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Feitiço pela
metade
O visual
é esplêndido e a vontade de
agradar está lá. Mas, sem a verve de
J.K. Rowling, Harry Potter e a Pedra
Filosofal não fascina

Isabela Boscov
Fotos Peter Montain/Warner Bros.

A
ALFORRIA
Uma chuva de cartas: Potter é salvo de seus tios pelo convite
para estudar na escola de magia |

Veja também |
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Chegou o
dia para o qual milhões de crianças contavam as horas. Nesta
sexta-feira, estréia em cerca de 450 cinemas do Brasil Harry
Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Philosopher's
Stone, Estados Unidos/Inglaterra, 2001), a adaptação
do primeiro livro da série protagonizada pelo bruxinho. Trata-se
de uma produção impecável, que consumiu 125 milhões
de dólares e deu muitas dores de cabeça aos seus produtores.
Para não contrariar o público cativo do personagem, o estúdio
Warner tomou a precaução de ouvir tudo o que a criadora
de Potter, a escocesa J.K. Rowling, tivesse a dizer sobre o roteiro (embora,
por contrato, não estivesse obrigado a fazê-lo). Escolheu
locações fabulosas na Inglaterra, várias delas em
prédios que são o orgulho do patrimônio histórico
do país, e testou quase 20.000 crianças
até achar o protagonista ideal. Chegou-se a ponto de sabatinar
os candidatos a diretor, todos do primeiro time. O resultado desse esforço
é uma espécie de réplica visual do livro. A vontade
de agradar transparece na fidelidade ao enredo, na esplêndida recriação
do mundo de Potter e no capricho dedicado aos objetos de desejo da criançada,
como as varinhas mágicas e as vassouras voadoras. Nem a fita adesiva
que emenda os óculos quebrados de Harry ficou faltando. As notícias
sobre Harry Potter e a Pedra Filosofal só não são
melhores porque falta algo nessa transposição: justamente
a verve de J.K. Rowling, que sabe falar às crianças sem
paternalismo e sem adoçar temas sombrios, como rejeição
e morte. De seu humor cortante, bem britânico, nem se fala
esse ficou pelo caminho mesmo. Sem esse toque especial, A Pedra Filosofal
fascina bem menos do que se esperava.

INSEPARÁVEIS
Rupert Grint, Daniel Radcliffe e Emma Watson, como Ron, Potter e Hermione:
melhores amigos na escola de magia Hogwarts |
É
o caso de perguntar como a marca de J.K. Rowling se perdeu, se a autora
esteve sempre tão próxima do projeto. Uma parte da resposta
está na escolha do americano Chris Columbus para a direção
e não houve crítico de cinema que não chiasse
quando seu nome foi anunciado. Columbus tem experiência com crianças
e alguns sucessos no currículo, como Esqueceram de Mim e
Uma Babá Quase Perfeita. Sob juras de manter fidelidade
absoluta ao livro, ele saiu vitorioso da disputa que, diz-se, envolveu
nomes como Tim Burton, de Edward Mãos de Tesoura, Terry
Gilliam, de Brazil, e M. Night Shyamalan, de O Sexto Sentido.
A distância que separa Columbus desses concorrentes é grande.
Ele sabe encenar gagues, mas não tem propriamente senso de humor,
e também lhe falta um mínimo de profundidade emocional.
Não se trata, enfim, de um cineasta de grande personalidade. Talvez
isso tenha parecido um ponto favorável à sua contratação:
como não é "autor", ele não meteria sua colher torta
na criação de Rowling o tipo de coisa que não
se pode exigir dos outros diretores já citados. Pois essa submissão
se revela uma desvantagem. Filmes costumam ter a cara do seu diretor,
o que resulta tanto pior quando este calha de não ter feições
marcantes.

AULA
DE VÔO
Como dominar uma vassoura voadora: uma das cenas mais esperadas do
filme |
Seria injusto,
contudo, jogar todas as falhas do filme na conta de Columbus. Muitas delas
nasceram da melhor das intenções: a de incluir no filme
todas as passagens do livro e, assim, contentar os fãs do bruxinho.
Ainda bebê, Potter escapou de um ataque do terrível Lorde
Voldemort, no qual morreram seus pais. Entregue aos seus tios "trouxas"
(pessoas sem poderes mágicos, no vocabulário de Rowling),
os estúpidos e mesquinhos Dursley, ele agüenta uma década
de maus-tratos, até que sua sorte vira quando faz 11 anos: é
convidado a se mudar para a escola de magia Hogwarts, onde os alunos aprendem
a fazer poções, usar varinhas mágicas, bolar feitiços
e cavalgar vassouras voadoras a toda a velocidade nos jogos de quadribol,
esporte favorito dos magos. Não há criança que não
queira freqüentar uma escola assim. Mas, mesmo lá, a vida
de Potter não é perfeita. Sua misteriosa vitória
sobre Voldemort fez dele uma celebridade, o que desperta muita admiração
e outro tanto de hostilidade.

