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Antonio Milena

Atrás
das paredes da casa onde é gravado o programa, há um corredor escuro.
Lá, seis operadores de câmara gravam imagens dos participantes através
de aberturas de vidro. Os artistas sabem. Mas não vêem as câmaras
nem seus operadores |
Casa
dos Artistas, evidentemente, está longe de ser uma experiência
radical, mesmo no plano do entretenimento. As regras são bastante
maleáveis tanto que o ator Alexandre Frota, um dos mais
conhecidos da turma, saiu e voltou. Ainda assim, seus participantes começam
a sofrer com a experiência. Dias atrás, o modelo Mateus Carrieri
fez no ar um desabafo. "Nunca dei tanto valor à minha liberdade.
É péssimo ter de viver obedecendo a um monte de regras",
disse ele. Carrieri não falou só por falar. O modelo já
exibe alguns sinais evidentes de stress. Na terça-feira passada,
teve uma crise nervosa e chorou. Precisou ser atendido pela psicóloga
contratada pela produção do programa. Débora, esse
é o nome da profissional, faz diariamente um plantão de
três horas na Casa dos Artistas. Fica na sala onde foram
instalados os vídeos que monitoram os movimentos de atores e modelos.
Ela permanece alerta para tudo o que está acontecendo, mas
só interfere em último caso. Além de Carrieri, Alexandre
Frota e o roqueiro Supla, filho da prefeita de São Paulo, Marta
Suplicy, já usaram seus serviços. Esses momentos de crise
não foram mostrados aos espectadores. Mas o público tem
tido farta oportunidade de conferir a formação de complôs
para eliminar este ou aquele adversário. As estratégias
individuais para permanecer no programa também são identificáveis.
Há os explicitamente calculistas, como a modelo Núbia Ólive
ou Alexandre Frota, e aqueles que fingem querer ficar à margem
dos conchavos. A troca de farpas anda se acirrando nos últimos
dias. "O Frota é o melhor exemplo de que o homem descende do macaco",
disse a cantora Patricia Coelho, tentando dar ao comentário um
tom de brincadeira. Como todas as pessoas que estão no jogo têm
alguma experiência diante das câmaras, elas fazem tipo, sim.
Mas ninguém consegue interpretar em tempo integral e, muitas vezes,
os participantes baixam a guarda, esquecendo-se de que estão sendo
filmados. Boa parte do material que não vai ao ar é composta
de cenas que beiram o escatológico e nas quais há uso abundante
de palavrões.
Do lado do público, pode-se dizer que o apetite voyeurístico
é mesmo um dos ingredientes principais do interesse despertado
por Casa dos Artistas. Mas essa não é uma distorção
do capitalismo periférico, do neoliberalismo, da indigência
cultural dos brasileiros ou coisa desse tipo. Num país altamente
instruído como a França, um programa semelhante, Loft
Story, também mesmerizou multidões. Bisbilhotar a vida
do outro é algo entranhado na alma humana. A palavra voyeur surgiu
no século XIX, para designar os indivíduos que obtêm
prazer sexual observando outras pessoas nuas ou em situações
de intimidade. O termo foi usado em 1866 na obra Psychopathia Sexualis,
um catálogo que descreve as várias formas de fetiche
e perversão, de autoria do psiquiatra alemão Richard von
Krafft-Ebing. Mas foi seu aluno Sigmund Freud, o pai da psicanálise,
quem soube explicar o mecanismo por trás dessa vontade irrefreável
de obter prazer vendo o proibido. Freud mostrou que esse impulso faz parte
da vida das pessoas comuns e só em casos extremos assume
forma patológica. De acordo com ele, o voyeurismo está ligado
a um desejo que surge na primeira infância.
"Estamos
falando da curiosidade que leva uma criança a espiar pela fechadura
do quarto dos pais, para saber o que acontece lá dentro. Existe
até uma expressão freudiana para designar esse processo:
é a fantasia da cena primitiva", explica o psicanalista Renato
Mezan. Como dá para perceber, o símbolo de Casa dos Artistas
um buraco de fechadura é bem apropriado. Mezan
acrescenta que, no caso do programa do SBT, as câmaras funcionam
como uma extensão dos olhos do espectador. Buscam satisfazer sua
curiosidade sexual. De fato, o que parece galvanizar a atenção
do público é a possibilidade de presenciar cenas de intimidade
amorosa entre os participantes. Acompanha-se o "nada", na expectativa
de que se possa ver "tudo". Não por acaso o SBT selecionou tipos
sensuais para integrar o elenco do seu show. São pessoas vulgares
na vida real e nos vídeos do SBT. Mas todos são jovens,
bonitos e de corpo bem torneado. A expectativa de sexo num grupo assim
parece apenas um desdobramento natural da armação.
