Pela
segunda vez em dois meses, o plenário do Senado vai se reunir para julgar
o senador Renan Calheiros, presidente licenciado do Congresso. Pela segunda vez,
Renan Calheiros é acusado de quebrar o decoro parlamentar, agora por manter
uma sociedade secreta em veículos de comunicação. Apesar
disso, Renan Calheiros está tranqüilo e confiante em uma nova absolvição.
O senador se acredita protegido pelo voto secreto e conta com ele para continuar
exercendo o mandato. À luz das revelações sobre suas malfeitorias
feitas nos últimos seis meses, sua permanência no cargo é
um péssimo exemplo. O presidente licenciado tinha um lobista de empreiteira
a pagar-lhe as despesas pessoais, intermediava interesses escusos junto ao governo,
mantinha negócios com uma fábrica de cerveja, empregava um contrabandista
no gabinete e enriqueceu fazendo política – isso só para listar
os feitos de domínio público. Para se manter no cargo, ameaçou
adversários, constrangeu aliados e espionou colegas. O julgamento desta
quinta-feira, como lembrou o senador Jefferson Péres, autor do segundo
pedido de cassação, é sobre o conjunto da obra de Renan.
Ailton
Cruz
Rudiney
Mattoso (no canto): assessor de gabinete, fotógrafo, locutor de
Renan Calheiros e preso por contrabando
No
Conselho de Ética, os parlamentares aprovaram o relatório de Jefferson
Péres por uma folgada maioria. À exceção dos três
senadores do PMDB, os demais integrantes do conselho concordaram quanto à
existência de indícios incriminatórios na conduta do senador.
Eles viram as provas da compra de veículos de comunicação
em Alagoas por meio de "laranjas", testas-de-ferro, para esconder sua
participação nos negócios (veja o quadro
abaixo). Na mesma sessão, os senadores arquivaram a acusação
juridicamente mais fraca, aquela em que Renan aparece fazendo lobby para uma cervejaria.
Como o Conselho de Ética é integrado por representantes de todos
os partidos, Renan Calheiros, em tese, deveria estar muito preocupado com seu
futuro imediato. Afinal, se o plenário seguir a mesma lógica do
conselho, é grande a probabilidade de ele ser banido da política
até o ano de 2015. Mas não é assim que as coisas funcionam
no Congresso. Ao contrário do que ocorre no conselho, no plenário
a votação do processo é secreta. Sem o olho do eleitor presente,
valem os interesses imediatos de cada parlamentar. As mesmas condições
prevaleceram na sessão fatídica na qual Renan se livrou da acusação
de quebra de decoro por ter as despesas pagas por um lobista. No conselho, os
representantes petistas votaram a favor da cassação. Na hora de
referendar a decisão no plenário, resolveram se abster. A alegação
então foi de falta de provas da culpa do senador alagoano. Com base nela,
os petistas encontraram terreno fértil para costurar um acordo destinado
a salvar Renan em troca de sua renúncia à presidência.
A
tranqüilidade atual de Renan Calheiros revela estar em andamento uma estratégia
muito parecida para absolvê-lo novamente – mais uma vez com a participação
dos mesmos personagens do show de impunidade anterior, os senadores petistas.
O governo precisa aprovar até o fim do ano a prorrogação
da CPMF, mas tem encontrado muitas dificuldades no Senado. Renan Calheiros se
ofereceu para prestar mais esse serviço. Se o PT ajudar a livrá-lo
da cassação, seus aliados votarão em peso a favor da manutenção
do imposto do cheque. O senador garante ter cinco fiéis seguidores, decisivos
para as pretensões governistas. O presidente Lula já entregou o
caso Renan ao Congresso. Renan, por sua vez, continua tentando envolver o Executivo
na solução de seus problemas éticos. Na segunda-feira passada,
houve uma reunião no Palácio do Planalto para discutir a tramitação
da emenda da CPMF. O líder do governo, Romero Jucá, informou o presidente
das ameaças de boicote ao imposto do cheque por parte da tropa de Renan
Calheiros. "Renan tem o trunfo de atrelar sua votação à
prorrogação da CPMF, aumentando, assim, sua chance de ser absolvido.
Mas o governo não fará nada para salvá-lo", disse o
senador Renato Casagrande, da base governista, relator do processo anterior, em
que o governo fez de tudo para salvar Renan, com a contribuição
decisiva dos parlamentares petistas. Eles foram convocados novamente agora.
Lula
Castello Branco/AE
A
PF prendeu envolvidos em fraudes em prefeituras alagoanas: amigos e correligionários
do senador
A biografia de Renan
Calheiros, apesar dos esforços do senador para se salvar, continua produzindo
surpresas no atacado. Na semana passada, uma operação da Polícia
Federal prendeu vinte pessoas acusadas de fraudar licitações em
obras públicas em Alagoas. A quadrilha é acusada de desviar 20 milhões
de reais em recursos públicos. Doze municípios são investigados,
nove deles governados por aliados de Renan. O mais notório é Murici,
terra natal do clã, administrada pelo filho do senador, Renan Calheiros
Filho, o Renanzinho, aquele que virou dono da rádio que nunca foi do pai.
A sede da prefeitura de Murici foi invadida por agentes da PF, que saíram
de lá levando documentos e computadores. Dois empresários presos
na operação são ligados a Renan e Renanzinho. Ronaldo Lacerda
recebeu 5,4 milhões de reais da prefeitura de Murici para executar obras
no município. O outro é Paulo Pontes, ex-diretor da Agência
de Desenvolvimento do Nordeste (Adene), indicado para o cargo por Renan. Em Brasília,
a polícia ainda prendeu o assessor parlamentar Carlos Rudiney Mattoso por
contrabando. Mattoso era funcionário da presidência do Senado, fotógrafo
e locutor dos eventos públicos de Renan Calheiros. Usava o gabinete do
deputado Olavo Calheiros, irmão de Renan, como uma espécie de entreposto
comercial. O plenário vai decidir se políticos assim continuarão
destruindo o que sobrou da tradição republicana brasileira.
Os petistas de Renan
Há
dois meses, seis senadores do PT se abstiveram e, com isso, garantiram a absolvição
de Renan Calheiros no primeiro processo de cassação. Faltaram exatamente
seis votos para condená-lo. A decisão desgastou os petistas perante
a opinião pública. Alguns deles, como Aloizio Mercadante, passaram
a defender a cassação, ao menos publicamente. O voto é secreto
e, portanto, cada um pode anunciar o que quiser sobre sua escolha. O fato: Renan
novamente depende dos petistas para salvar o mandato.
Dida
Sampaio/AE
IDELI
SALVATTI A líder do PT sempre esteve ao lado de Renan e deve continuar
assim
José Cruz/ABR
JOÃO
PEDRO Votou pela cassação no conselho, mas é suscetível
a pressões
Pablo
Valadares/AE
MERCADANTE Absteve-se
no caso do lobista e garante que mudou de lado
Ag.
Senado
SIBÁ
MACHADO Suplente, faz o que lhe mandam e nunca surpreende
Paulo
Liebert/AE
FÁTIMA
CLEIDE Comemorou a primeira absolvição de Renan Calheiros
Rose
Brasil/ABR
SCHESSARENKO A
senadora tem dívida de gratidão com Renan Calheiros