própria, por vezes excêntrica, em busca do
sono perfeito. Três exemplos:
Time
Life Pictures/Getty Images
LEONARDO
DA VINCI (1452-1519)
O pintor da Mona Lisa e idealizador do princípio do vôo do
helicóptero perseguia o descanso da mente com uma rotina incomum: trocava
o sono noturno por cochilos de quinze minutos a cada duas horas
AFP
THOMAS
A. EDISON (1847-1931)
O inventor da lâmpada mantinha um diário onde avaliava a qualidade
do sono na noite anterior. Não queria perder tempo. Não passava
mais de três horas na cama
AFP
ALBERT
EINSTEIN (1879-1955)
Ele hibernava dez horas seguidas todas as noites, exceto quando estava às
voltas com uma nova idéia. Nessas ocasiões, premiava-se com uma
hora extra na cama
QUANDO
O REMÉDIO É DORMIR
As pesquisas sobre os efeitos das mudanças de hábito noturno já
têm aplicação terapêutica em diversos casos
Problema: falta de concentração.
Quando é mais freqüente: na infância. Como
o sono pode ajudar: a mais abrangente pesquisa sobre o assunto, conduzida
pelo Hospital Sacré Coeur, do Canadá, concluiu que o hábito
de dormir dez horas seguidas reduz em 40% o risco de uma criança apresentar
problemas de concentração. Para aquelas com dificuldade em dormir
tanto, o estudo indica uma hora de atividades físicas diárias
cientificamente reconhecido como ótimo estimulante do sono infantil.
Problema: dificuldade
em resolver questões que envolvem raciocínio lógico. Quando
é mais freqüente: na adolescência. Como o sono pode
ajudar: promove um necessário momento de descanso aos neurônios.
Um estudo da Universidade Harvard mostra que, quando alguém passa dezoito
horas seguidas sem dormir, perde cerca de 30% da capacidade de resolver problemas
que exigem raciocínios complexos. Por essa razão, o melhor é
fazer uma pausa noturna e só retomar os estudos pela manhã. A pesquisa
revela que o desempenho intelectual melhora depois disso.
Problema: perda da capacidade de memória.
Quando é mais freqüente: a partir dos 60 anos. Como
o sono pode ajudar: uma das causas para a redução da memória
nessa faixa etária é que o sono se torna mais leve e a fase REM
justamente durante a qual se consolida a memória de longo prazo
passa a durar 50% menos tempo. A saída, dizem os cientistas, é
esticar o número de horas na cama. Aos 60 anos, as pessoas dormem, em média,
cinco horas. O ideal para a memória seriam pelo menos oito.