Casa dos Artistas não é uma jaula desconfortável.
Seus protagonistas têm à disposição um jardim
com piscina, sala de ginástica, mesa de pingue-pongue e, na semana
passada, foram presenteados com um aparelho de videokê. Às
vezes, um enfermeiro é requisitado para fazer um curativo. Ele
já cuidou da sambista Nana Gouvêa, que queimou a mão
cozinhando, e da cantora Patricia Coelho, que teve uma reação
alérgica enquanto tentava descolorir o buço. Na quarta-feira
passada, eles receberam uma visita especial: a de Silvio Santos. Ele passou
quinze minutos conversando com o grupo. Falou sobre a repercussão
do programa e ouviu de Núbia Ólive um pedido para que o
valor dos prêmios fosse aumentado. "Eles estão reclamando
de barriga cheia", disse Silvio a VEJA, que acompanhou o dono do SBT nessa
visita e pôde conferir os bastidores da atração.
A casa fica no bairro paulistano do Morumbi e é vizinha da mansão
do próprio Silvio. Sua área construída é de
800 metros quadrados, dos quais 600 são habitados pelos artistas.
O restante do espaço é usado para acomodar a parafernália
necessária às gravações. Cem pessoas, que
se revezam em turnos de quatro horas, circulam pelos bastidores. Na sala
de direção, há setenta aparelhos de vídeo,
que exibem as imagens captadas por 33 câmaras. Dessas, 27 são
controladas a distância, por joystick. As outras ficam nas mãos
de operadores, que trabalham num corredor escuro, de 1 metro de largura
e 2 de altura, que fica atrás das paredes dos cômodos da
casa e tem aberturas de vidro através das quais é possível
filmar. Para os artistas, essas aberturas funcionam como espelhos comuns.
Eles não podem ver o que está do outro lado. "Como todos
os operadores são marmanjos, a briga é para ver quem vai
ficar no quarto das mulheres", brinca um produtor. A aparelhagem de áudio
também é sofisticada. Todos os artistas andam com um microfone
de lapela e há 26 outros espalhados pela casa. Com isso, até
cochichos podem ser ouvidos. O cantor Supla e a atriz Bárbara Paz
estão envolvidos num chamego e às vezes abaixam a voz para
ter um pouco de "privacidade". Na semana passada, enquanto os dois dividiam
a mesma cama, os microfones captaram um dos elogios sussurrados por Supla:
"Como sua mão é forte!". Ah, sim, depois os dois acabariam
indo um pouquinho adiante, adiante, adiante. Sempre sob uma coberta.
O SBT gastou 5 milhões de reais com Casa dos Artistas
e organizou uma verdadeira operação de guerra para manter
segredo sobre sua montagem, realizada entre meados de agosto e meados
de outubro. Os envolvidos no projeto eram obrigados a assinar um termo
de sigilo. Os pedreiros, jardineiros e decoradores contratados não
sabiam o que estavam construindo. "Eles faziam apostas. Por causa dos
espelhos, achavam que era um cassino clandestino ou até um bordel",
lembra Alfonso Aurin, superintendente do SBT. Os doze participantes que
começaram as gravações saíram de uma lista
com 25 nomes. Contrariando a tendência da maioria dos reality
shows que têm feito sucesso pelo mundo afora, o SBT optou por
trabalhar com gente que já desfrutava de certa fama, e não
com anônimos. Os escolhidos deveriam ser capazes de seduzir um público
jovem. Deveriam também ser desinibidos. Esse requisito foi bem
atendido: das seis mulheres, quatro já haviam posado nuas (Alessandra
Iscatena, Nana Gouvêa, Núbia Ólive e Mari Alexandre).
O mesmo se aplica a três dos seis homens (Alexandre Frota, Marcos
Mastronelli e Mateus Carrieri).
A estréia de Casa dos Artistas teve o efeito da explosão
de uma bomba. Seu conceito, como já dito, é semelhante ao
do Big Brother, o que deixou a Rede Globo furiosa. A emissora carioca
é dona dos direitos de exibição desse programa no
Brasil. Sentindo-se lesada, ela entrou com um processo contra o SBT, alegando
plágio. Os advogados de Silvio Santos conseguiram até agora
contornar o problema. Nos outros dias da semana, o programa vem roubando
espectadores da novela O Clone, justamente no momento em que ela
ganhava força entre o público. O bom desempenho da atração
já está rendendo frutos mais palpáveis a Silvio Santos.
Ele está vendendo rapidamente as inserções publicitárias
nos intervalos de Casa dos Artistas, a um valor médio de
90.000 reais cada trinta segundos de propaganda. A realidade é
um show ainda melhor quando dá dinheiro.
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