
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Portugal sem vinho
Protestos
contra uma das leis
antiembriaguez ao volante
mais duras do mundo
Valdemir Cunha
 |
|
Jovens na balada em Lisboa: no máximo uma
taça se quiser dirigir |
Beber
e dirigir é um hábito tão comum em Portugal quanto,
digamos, no Brasil. Há pouco mais de um mês, o governo português
determinou que o nível máximo de álcool no sangue
permitido para quem conduz um automóvel na estrada é de
0,2 grama por litro. Antes da decisão, o índice era de 0,5.
Essas concentrações variam de acordo com o peso ou o sexo
do bebedor, mas, em linhas gerais, isso significa que quem decidir dirigir
em Portugal não pode tomar mais que uma taça de vinho tinto.
Os autores da lei argumentaram que o país apresenta estatísticas
horrorosas de acidentes de trânsito e, por isso, a medida é
"urgente e imprescindível" para a preservação de
vidas. Os números realmente impressionam. O índice médio
de mortes é quatro vezes superior ao da Inglaterra, que tem uma
população seis vezes maior.
Como nem as leis trabalham no vácuo, a dura restrição
à bebida em Portugal chocou-se de frente com a cultura e a economia
do país. A lei gerou descontentamentos por toda parte. O primeiro
foi dos produtores de vinho, temerosos de que suas receitas continuem
caindo vertiginosamente com o que chamaram de a "lei quase seca de Portugal".
Pelos cálculos da associação vinícola do país,
desde que a nova lei entrou em vigor, o faturamento dos fabricantes de
vinho no mercado interno afundou 40%. Os vinicultores convocaram uma manifestação
que deve reunir 15.000 produtores em Lisboa no próximo dia 26.
O objetivo é revogar a lei. Os caminhoneiros e os motoristas profissionais
também se insurgiram contra a medida. Estranhamente pleiteiam que
a lei que coíbe a ingestão de álcool não seja
aplicada aos motoristas profissionais nas estradas, mas apenas aos amadores
nas cidades. A reclamação geral é que o índice
estipulado é rigorosíssimo. Nos Estados Unidos, cada Estado
estabelece o limite, mas o mais brando prevê 1 grama por litro
na cidade de Nova York a concentração legalmente permitida
é de 0,8. No Brasil, com o Código de Trânsito que
entrou em vigor em 1998 a taxa caiu de 0,8 para 0,6. Na ocasião,
houve manifestações contrárias à determinação,
mas nada que se compare à revolta que a medida está gerando
em Portugal.
Em toda a Europa, só a Suécia tem uma lei tão rígida
quanto a portuguesa. E foi justamente em razão dos resultados suecos
com a restrição que o governo português se animou
a copiar a medida. Desde que passou a vigiar e a punir o hábito
de beber e dirigir, a Suécia viu cair em 7% a incidência
de acidentes de trânsito no país. O motorista pego com concentração
excessiva de álcool no sangue em Portugal terá de pagar
uma multa de 48 contos, cerca de 540 reais. A reincidência pode
resultar em detenção de até dois anos.
Foto Dada Cardoso

|
|
|
 |