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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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Antonio Milena

Atrás das paredes da casa onde é gravado o programa, há um corredor escuro. Lá, seis operadores de câmara gravam imagens dos participantes através de aberturas de vidro. Os artistas sabem. Mas não vêem as câmaras nem seus operadores

Casa dos Artistas, evidentemente, está longe de ser uma experiência radical, mesmo no plano do entretenimento. As regras são bastante maleáveis – tanto que o ator Alexandre Frota, um dos mais conhecidos da turma, saiu e voltou. Ainda assim, seus participantes começam a sofrer com a experiência. Dias atrás, o modelo Mateus Carrieri fez no ar um desabafo. "Nunca dei tanto valor à minha liberdade. É péssimo ter de viver obedecendo a um monte de regras", disse ele. Carrieri não falou só por falar. O modelo já exibe alguns sinais evidentes de stress. Na terça-feira passada, teve uma crise nervosa e chorou. Precisou ser atendido pela psicóloga contratada pela produção do programa. Débora, esse é o nome da profissional, faz diariamente um plantão de três horas na Casa dos Artistas. Fica na sala onde foram instalados os vídeos que monitoram os movimentos de atores e modelos. Ela permanece alerta para tudo o que está acontecendo, mas só interfere em último caso. Além de Carrieri, Alexandre Frota e o roqueiro Supla, filho da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, já usaram seus serviços. Esses momentos de crise não foram mostrados aos espectadores. Mas o público tem tido farta oportunidade de conferir a formação de complôs para eliminar este ou aquele adversário. As estratégias individuais para permanecer no programa também são identificáveis. Há os explicitamente calculistas, como a modelo Núbia Ólive ou Alexandre Frota, e aqueles que fingem querer ficar à margem dos conchavos. A troca de farpas anda se acirrando nos últimos dias. "O Frota é o melhor exemplo de que o homem descende do macaco", disse a cantora Patricia Coelho, tentando dar ao comentário um tom de brincadeira. Como todas as pessoas que estão no jogo têm alguma experiência diante das câmaras, elas fazem tipo, sim. Mas ninguém consegue interpretar em tempo integral e, muitas vezes, os participantes baixam a guarda, esquecendo-se de que estão sendo filmados. Boa parte do material que não vai ao ar é composta de cenas que beiram o escatológico e nas quais há uso abundante de palavrões.

Do lado do público, pode-se dizer que o apetite voyeurístico é mesmo um dos ingredientes principais do interesse despertado por Casa dos Artistas. Mas essa não é uma distorção do capitalismo periférico, do neoliberalismo, da indigência cultural dos brasileiros ou coisa desse tipo. Num país altamente instruído como a França, um programa semelhante, Loft Story, também mesmerizou multidões. Bisbilhotar a vida do outro é algo entranhado na alma humana. A palavra voyeur surgiu no século XIX, para designar os indivíduos que obtêm prazer sexual observando outras pessoas nuas ou em situações de intimidade. O termo foi usado em 1866 na obra Psychopathia Sexualis, um catálogo que descreve as várias formas de fetiche e perversão, de autoria do psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing. Mas foi seu aluno Sigmund Freud, o pai da psicanálise, quem soube explicar o mecanismo por trás dessa vontade irrefreável de obter prazer vendo o proibido. Freud mostrou que esse impulso faz parte da vida das pessoas comuns – e só em casos extremos assume forma patológica. De acordo com ele, o voyeurismo está ligado a um desejo que surge na primeira infância.

"Estamos falando da curiosidade que leva uma criança a espiar pela fechadura do quarto dos pais, para saber o que acontece lá dentro. Existe até uma expressão freudiana para designar esse processo: é a fantasia da cena primitiva", explica o psicanalista Renato Mezan. Como dá para perceber, o símbolo de Casa dos Artistas – um buraco de fechadura – é bem apropriado. Mezan acrescenta que, no caso do programa do SBT, as câmaras funcionam como uma extensão dos olhos do espectador. Buscam satisfazer sua curiosidade sexual. De fato, o que parece galvanizar a atenção do público é a possibilidade de presenciar cenas de intimidade amorosa entre os participantes. Acompanha-se o "nada", na expectativa de que se possa ver "tudo". Não por acaso o SBT selecionou tipos sensuais para integrar o elenco do seu show. São pessoas vulgares na vida real e nos vídeos do SBT. Mas todos são jovens, bonitos e de corpo bem torneado. A expectativa de sexo num grupo assim parece apenas um desdobramento natural da armação.

