
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Pelo buraco da fechadura
Famosos
confinados como cobaias
e voyeurismo do público fazem
o
sucesso de Casa
dos Artistas
Ricardo
Valladares
Antonio Milena

Silvio
Santos em visita a Casa dos Artistas, na semana passada: ele
é só alegria com o programa |

Veja também |
|
|
|
Quando
pediram ao comediante americano Jerry Seinfeld para definir um popularíssimo
seriado de TV que levava seu nome, nos anos 90, ele saiu-se com esta:
"É um programa sobre nada". Coisa semelhante se poderia dizer de
Casa dos Artistas, que o SBT vem exibindo desde 28 de outubro.
Inspirado numa criação holandesa chamada Big Brother,
que originalmente foi ao ar em 1999, ele registra o cotidiano de um
grupo de atores e modelos trancafiados numa casa em São Paulo.
Ao contrário do que ocorre em outros programas do gênero
reality show, como No Limite, da Rede Globo, os participantes
não têm de enfrentar um ambiente natural hostil e comer coisas
nojentas, nem são obrigados a disputar provas de resistência
física. Só precisam estar lá, 24 horas por dia em
frente às câmaras, e conviver uns com os outros. A cada domingo,
um deles é eliminado, num processo que combina votação
secreta dos participantes e a opinião do público. O último
a sair terá passado cinqüenta dias na casa. Em troca, embolsará
um prêmio de 300 000 reais (fora o cachê que lhe foi pago
para tomar parte na atração).
Pouco de interessante aconteceu até agora. No máximo, puderam
ser vistas certas rusguinhas entre os protagonistas, lágrimas derramadas
por causa da saudade de namorados e cônjuges e algumas carícias
afoitas debaixo das cobertas. Ainda assim, o programa é um enorme
sucesso. Exibido no horário nobre, ele provocou uma reviravolta
nos padrões de audiência da TV brasileira (veja
quadro). Vinte milhões de pessoas tornaram-se espectadores
assíduos de Casa dos Artistas. O programa está batendo
o Fantástico da Rede Globo aos domingos, coisa que nunca
acontecera com a atração global desde sua criação,
há 28 anos. Outra coisa: as pessoas que acompanham Casa dos
Artistas não são em sua maioria integrantes das faixas
de baixa renda que sustentam a audiência dos programas populares
da televisão. São telespectadores com um nível de
renda e informação semelhante ao dos que seguem as novelas
da Globo.
Há duas maneiras de interpretar esse fenômeno. A primeira
é dizer que o programa põe em evidência o que existe
de pior na natureza humana. Seus ingredientes seriam o voyeurismo do público
e a cabeça oca dos artistas que estão presos na gaiola montada
por Silvio Santos. A outra maneira é tirar a palavra "pior" da
frase acima e levar em conta o que existe de curioso e intrigante na idéia
central de Casa dos Artistas.
O
comportamento de pequenos grupos confinados é um tema sério
de estudo, com implicações em diversos campos. Desde a década
de 70, instituições de pesquisa vêm montando seus
próprios "zoológicos humanos", para fazer investigações
psicológicas sobre o assunto. "Temos hoje equipes isoladas na Antártida
e na Austrália", conta a americana Deborah Harm, uma das responsáveis
por um laboratório de psicologia da Nasa, a agência espacial
dos Estados Unidos. Nessa função, ela monitora de perto
as atitudes de suas "cobaias". Tudo para ajudar a planejar missões
de longa duração, como uma viagem ao planeta Marte, que
obrigaria os astronautas a conviver no ambiente exíguo de uma nave
por cerca de três anos. Pode parecer forçado comparar um
projeto científico a um show de televisão. Mas, quando bolou
o programa Big Brother, o produtor holandês John de Mol tinha
na cabeça justamente uma grande experiência levada a cabo
nos Estados Unidos. "Tive a idéia depois de ler uma reportagem
sobre aqueles malucos que se trancaram num jardim, para fingir que moravam
em outro planeta", lembra ele. De Mol se refere ao projeto Biosfera 2,
um imenso domo de 17.000 metros quadrados, construído no deserto
do Arizona, onde um grupo de oito cientistas viveria fechado por dois
anos, entre 1991 e 1993.
Outro exemplo de contato entre espetáculo e ciência é
o programa The Human Zoo, uma série em três capítulos
produzida pela TV inglesa e transmitida em abril pelo canal Discovery
nos Estados Unidos. Durante uma semana, doze pessoas ficaram isoladas
num alojamento no interior da Inglaterra. Elas sabiam que estavam sendo
filmadas, mas desconheciam o objetivo exato dos testes a que eram submetidas
verificar até que ponto a sociabilidade e a capacidade de
afeição podem ser afetadas por condições externas
adversas. Os psicólogos encarregados de acompanhar o grupo prepararam
uma série de situações a ser vividas pelas "cobaias".
Primeiro, criaram um ambiente de paz e amor entre os participantes. Em
seguida, dividiram-nos em dois times e mandaram que eles realizassem tarefas
juntos. Algumas delas envolviam riscos físicos, como uma escalada
no meio da mata. Detalhe: quem participava de uma equipe não podia
demonstrar nenhuma solidariedade para com os adversários, mesmo
que os visse em apuros. Quem o fizesse sofria punições e
sua única chance de perdão era realizar uma torpeza. Em
pouco tempo, até os mais pacíficos passaram a se comportar
como carrascos nazistas. "Os reality shows instituíram formas
de observar o comportamento humano que não devem ser desprezadas
pela psicologia", diz um dos idealizadores do The Human Zoo, o
pesquisador americano Philip Zimbardo, da Universidade de Stanford. Ele
é um pioneiro nesse ramo de estudo. Em 1971, ganhou fama por manter
24 alunos enfurnados numa jaula, no porão de sua universidade.
Com
um custo de 150 milhões de dólares, o projeto Biosfera 2
acabou fracassando em sua meta científica, que era manter os habitantes
da redoma completamente isolados do exterior. Uma das principais causas
disso foram os problemas de relacionamento surgidos entre as quatro mulheres
e os quatro homens que tomavam parte do experimento. Para lidar com o
stress, por exemplo, um dos cientistas deu um jeito de contrabandear do
"mundo real" um suprimento de pílulas para dormir. As relações
entre eles se deterioraram progressivamente. No final, o ataque de fúria
de dois pesquisadores resultou na destruição de vários
equipamentos. E houve até uma acusação grave de assédio
sexual dentro da redoma. Dos treinamentos com astronautas da Nasa aos
experimentos do The Human Zoo, nota-se que alguns padrões
de comportamento tendem a se repetir, numa ordem mais ou menos constante.
Passado o período inicial de congraçamento, as diferenças
culturais e de formação começam a produzir estragos
na união do grupo. Ocorre, então, a divisão em facções,
como se vê na disputa entre homens e mulheres de Casa dos Artistas.
À medida que o stress do isolamento eleva a ansiedade, não
é raro haver conflitos de liderança e até escaramuças
físicas.
|
|
 |
|
 |

|
 |