
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Luiz
Felipe de Alencastro
José
da Bahia
"O
santo entronizado como
padroeiro dos negreiros foi venerado
na Igreja de Santo Antônio da Barra,
em Salvador, até os anos 70"
Ilustração Ale Setti
 |
Outro dia, na Bahia, consegui ver São José Resgatado. Só
conhecia o santo pelo livro de Pierre Verger Fluxo e Refluxo do Tráfico
de Escravos (1987). Estão lá a foto da imagem e um pedaço
de sua história, que é a seguinte. Nos meados do século
XVIII, o marquês de Pombal resolveu virar o jogo no Atlântico
português. Para reforçar a posição da metrópole,
fundou duas companhias régias que detinham o monopólio do
tráfico negreiro. As capitanias situadas ao norte do Rio São
Francisco caíram nas mãos dessas companhias controladas
por acionistas sediados em Portugal. O sentido da operação
era claro: com a força da lei régia, Pombal reintroduzia
os negociantes reinóis num mercado ultramarino o mercado
atlântico africano , progressivamente tomado pelos comerciantes
do Brasil. Contudo, a Bahia e o Rio de Janeiro, grandes centros negreiros,
escaparam à operação pombalina que procurava recolonizar
os colonos.
A força da Bahia vinha da cultura do tabaco, exportado para a Costa
da Mina em troca de escravos, enquanto o Rio de Janeiro tirava vantagem
de sua produção de cachaça (a "jeribita"), permutada
por negros de Angola. A certa altura, para tentar chegar a um acordo com
a Coroa, os comerciantes da Bahia propuseram a criação de
uma companhia em que seus interesses estariam mais bem representados.
Assim, apresentaram o projeto da "Companhia Geral da Guiné" (1757),
destinada a enquadrar as trocas com a Costa da Mina.
Conforme seus estatutos, a Companhia da Guiné teria como padroeiro
São José Resgatado. Justificando a escolha do patrono, os
negociantes baianos argumentavam que a imagem do santo havia sido enviada
em 1481, pelo rei de Portugal, para a capela do forte português
de São Jorge, na Costa da Mina. Na conquista do forte pelos holandeses
(1637), escreviam ainda os baianos, a imagem foi escondida por um piedoso
rei africano que procurava proteger o santo das ofensas dos "heréticos"
protestantes. Décadas mais tarde, em 1752, os comerciantes da Bahia,
que alegavam ter comprado a imagem dos descendentes do rei africano, trouxeram-na
"com grandes festas" para a Igreja de Santo Antônio da Barra, em
Salvador. A Companhia da Guiné não vingou, mas o santo,
entronizado como padroeiro dos negreiros, foi venerado nessa igreja até
os anos 70, quando foi transferido para o Museu de Arte Sacra de Salvador.
Verger cita os documentos sem opinar sobre seu conteúdo.
Ora, mesmo quem não é especialista em arte religiosa percebe
que a imagem tem tudo a ver com o barroco setecentista brasileiro. Está
claro que esse santo não é o que teria sido depositado em
São Jorge da Mina no ano de 1481. No século XV, o culto
do "Resgatado" devia venerar outro José, que nem é santo:
o filho do patriarca Jacó e de Raquel, vendido por seus irmãos
como escravo aos egípcios, antes de alforriar-se e subir na vida.
Tirado do Antigo Testamento e observado pelos cristãos cativados
pelos mouros nas ribanceiras do Mediterrâneo, esse culto transfigurou-se
na devoção ao esposo da Virgem Maria, virando "São
José Resgatado", na Bahia. Houve troca de imagens ou embromação
geral nessa manobra que unia o passado quinhentista do Forte de São
Jorge da Mina à Bahia setecentista. Não por acaso, foi justamente
na primeira metade do século XVIII que o tráfico negreiro
baiano ganhou proeminência na Costa da Mina.
Tinha essa história toda desfilando na cabeça quando vi
o santo de perto. Ao lado de outras, a imagem está numa sala fechada
do Museu de Arte Sacra, enquanto prosseguem obras de restauro no prédio.
Graças à gentileza dos curadores, pude entrar nessa sala.
Na hora de ir embora, toquei sem querer no santo. Experimentei uma sensação
estranha e tive a arrogância intelectual de pensar enquanto divisava
a imagem: "Você, José, patrono dos negreiros, que nem santo
é: eu sei da sua vida".
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris Sorbonne (lufa@uol.com.br)
|
|
 |