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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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Autoridade do barulho

Uma primeira-ministra diferente
chega ao Brasil: ela anda de esqui,
faz trilha e adora escalar

Malu Gaspar


Helen Clark: cumprimento clássico dos maoris

Com cabelo curto e voz grossa, ela já atraiu comentários de que era lésbica. Gosta de fazer trilha pelas matas, adora esquiar na neve e é boa alpinista. Já escalou o Kilimanjaro, na Tanzânia, cujo pico fica a quase 6.000 metros do nível do mar. No ano passado, enfrentou desafio maior: escalar o Aconcágua, na fronteira da Argentina com o Chile, a quase 7.000 metros de altura. "Para ir até lá, intensifiquei a ginástica, passei a freqüentar três vezes por semana a academia, e não apenas duas", diz ela. "Ficamos vinte dias acampados no Aconcágua. O pior foi a subida final. Faltava oxigênio." A protagonista dessas experiências radicais não é uma esportista. É a primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, 51 anos, que nesta terça-feira terá audiência com o presidente Fernando Henrique no Palácio do Planalto. Antes de chegar a Brasília, Helen Clark pretendia desembarcar em Manaus na sexta-feira para fazer uma expedição de dois dias pelo Rio Negro, onde se encontraria com o navegador neozelandês Peter Blake, recordista mundial em navegação sem escalas.

Com um perfil incomum para um chefe de governo, Helen Clark também terá uma comitiva exótica. Entre Brasília e São Paulo, as únicas duas cidades brasileiras que visitará antes de embarcar para Buenos Aires, ela estará acompanhada de oito oficiais do governo, dez empresários e dez índios maoris, a etnia nativa da Nova Zelândia, que corresponde a 15% da população total do país. Ao lado dos maoris, a primeira-ministra deve participar de um encontro com chefes de tribos brasileiras no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. Apesar de seu convívio amistoso com os índios, foi ao lado deles que Helen Clark passou pelo único momento em que rompeu um dos dogmas de seu feminismo convicto – o de que mulher não pode chorar em público. Em fevereiro de 1998, ainda como líder da oposição, Helen Clark visitou uma tribo maori em cujas recepções públicas, por tradição, as mulheres não falam. Helen Clark começava a falar quando viu uma índia se levantar – e supôs que ganharia apoio. A índia espinafrou Helen Clark, que se debulhou em lágrimas.


A NOVA AVENTURA
Helen Clark, 51 anos, casada, sem filhos: antes
de desembarcar em Brasília, expedição de dois dias pelo Rio Negro, na Amazônia

"Não gosto de me lembrar disso", diz ela. "Se um homem poderoso chora, é sensível e humano. Se é uma mulher na mesma posição, é fraca." Na Nova Zelândia de Helen Clark, alguns dos cargos mais relevantes são ocupados por mulheres: a governadora-geral, a procuradora-geral, a presidente da mais alta corte jurídica do país e, até duas semanas atrás, a líder da oposição. Dos 202 cargos mais importantes no governo, 57 são preenchidos por mulheres. Recentemente, a primeira-ministra pediu a seus assessores que escolhessem mais mulheres para cargos administrativos do governo, por achar que elas estão sub-representadas. "Esse governo só vai indicar um homem branco se não puder encontrar uma mulher", reclama o oposicionista Richard Preeble, líder de um pequeno partido conservador.

Helen Clark tem uma vida modesta. Anda sem seguranças pela rua, leva pessoalmente as roupas à lavanderia, diariamente compra leite e jornais, e gosta de ir à ópera – mas detesta intromissões em sua vida pessoal. Depois de cinco anos dividindo o mesmo teto com o companheiro, um professor universitário, resolveu casar-se legalmente, em 1985, e passou a encarar as insinuações de homossexualidade com bom humor. "Não estou nem um pouco incomodada com isso", diverte-se.

   
 
   
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