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Um mártir
para o PT
Ex-guerrilheiro
deixa o partido
para escapar da comissão de ética
Diogo Schelp
As relações entre o PT gaúcho e os banqueiros do
jogo do bicho, confirmadas na gravação de uma conversa de
um figurão do partido, deram origem a investigações
de sentidos inversos. Numa, uma comissão parlamentar de inquérito
dominada por deputados estaduais de oposição fez de tudo
para enredar o governador Olívio Dutra e terminou recomendando
na semana passada que o Ministério Público o indicie por
improbidade administrativa. O relatório com essa conclusão
ainda precisa ser aprovado no plenário da Assembléia Legislativa,
na qual Olívio também tem minoria. Na outra investigação,
dentro do próprio PT, há um esforço para aliviar
a barra do governador. Um dos líderes dessa corrente é o
próprio petista que foi gravado ao pedir refresco para os bicheiros
ao chefe de polícia. Na gravação, ele disse que falava
em nome de Olívio. Agora tem outro discurso. "Usei impropriamente
o nome do governador naquela conversa", diz Diógenes de Oliveira,
que foi secretário de Transportes da prefeitura de Porto Alegre
na gestão de Olívio Dutra e hoje pilota negócios
que misturam ideologia e dinheiro. Na sexta-feira, Diógenes anunciou
seu pedido de desfiliação do PT para escapar da comissão
de ética. Olívio Dutra já havia sido poupado.
"Sobre
o governador não há nada para analisar, pois não
há fato concreto contra ele", explica o deputado José Genoíno.
Diógenes, de 58 anos, tem o perfil de um mártir. Foi guerrilheiro,
preso político e exilado nos tempos da ditadura militar. Um mártir
é tudo de que o PT precisa para salvar a pele do governador do
Rio Grande do Sul. "Essa postura de assumir sozinho a culpa é própria
do caráter dele, marcado pela lealdade", diz Darcy Rodrigues, que
foi colega de Diógenes no grupo armado Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR), na década de 60. O petista passou um ano preso, a maior
parte do tempo no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Foi
torturado. Tinha muitas informações sobre guerrilheiros
que permaneciam soltos. Não há notícia de que tenha
entregado algum deles. Saiu da cadeia, em março de 1970, direto
para o exílio, trocado com mais quatro terroristas pelo cônsul
japonês Nobuo Okuchi, que tinha sido seqüestrado por sua organização.
"O fato de ter sido escolhido para ser libertado demonstra que ele era
importante no grupo", diz o historiador Jacob Gorender, autor de Combate
nas Trevas, livro que narra a história da reação
armada à ditadura.
Os feitos de Diógenes como guerrilheiro fazem dele um herói
da esquerda. Treinado em campos militares em Cuba, o ex-bancário
gaúcho foi fundador da VPR, depois de breve militância brizolista.
Seu negócio era pouca teoria e muita prática. No livro de
Gorender, conta-se que participou do roubo a uma casa de armas em São
Paulo, uma das chamadas expropriações em nome da revolução.
Noutro livro A Esquerda Armada no Brasil, de A. Caso , está
descrita pelo guerrilheiro Pedro Lobo de Oliveira sua participação
no assassinato do capitão americano Charles Chandler, em 1968,
uma execução. Diógenes, narra o livro, foi o primeiro
a disparar contra o capitão, tido como agente da CIA. "Luís"
um dos codinomes de Diógenes também fez parte naquele
ano, segundo Darcy Rodrigues, de um assalto a um hospital militar e do
atentado a bomba contra o quartel-general do II Exército, no qual
morreu o recruta Mário Kosel Filho. "Afável e de poucas
palavras, ele era um exemplo de pragmatismo", conta Rodrigues.
No exílio, Diógenes viveu em Cuba, no Chile e na Bélgica.
"Foi um dos poucos exilados que aprenderam a falar flamengo", recorda
Chizuo Osava, o "Mário Japa" da VPR. Na África, dirigiu
um projeto de cooperação econômica da Holanda na Guiné-Bissau.
Anistiado, voltou para o Brasil em 1984, retomou contatos políticos
em Porto Alegre, não teve sucesso numa candidatura a vereador e
acabou no PT e na assessoria de Olívio. Criativo, inventou o Clube
de Seguros da Cidadania, uma entidade voltada à captação
de recursos para o partido, e, mais recentemente, uma agência de
viagens semelhante, que leva turistas a acampamentos do Movimento dos
Sem-Terra. Há dois anos, quando começaram os boatos sobre
a ligação com bicheiros, Diógenes largou um cargo
que exercia no governo estadual. Em suas agendas, ele registra nomes recorrendo
a apelidos. "Truta" é o governador. "Whisky" e "Mudo" seriam dois
bicheiros de sua intimidade. "Continuo o socialista e revolucionário
de sempre", ele declarou recentemente à CPI. Pelo menos quanto
à disposição de dar a cabeça pelo partido,
isso parece verdade.
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