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Roberto Pompeu de Toledo

Sobre o suicídio, em diferentes versões

No Vietnã ele também foi usado
para fins políticos, mas de
modo
diferente
e vitorioso

Caso se indague qual a diferença entre a guerra do Vietnã e a do Afeganistão, ou contra o terrorismo, ou guerra ampliada do Oriente Médio (escolha o leitor o nome de sua preferência, para a atual guerra), a resposta será: os estilos de suicídio. Bem, claro que há outras diferenças. Reconheça-se, antes das acusações de reducionismo e simplismo, que há uma miríade de diferenças entre as duas guerras. Elas representam duas épocas distintas, e dois distintos orientes. Nem por isso a maneira de pôr fim à vida, da parte de um e outro militante, o vietnamita de então e o islamita de hoje, deixa de representar um aspecto decisivo, na maneira como um e outro conflito se desenvolveram.

Saigon, 11 de junho de 1963. Saigon, para não pegar desprevenidos os jovens que só vagamente reconhecem tais eventos pré-históricos, era a capital do Vietnã do Sul. Hoje se chama Ho Chi Minh. O Vietnã do Sul estava em guerra civil, dividido entre os partidários da reunificação com o Vietnã do Norte, comunista, e os que defendiam o regime pró-ocidental instalado nessa metade do país. Nesse ano de 1963 os Estados Unidos viviam fase incipiente de um envolvimento, em favor do regime do Sul, que os levaria a despejar 500.000 homens naquela terra distante. (Sim, nesse tempo os americanos combatiam em terra.)

No referido dia 11 de junho, houve algo diferente no meio de mais uma das passeatas que se repetiam na cidade, por iniciativa dos monges budistas. Também nessa guerra, diga-se, havia um componente religioso: os budistas, a imensa maioria da população, sentiam-se oprimidos por uma elite que, domesticada pelo antigo colonizador francês, se tornara católica. Os monges nesse dia tinham saído de um pagode e avançavam, em silêncio como sempre, por uma das ruas principais da cidade. A certa altura um automóvel que rodava à frente da marcha deu súbita parada. Desceram três religiosos. Os manifestantes que vinham atrás avançaram e formaram um círculo em torno deles. Um dos três, um monge já idoso, de nome Thich Quang Duc, sentou-se então numa almofada e cruzou as pernas. Os outros dois despejaram gasolina no crânio raspado e no manto amarelo do monge idoso. Este sacou de uma caixa de fósforos e ateou-se fogo. Depois ajeitou os braços à posição de lótus, impassível tocha humana.

Foi a primeira de uma série de imolações do mesmo tipo. Tão freqüentes se tornaram que a polícia sul-vietnamita criou um esquadrão anti-suicídio, equipado de extintores de incêndio. O mundo contemplava, chocado, as fotos dos monges em chamas. Tais imagens integraram-se à legenda dos anos 60 tanto quanto a cabeleira dos Beatles ou a barba de Che Guevara. E acabaram por derrotar o regime sul-vietnamita e, com ele, o poderoso padrinho americano. Bem, na verdade, e para de novo nos antecipar à pecha de reducionismo, não só as imagens dos monges decidiram a guerra. Houve muitos fatores. Mas elas foram decisivas para mostrar ao mundo o que ocorria de verdade no Vietnã do Sul, sacudido por inquietações que iam bem além do simplismo da Guerra Fria, e oprimido por um regime cuja face cruel desmoralizava as intenções de confundi-lo com a causa da liberdade contra o avanço do comunismo. As imagens dos monges em chamas espalharam pelo mundo, inclusive nos Estados Unidos, um sentimento de compaixão e simpatia por aquele povo que a partir daí seria crescente.

Quase quatro décadas depois, o suicídio é de novo usado com fins políticos, mas de outra forma, e espalha outros sentimentos. Os suicidas de hoje não morrem sós. Levam outros junto. Os fanáticos islâmicos começaram por conduzir carros-bombas, ou transmudar-se eles próprios em bomba, amarrando explosivos ao corpo. No dia 11 de setembro chegaram à sofisticação máxima, ao usar aviões como mísseis. São suicidas que, a despeito do ódio ao mundo globalizado e de alta tecnologia moldado pela civilização ocidental, dominam a tecnologia e transitam pelo mundo como um monge vietnamita jamais sonhou. Algo os iguala, os suicidas de então e de agora – a volúpia do espetáculo. Os monges do Vietnã não eram tolos de malversar o suicídio, praticando-o no recesso das celas. Faziam-no em público, e sempre que seguros de estar ao alcance de fotógrafo ou cinegrafista. O resto os separa. Ao suicídio manso, silencioso e introspectivo do monge vietnamita opõe-se, no fanático do Islã, um suicídio feroz, ruidoso e extrovertido. O suicídio dos monges vietnamitas comoveu e conquistou a opinião pública internacional. O dos radicais islâmicos aterrorizou-a e afastou-a.

Se acrescentarmos a essas duas modalidades de suicídio os camicases japoneses da II Guerra Mundial, temos que esta é a terceira vez que os americanos têm suicidas entre os adversários. O Japão perdeu a guerra. A guerra dos islâmicos ainda está em curso, mas é improvável que venham a vencê-la. Os vietnamitas ganharam a sua. Os monges souberam, apesar do espírito pacifista, golpear mais forte e duradouramente o inimigo, e no lugar certo: lá onde ficam as emoções capazes de virar o jogo.

   
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