O
GIGANTE
Rúbeo Hagrid (Robbie Coltrane), o anjo da guarda de
Harry: duas vezes a altura de um homem normal |
É
história que não acaba mais, e daria para umas seis horas
de filme. Com os 152 minutos que ficou, já é uma façanha
manter as crianças menores na poltrona. Por outro lado, o estúdio
sabia que ia haver gritaria se trechos importantes do livro ficassem de
fora. Para resolver a charada, o roteirista Steve Kloves (de Garotos
Incríveis) optou por fazer uma espécie de menu-degustação
de A Pedra Filosofal, com pequenas porções de cada
uma das aventuras narradas no livro. Há ocasiões em que
a tática funciona às mil maravilhas. No romance, Rowling
descreve uma meia dúzia de jogos de quadribol. No filme, há
uma só partida, mas ela é de tirar o chapéu. Na maior
parte das vezes, porém, a sensação é a de
que falta algum tecido conjuntivo entre as diversas partes do enredo.
Os Dursley viraram meros figurantes, e o filme passa voando por trechos
saborosos, como aquele em que Potter compra seu material escolar (caldeirões,
varinha, coruja e por aí vai) no Beco Diagonal, em que todas as
casas se inclinam em ângulos disparatados. Os atores, claro, se
ressentem dessa falta de foco. Os pequenos Daniel Radcliffe, Rupert Grint
e Emma Watson, que fazem o inseparável trio formado por Potter,
o ruivinho Ron e a sabe-tudo Hermione, convencem mais na base da simpatia
e da semelhança física com os personagens que pelo desempenho.
Às vezes é possível flagrar até veteranos
como Richard Harris, Maggie Smith e Robbie Coltrane exibindo um ar meio
perdido. A exceção fica por conta de John Hurt: no papel
do senhor Olivaras, que vende uma varinha mágica para Potter, ele
deixa entrever por um instante o grande filme que A Pedra Filosofal
poderia ter sido.
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O
INIMIGO
Severo Snape (Alan Rickman), o professor de poções:
ódio indisfarçável por Potter |
A
ALIADA
A professora McGonagall (Maggie Smith): sempre atenta ao bem-estar
do aluno famoso |
Como tudo
o que se refere a Harry Potter, as implicações desse pequeno
desapontamento são imensas e dizem muito sobre os rumos desse fenômeno
cultural. O fato de o espírito de Rowling ter ficado de fora do
filme pode ser um sinal de que, por mais que se esforce, a autora acabará
por perder o controle sobre o processo de, digamos, pasteurização
a que Potter parece estar destinado. O personagem não nasceu como
um golpe de marketing, mas acabou virando aquilo que os americanos chamam
de uma cash cow: uma matéria-prima que pode ser retrabalhada
em incontáveis produtos destinados a dar lucro por tempo indeterminado.
A Coca-Cola, por exemplo, pagou 150 milhões de dólares para
ter seu nome associado ao filme, apesar do veto de Rowling sensatíssimo,
aliás a que os personagens apareçam consumindo o
refrigerante. Os quatro livros já publicados da série (há
mais três a caminho) venderam 110 milhões de exemplares ao
redor do mundo 800.000 deles no Brasil
e ganharam traduções num número de idiomas
inferior apenas àquele alcançado pela Bíblia.
Calcula-se que Rowling receba 4 milhões de dólares por mês
apenas em direitos autorais, e que o filme venha a render algo como 2
bilhões de dólares em bugigangas. Isso sem contar a bilheteria
e um segundo filme inspirado na série já está
em produção. Quando se fala em Harry Potter, o milhão
é a unidade mínima. Para quem faz parte dessa roda, o desafio
é tirar do personagem tudo o que ele pode dar sem matá-lo.
J.K. Rowling, claro, defende sua criação com unhas e dentes.
Mas Harry Potter e a Pedra Filosofal mostra que diligência,
fidelidade e boas intenções não bastam. Quanto mais
completa estiver a metamorfose do bruxinho em "produto", mais insípido
ele se tornará. Parece até uma maldição de
Lorde Voldemort.
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