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Chagas
expostas
Arthur Schnitzler, o médico
que
não nasceu para curar
Antonio
Gonçalves Filho
Formado
em medicina, o austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931) abandonou
a carreira aos 39 anos, depois de escrever uma tese sobre o tratamento
de neuroses por hipnose. Fez bem. Não tinha vindo ao mundo para
curar, mas para expor na literatura as principais chagas da sociedade
em que vivia. Sua obra é marcada pelo ousado tratamento das relações
entre os sexos e pela revolucionária investigação
dos mecanismos psíquicos (a tal ponto que Sigmund Freud o chamou
de "seu duplo"). Schnitzler também mexeu nas feridas do anti-semitismo
e da opressão social na Áustria, que freqüentemente
encaminhava seus personagens ao suicídio. Na novela Aurora
(tradução de Marcelo Backes; Boitempo; 151 páginas;
25 reais), o suicídio é uma saída para a desonra
do tenente Willi Kasda, que, ao perder uma considerável soma no
jogo para o impiedoso cônsul Schnabel, se vê obrigado a pagar
a dívida em 24 horas.
A psicanalista Elisabeth Roudinesco identificou na literatura de Schnitzler
três temas fundamentais: a morte, a sexualidade e a neurose. Faltou
um quarto: a indeterminação, traço de seus ambíguos
personagens, que vivem numa zona intermediária entre realidade
e fantasia. O jogo, para o tenente Willi, tanto pode decretar sua independência
como conduzi-lo à mais absoluta miséria. Ele nunca sabe
onde está. Aceita perder o que tem para ajudar um amigo, jogador
como ele, mas, quando começa a ganhar, faz tudo para voltar ao
marco zero. Schnitzler acentua essa ambigüidade forçando um
desfecho teatral. Ele achava que os austríacos tinham uma curiosidade
mórbida pela tragédia alheia. Queriam ver tudo nos mínimos
detalhes. Em suas obras, ele zombou desse "gosto teatral" bizarro.
Durante algumas décadas, Schnitzler ficou esquecido. Passa agora
por uma redescoberta. O cineasta Stanley Kubrick transformou uma de suas
obras em seu filme-testamento, De Olhos Bem Fechados (1999). O
historiador americano Peter Gay o escolheu como ícone em seu mais
recente livro, um estudo da burguesia no século XX batizado de
Schnitzler's Century (O Século de Schnitzler). O
autor merece essa atenção. Nem sempre é um escritor
agradável ou empolgante embora Aurora seja sem dúvida
uma obra-prima. Mas foi um exemplo de coragem intelectual. Ele foi expulso
do Exército por expor a hipocrisia dos códigos morais em
sua literatura. Depois de morto, foi rejeitado pelos nazistas, que proibiram
suas obras na Alemanha e na Áustria, acusando-o de "degenerado".
Só isso já bastaria como elogio.
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