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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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A vaca de 2 milhões de reais

Como vive Fairani, a recordista
dos leilões de gado no Brasil

Beatriz Baldim


Nélio Rodrigues/Primeiro Plano
Fairani: quarto de 16 metros quadrados, pedicuro e prêmios em exposições


"Fairani" pode ser chamada de vaca dos óvulos de ouro. Tem 3 anos e quatro filhos. Está grávida novamente – mas tecnicamente ainda é virgem. Recebe um tratamento de dar inveja a qualquer curral. Passa três horas por dia tomando sol e ingere 60 quilos de comida. Só toma banho com água geladinha e sabão em pó – é assim que as vacas gostam. Fairani, tida pelo dono e por associações de criadores nacionais como a vaca mais cara do mundo, é brasileira. Nasceu em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Para a espécie, exibe medidas invejáveis: 900 quilos e 1,68 metro de altura. A despeito desse porte atlético, é dócil. Nunca arrumou confusão na Fazenda Mata Velha, em que mora há dois anos. Fairani é a grande miss de toda uma geração de vacas que vivem para fabricar óvulos e embriões por inseminação artificial ou fertilização in vitro. Cada embrião obtido com um óvulo seu vale 36.000 dólares, ou quase 100.000 reais. Esses bezerros seguirão a vocação da família. As fêmeas vão produzir embriões. Os rapazes, sêmen.

Fairani, uma vaca nelore, vem de uma linhagem perfeita – filha de "Panagpur" e "Bilara VI", dois astros da inseminação artificial. Em setembro participou de um leilão em que apenas metade dela foi vendida. O comprador – o empresário do setor agroquímico Henri Slezynger –, cujo lance alcançou cerca de 1 milhão de reais, adquiriu metade da produção que ela vier a gerar, incluindo o bezerrinho que traz na barriga há quase nove meses, que nascerá nos próximos dias. A outra metade pertence ao dono original, o pecuarista Jonas Barcellos. A vida útil de Fairani é de pelo menos doze anos. Normalmente, seus embriões são transferidos para o útero de outras vacas. Mas depois da extração consecutiva de dois embriões ela precisa ter uma gestação natural para que a produção de hormônios se recomponha em seu organismo. No período de produção intensiva, ela recebe um tratamento extra de hormônios, para acelerar seu metabolismo.

O pai desse filhote de Fairani já está morto há um ano. O casal nunca se conheceu. O touro "Nambi Mata Velha" era um campeão de 1.260 quilos e 2 metros de altura. Deixou para os proprietários mais de 5.000 doses congeladas de esperma, prontas para fecundar vacas de elite. Fairani, uma das eleitas, jamais terá contato sexual com um macho. "O filho de Fairani tem 70% de chance de ser um animal de altíssimo nível", afirma Jonas Barcellos, que ainda não sabe o sexo do bebê. Uma das bezerras que Fairani gerou foi arrematada neste ano por quase 150.000 reais. A expectativa sobre o novo rebento é grande. Depois que ele nascer, será amamentado por sete meses, mas a licença-maternidade de Fairani acaba trinta dias depois do parto.

Uma vaca famosa tem muitas regalias. Ocupa sozinha, por exemplo, uma baia do tamanho de um quarto. A faxina do ambiente acontece três vezes por dia e sua cama, de palha, é trocada quinzenalmente. O veterinário Leonardo Teixeira a visita todos os dias. Uma vez ao mês, um pedicuro apara seu casco. Outros quatro funcionários se revezam nos cuidados com a vaca e suas vizinhas de baia. Entre 7 e 10 horas da manhã, ela pode fartar-se de capim coast-cross, bem mais nutritivo e que custa o dobro do usado para o gado comum. Outras vinte vacas de elite lhe fazem companhia nessa refeição. Quando ela volta para a baia, vem a sobremesa – uma mistura de milho e farinhas de soja e de algodão. Às vezes, Fairani sai de Minas Gerais para apresentar-se em exposições. Já visitou Goiás, São Paulo e Paraná. Vai de caminhão, em pé, sem comer nada durante horas, mas quase sempre acaba premiada. Ganhou, por exemplo, o título de a melhor fêmea jovem de 2000. Nessas ocasiões, seu pêlo é aparado e os cascos ganham lustro especial – uma maquiagem básica. "Quanto mais natural ela parecer, melhor", diz Barcellos.

Não será surpresa para ninguém se realmente se confirmar que Fairani é a vaca mais cara do mundo. "O preço alcançado por animais como esse reflete quanto a pecuária se está valorizando no Brasil", comenta o ministro Marcus Pratini de Moraes, da Agricultura. O país possui o maior rebanho bovino comercial do mundo, com 161,8 milhões de cabeças. A doença da vaca louca e a febre aftosa, na Europa, também se tornaram estímulos à produção nacional. O Brasil é o terceiro exportador mundial de carne bovina. Estima-se que a pecuária fechará o ano com exportações na casa dos 950 milhões de dólares, 200 milhões a mais que no ano passado. Fairani está fazendo sua parte.

 

Quem dá mais?

Com o valor de Fairani é possível comprar:

3 600 vacas comuns
130 000 quilos de filé mignon
2 000 000 litros de leite
12 automóveis BMW 330 iA Motorsport



   
 
   
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