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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

José da Bahia

"O santo entronizado como
padroeiro dos
negreiros foi venerado
na Igreja
de Santo Antônio da Barra,
em Salvador,
até os anos 70"


Ilustração Ale Setti


Outro dia, na Bahia, consegui ver São José Resgatado. Só conhecia o santo pelo livro de Pierre Verger Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos (1987). Estão lá a foto da imagem e um pedaço de sua história, que é a seguinte. Nos meados do século XVIII, o marquês de Pombal resolveu virar o jogo no Atlântico português. Para reforçar a posição da metrópole, fundou duas companhias régias que detinham o monopólio do tráfico negreiro. As capitanias situadas ao norte do Rio São Francisco caíram nas mãos dessas companhias controladas por acionistas sediados em Portugal. O sentido da operação era claro: com a força da lei régia, Pombal reintroduzia os negociantes reinóis num mercado ultramarino – o mercado atlântico africano –, progressivamente tomado pelos comerciantes do Brasil. Contudo, a Bahia e o Rio de Janeiro, grandes centros negreiros, escaparam à operação pombalina que procurava recolonizar os colonos.

A força da Bahia vinha da cultura do tabaco, exportado para a Costa da Mina em troca de escravos, enquanto o Rio de Janeiro tirava vantagem de sua produção de cachaça (a "jeribita"), permutada por negros de Angola. A certa altura, para tentar chegar a um acordo com a Coroa, os comerciantes da Bahia propuseram a criação de uma companhia em que seus interesses estariam mais bem representados. Assim, apresentaram o projeto da "Companhia Geral da Guiné" (1757), destinada a enquadrar as trocas com a Costa da Mina.

Conforme seus estatutos, a Companhia da Guiné teria como padroeiro São José Resgatado. Justificando a escolha do patrono, os negociantes baianos argumentavam que a imagem do santo havia sido enviada em 1481, pelo rei de Portugal, para a capela do forte português de São Jorge, na Costa da Mina. Na conquista do forte pelos holandeses (1637), escreviam ainda os baianos, a imagem foi escondida por um piedoso rei africano que procurava proteger o santo das ofensas dos "heréticos" protestantes. Décadas mais tarde, em 1752, os comerciantes da Bahia, que alegavam ter comprado a imagem dos descendentes do rei africano, trouxeram-na "com grandes festas" para a Igreja de Santo Antônio da Barra, em Salvador. A Companhia da Guiné não vingou, mas o santo, entronizado como padroeiro dos negreiros, foi venerado nessa igreja até os anos 70, quando foi transferido para o Museu de Arte Sacra de Salvador. Verger cita os documentos sem opinar sobre seu conteúdo.

Ora, mesmo quem não é especialista em arte religiosa percebe que a imagem tem tudo a ver com o barroco setecentista brasileiro. Está claro que esse santo não é o que teria sido depositado em São Jorge da Mina no ano de 1481. No século XV, o culto do "Resgatado" devia venerar outro José, que nem é santo: o filho do patriarca Jacó e de Raquel, vendido por seus irmãos como escravo aos egípcios, antes de alforriar-se e subir na vida. Tirado do Antigo Testamento e observado pelos cristãos cativados pelos mouros nas ribanceiras do Mediterrâneo, esse culto transfigurou-se na devoção ao esposo da Virgem Maria, virando "São José Resgatado", na Bahia. Houve troca de imagens ou embromação geral nessa manobra que unia o passado quinhentista do Forte de São Jorge da Mina à Bahia setecentista. Não por acaso, foi justamente na primeira metade do século XVIII que o tráfico negreiro baiano ganhou proeminência na Costa da Mina.

Tinha essa história toda desfilando na cabeça quando vi o santo de perto. Ao lado de outras, a imagem está numa sala fechada do Museu de Arte Sacra, enquanto prosseguem obras de restauro no prédio. Graças à gentileza dos curadores, pude entrar nessa sala. Na hora de ir embora, toquei sem querer no santo. Experimentei uma sensação estranha e tive a arrogância intelectual de pensar enquanto divisava a imagem: "Você, José, patrono dos negreiros, que nem santo é: eu sei da sua vida".

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris – Sorbonne (
lufa@uol.com.br)

 
 
   
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