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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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Pelo buraco da fechadura

Famosos confinados como cobaias
e voyeurismo do público fazem

o sucesso de Casa dos Artistas

Ricardo Valladares

 
Antonio Milena

Silvio Santos em visita a Casa dos Artistas, na semana passada: ele é só alegria com o programa


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Corpos sarados, prêmio gordo

Quando pediram ao comediante americano Jerry Seinfeld para definir um popularíssimo seriado de TV que levava seu nome, nos anos 90, ele saiu-se com esta: "É um programa sobre nada". Coisa semelhante se poderia dizer de Casa dos Artistas, que o SBT vem exibindo desde 28 de outubro. Inspirado numa criação holandesa chamada Big Brother, que originalmente foi ao ar em 1999, ele registra o cotidiano de um grupo de atores e modelos trancafiados numa casa em São Paulo. Ao contrário do que ocorre em outros programas do gênero reality show, como No Limite, da Rede Globo, os participantes não têm de enfrentar um ambiente natural hostil e comer coisas nojentas, nem são obrigados a disputar provas de resistência física. Só precisam estar lá, 24 horas por dia em frente às câmaras, e conviver uns com os outros. A cada domingo, um deles é eliminado, num processo que combina votação secreta dos participantes e a opinião do público. O último a sair terá passado cinqüenta dias na casa. Em troca, embolsará um prêmio de 300 000 reais (fora o cachê que lhe foi pago para tomar parte na atração).

Pouco de interessante aconteceu até agora. No máximo, puderam ser vistas certas rusguinhas entre os protagonistas, lágrimas derramadas por causa da saudade de namorados e cônjuges e algumas carícias afoitas debaixo das cobertas. Ainda assim, o programa é um enorme sucesso. Exibido no horário nobre, ele provocou uma reviravolta nos padrões de audiência da TV brasileira (veja quadro). Vinte milhões de pessoas tornaram-se espectadores assíduos de Casa dos Artistas. O programa está batendo o Fantástico da Rede Globo aos domingos, coisa que nunca acontecera com a atração global desde sua criação, há 28 anos. Outra coisa: as pessoas que acompanham Casa dos Artistas não são em sua maioria integrantes das faixas de baixa renda que sustentam a audiência dos programas populares da televisão. São telespectadores com um nível de renda e informação semelhante ao dos que seguem as novelas da Globo.

Há duas maneiras de interpretar esse fenômeno. A primeira é dizer que o programa põe em evidência o que existe de pior na natureza humana. Seus ingredientes seriam o voyeurismo do público e a cabeça oca dos artistas que estão presos na gaiola montada por Silvio Santos. A outra maneira é tirar a palavra "pior" da frase acima e levar em conta o que existe de curioso e intrigante na idéia central de Casa dos Artistas.

O comportamento de pequenos grupos confinados é um tema sério de estudo, com implicações em diversos campos. Desde a década de 70, instituições de pesquisa vêm montando seus próprios "zoológicos humanos", para fazer investigações psicológicas sobre o assunto. "Temos hoje equipes isoladas na Antártida e na Austrália", conta a americana Deborah Harm, uma das responsáveis por um laboratório de psicologia da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. Nessa função, ela monitora de perto as atitudes de suas "cobaias". Tudo para ajudar a planejar missões de longa duração, como uma viagem ao planeta Marte, que obrigaria os astronautas a conviver no ambiente exíguo de uma nave por cerca de três anos. Pode parecer forçado comparar um projeto científico a um show de televisão. Mas, quando bolou o programa Big Brother, o produtor holandês John de Mol tinha na cabeça justamente uma grande experiência levada a cabo nos Estados Unidos. "Tive a idéia depois de ler uma reportagem sobre aqueles malucos que se trancaram num jardim, para fingir que moravam em outro planeta", lembra ele. De Mol se refere ao projeto Biosfera 2, um imenso domo de 17.000 metros quadrados, construído no deserto do Arizona, onde um grupo de oito cientistas viveria fechado por dois anos, entre 1991 e 1993.

Outro exemplo de contato entre espetáculo e ciência é o programa The Human Zoo, uma série em três capítulos produzida pela TV inglesa e transmitida em abril pelo canal Discovery nos Estados Unidos. Durante uma semana, doze pessoas ficaram isoladas num alojamento no interior da Inglaterra. Elas sabiam que estavam sendo filmadas, mas desconheciam o objetivo exato dos testes a que eram submetidas – verificar até que ponto a sociabilidade e a capacidade de afeição podem ser afetadas por condições externas adversas. Os psicólogos encarregados de acompanhar o grupo prepararam uma série de situações a ser vividas pelas "cobaias". Primeiro, criaram um ambiente de paz e amor entre os participantes. Em seguida, dividiram-nos em dois times e mandaram que eles realizassem tarefas juntos. Algumas delas envolviam riscos físicos, como uma escalada no meio da mata. Detalhe: quem participava de uma equipe não podia demonstrar nenhuma solidariedade para com os adversários, mesmo que os visse em apuros. Quem o fizesse sofria punições e sua única chance de perdão era realizar uma torpeza. Em pouco tempo, até os mais pacíficos passaram a se comportar como carrascos nazistas. "Os reality shows instituíram formas de observar o comportamento humano que não devem ser desprezadas pela psicologia", diz um dos idealizadores do The Human Zoo, o pesquisador americano Philip Zimbardo, da Universidade de Stanford. Ele é um pioneiro nesse ramo de estudo. Em 1971, ganhou fama por manter 24 alunos enfurnados numa jaula, no porão de sua universidade.

Com um custo de 150 milhões de dólares, o projeto Biosfera 2 acabou fracassando em sua meta científica, que era manter os habitantes da redoma completamente isolados do exterior. Uma das principais causas disso foram os problemas de relacionamento surgidos entre as quatro mulheres e os quatro homens que tomavam parte do experimento. Para lidar com o stress, por exemplo, um dos cientistas deu um jeito de contrabandear do "mundo real" um suprimento de pílulas para dormir. As relações entre eles se deterioraram progressivamente. No final, o ataque de fúria de dois pesquisadores resultou na destruição de vários equipamentos. E houve até uma acusação grave de assédio sexual dentro da redoma. Dos treinamentos com astronautas da Nasa aos experimentos do The Human Zoo, nota-se que alguns padrões de comportamento tendem a se repetir, numa ordem mais ou menos constante. Passado o período inicial de congraçamento, as diferenças culturais e de formação começam a produzir estragos na união do grupo. Ocorre, então, a divisão em facções, como se vê na disputa entre homens e mulheres de Casa dos Artistas. À medida que o stress do isolamento eleva a ansiedade, não é raro haver conflitos de liderança e até escaramuças físicas.

 



   
 
   
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