Casa dos Artistas não é uma jaula desconfortável. Seus protagonistas têm à disposição um jardim com piscina, sala de ginástica, mesa de pingue-pongue e, na semana passada, foram presenteados com um aparelho de videokê. Às vezes, um enfermeiro é requisitado para fazer um curativo. Ele já cuidou da sambista Nana Gouvêa, que queimou a mão cozinhando, e da cantora Patricia Coelho, que teve uma reação alérgica enquanto tentava descolorir o buço. Na quarta-feira passada, eles receberam uma visita especial: a de Silvio Santos. Ele passou quinze minutos conversando com o grupo. Falou sobre a repercussão do programa e ouviu de Núbia Ólive um pedido para que o valor dos prêmios fosse aumentado. "Eles estão reclamando de barriga cheia", disse Silvio a VEJA, que acompanhou o dono do SBT nessa visita e pôde conferir os bastidores da atração.

A casa fica no bairro paulistano do Morumbi e é vizinha da mansão do próprio Silvio. Sua área construída é de 800 metros quadrados, dos quais 600 são habitados pelos artistas. O restante do espaço é usado para acomodar a parafernália necessária às gravações. Cem pessoas, que se revezam em turnos de quatro horas, circulam pelos bastidores. Na sala de direção, há setenta aparelhos de vídeo, que exibem as imagens captadas por 33 câmaras. Dessas, 27 são controladas a distância, por joystick. As outras ficam nas mãos de operadores, que trabalham num corredor escuro, de 1 metro de largura e 2 de altura, que fica atrás das paredes dos cômodos da casa e tem aberturas de vidro através das quais é possível filmar. Para os artistas, essas aberturas funcionam como espelhos comuns. Eles não podem ver o que está do outro lado. "Como todos os operadores são marmanjos, a briga é para ver quem vai ficar no quarto das mulheres", brinca um produtor. A aparelhagem de áudio também é sofisticada. Todos os artistas andam com um microfone de lapela e há 26 outros espalhados pela casa. Com isso, até cochichos podem ser ouvidos. O cantor Supla e a atriz Bárbara Paz estão envolvidos num chamego e às vezes abaixam a voz para ter um pouco de "privacidade". Na semana passada, enquanto os dois dividiam a mesma cama, os microfones captaram um dos elogios sussurrados por Supla: "Como sua mão é forte!". Ah, sim, depois os dois acabariam indo um pouquinho adiante, adiante, adiante. Sempre sob uma coberta.

O SBT gastou 5 milhões de reais com Casa dos Artistas – e organizou uma verdadeira operação de guerra para manter segredo sobre sua montagem, realizada entre meados de agosto e meados de outubro. Os envolvidos no projeto eram obrigados a assinar um termo de sigilo. Os pedreiros, jardineiros e decoradores contratados não sabiam o que estavam construindo. "Eles faziam apostas. Por causa dos espelhos, achavam que era um cassino clandestino ou até um bordel", lembra Alfonso Aurin, superintendente do SBT. Os doze participantes que começaram as gravações saíram de uma lista com 25 nomes. Contrariando a tendência da maioria dos reality shows que têm feito sucesso pelo mundo afora, o SBT optou por trabalhar com gente que já desfrutava de certa fama, e não com anônimos. Os escolhidos deveriam ser capazes de seduzir um público jovem. Deveriam também ser desinibidos. Esse requisito foi bem atendido: das seis mulheres, quatro já haviam posado nuas (Alessandra Iscatena, Nana Gouvêa, Núbia Ólive e Mari Alexandre). O mesmo se aplica a três dos seis homens (Alexandre Frota, Marcos Mastronelli e Mateus Carrieri).

A estréia de Casa dos Artistas teve o efeito da explosão de uma bomba. Seu conceito, como já dito, é semelhante ao do Big Brother, o que deixou a Rede Globo furiosa. A emissora carioca é dona dos direitos de exibição desse programa no Brasil. Sentindo-se lesada, ela entrou com um processo contra o SBT, alegando plágio. Os advogados de Silvio Santos conseguiram até agora contornar o problema. Nos outros dias da semana, o programa vem roubando espectadores da novela O Clone, justamente no momento em que ela ganhava força entre o público. O bom desempenho da atração já está rendendo frutos mais palpáveis a Silvio Santos. Ele está vendendo rapidamente as inserções publicitárias nos intervalos de Casa dos Artistas, a um valor médio de 90.000 reais cada trinta segundos de propaganda. A realidade é um show ainda melhor quando dá dinheiro.

 



   
 
   
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