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Agitada, não, agitadíssima

Um livro conta a história da Ópera de
Nova York. Ela renderia um bom libreto

Sergio Martins

A história da Ópera de Nova York renderia um bom libreto. Seus 118 anos estão repletos de lutas pelo poder, intrigas, sexo e até mortes trágicas. É o que mostra a jornalista americana Johanna Fiedler, num livro delicioso que acaba de ser lançado nos Estados Unidos. Molto Agitato é uma porta de acesso aos bastidores de uma das mais célebres instituições musicais, tão cercada de segredos que já foi comparada ao Kremlin e ao Vaticano. A Ópera nasceu em 1883, por iniciativa da família Vanderbilt. Milionários emergentes, eles haviam sido esnobados na tradicional Academia de Música e resolveram criar um concorrente. Johanna Fiedler acentua que são três as forças que mantêm a Ópera de Nova York no topo: a artística, é claro, mas também a social e a financeira (seu orçamento anual gira em torno dos 200 milhões de dólares). Por esse motivo, mulheres da alta sociedade e banqueiros são personagens de seu livro, ao lado de músicos, regentes e cantores.

Se existe um herói em Molto Agitato, ele é James Levine, regente titular e diretor artístico da Ópera de Nova York há trinta anos. Seu caráter afável e seu brilho como maestro são fartamente louvados pela autora, que não deixa, porém, de registrar rumores sobre sua vida sexual. Levine, diz-se, já cultivou o hábito de comandar alegres tardes de música em que os instrumentistas tocavam nus. Ele também teria abafado um caso de assédio sexual a um menino. Isso é negado veementemente pela autora. "Muitos repórteres já investigaram a história e nunca encontraram nada", diz Johanna. A falta de substância da fofoca, no entanto, não impediu que Levine ganhasse o apelido de "Michael Jackson do dó de peito".

Os comentários mais ácidos são reservados às grandes vozes. Kathleen Battle, a megera de plantão do mundo operístico, tem sua ascensão e queda na Ópera narradas em detalhes. Dois episódios merecem destaque. No começo dos anos 80, durante uma montagem de As Bodas de Fígaro, Kathleen despertou tal antipatia que uma vingança foi tramada contra ela. Na noite de abertura do espetáculo, durante sua ária mais importante, o holofote que devia iluminá-la não acendeu. Obra de um eletricista cuja mulher, camareira, havia sido destratada pela cantora. O eletricista não foi punido. A segunda história data dos anos 90. Depois de um acesso de mau humor, a soprano foi demitida sumariamente pelo atual diretor da Ópera, Joseph Volpe. Tornou-se bucha de canhão numa guerra de poder entre esse último e James Levine.

Há bons retratos dos tenores Placido Domingo e Luciano Pavarotti. A vida amorosa de Domingo é abordada em algumas páginas mordazes. "Ele é conhecido por apalpar qualquer mulher ao seu alcance", diz Johanna. "Quando lhe perguntam sobre o assunto, no entanto, sempre assume uma expressão de santo e declama odes sobre seu amor pela esposa, Marta." Um dos casos do tenor teria sido Marcia Lewis – mãe da estagiária Monica Lewinsky. Luciano Pavarotti, por sua vez, é protagonista de boas confusões. Certa feita, durante um dueto no palco, ele ficou com sede e não teve dúvidas: abandonou a soprano no meio da ária. Seus cancelamentos de última hora são famosos. Às vésperas de uma apresentação de fim de ano, ele enviou a seguinte mensagem: "Pavarotti tem uma boa e uma má notícia. A boa é que ele lhes deseja um feliz Natal. A ruim é que ele está na Itália, e não vai cantar". Uma das fotos de Molto Agitato mostra o bem-humorado ex-diretor da Ópera, Anthony Bliss, segurando um escudo usado em produções alemãs para anunciar à platéia engalanada que Pavarotti não daria as caras.

Nesse cenário repleto de estrelas, os coadjuvantes às vezes saltam para primeiro plano. Duas histórias envolvem mortes. Em 1980, a violinista canadense Helen Hagnes, de 31 anos, foi estuprada e morta no intervalo de uma apresentação. O assassino foi um carpinteiro. Johanna Fiedler aproveita o caso para investigar o universo daqueles que trabalham nas coxias. O outro episódio é o do suicídio do búlgaro Bantcho Bantchevsky, em 1988. Professor de canto aposentado, ele queria morrer ao som de boa música. Atirou-se de um balcão durante a exibição de Macbeth, ópera com fama de maldita. Apesar desses episódios, Molto Agitato é um livro engraçado. Se a história da Ópera de Nova York um dia virar libreto, será o de uma ópera-bufa.

   
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