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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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Um mártir para o PT

Ex-guerrilheiro deixa o partido
para escapar da comissão de ética

Diogo Schelp

As relações entre o PT gaúcho e os banqueiros do jogo do bicho, confirmadas na gravação de uma conversa de um figurão do partido, deram origem a investigações de sentidos inversos. Numa, uma comissão parlamentar de inquérito dominada por deputados estaduais de oposição fez de tudo para enredar o governador Olívio Dutra e terminou recomendando na semana passada que o Ministério Público o indicie por improbidade administrativa. O relatório com essa conclusão ainda precisa ser aprovado no plenário da Assembléia Legislativa, na qual Olívio também tem minoria. Na outra investigação, dentro do próprio PT, há um esforço para aliviar a barra do governador. Um dos líderes dessa corrente é o próprio petista que foi gravado ao pedir refresco para os bicheiros ao chefe de polícia. Na gravação, ele disse que falava em nome de Olívio. Agora tem outro discurso. "Usei impropriamente o nome do governador naquela conversa", diz Diógenes de Oliveira, que foi secretário de Transportes da prefeitura de Porto Alegre na gestão de Olívio Dutra e hoje pilota negócios que misturam ideologia e dinheiro. Na sexta-feira, Diógenes anunciou seu pedido de desfiliação do PT para escapar da comissão de ética. Olívio Dutra já havia sido poupado.

"Sobre o governador não há nada para analisar, pois não há fato concreto contra ele", explica o deputado José Genoíno. Diógenes, de 58 anos, tem o perfil de um mártir. Foi guerrilheiro, preso político e exilado nos tempos da ditadura militar. Um mártir é tudo de que o PT precisa para salvar a pele do governador do Rio Grande do Sul. "Essa postura de assumir sozinho a culpa é própria do caráter dele, marcado pela lealdade", diz Darcy Rodrigues, que foi colega de Diógenes no grupo armado Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), na década de 60. O petista passou um ano preso, a maior parte do tempo no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Foi torturado. Tinha muitas informações sobre guerrilheiros que permaneciam soltos. Não há notícia de que tenha entregado algum deles. Saiu da cadeia, em março de 1970, direto para o exílio, trocado com mais quatro terroristas pelo cônsul japonês Nobuo Okuchi, que tinha sido seqüestrado por sua organização. "O fato de ter sido escolhido para ser libertado demonstra que ele era importante no grupo", diz o historiador Jacob Gorender, autor de Combate nas Trevas, livro que narra a história da reação armada à ditadura.

Os feitos de Diógenes como guerrilheiro fazem dele um herói da esquerda. Treinado em campos militares em Cuba, o ex-bancário gaúcho foi fundador da VPR, depois de breve militância brizolista. Seu negócio era pouca teoria e muita prática. No livro de Gorender, conta-se que participou do roubo a uma casa de armas em São Paulo, uma das chamadas expropriações em nome da revolução. Noutro livro – A Esquerda Armada no Brasil, de A. Caso –, está descrita pelo guerrilheiro Pedro Lobo de Oliveira sua participação no assassinato do capitão americano Charles Chandler, em 1968, uma execução. Diógenes, narra o livro, foi o primeiro a disparar contra o capitão, tido como agente da CIA. "Luís" – um dos codinomes de Diógenes – também fez parte naquele ano, segundo Darcy Rodrigues, de um assalto a um hospital militar e do atentado a bomba contra o quartel-general do II Exército, no qual morreu o recruta Mário Kosel Filho. "Afável e de poucas palavras, ele era um exemplo de pragmatismo", conta Rodrigues.

No exílio, Diógenes viveu em Cuba, no Chile e na Bélgica. "Foi um dos poucos exilados que aprenderam a falar flamengo", recorda Chizuo Osava, o "Mário Japa" da VPR. Na África, dirigiu um projeto de cooperação econômica da Holanda na Guiné-Bissau. Anistiado, voltou para o Brasil em 1984, retomou contatos políticos em Porto Alegre, não teve sucesso numa candidatura a vereador e acabou no PT e na assessoria de Olívio. Criativo, inventou o Clube de Seguros da Cidadania, uma entidade voltada à captação de recursos para o partido, e, mais recentemente, uma agência de viagens semelhante, que leva turistas a acampamentos do Movimento dos Sem-Terra. Há dois anos, quando começaram os boatos sobre a ligação com bicheiros, Diógenes largou um cargo que exercia no governo estadual. Em suas agendas, ele registra nomes recorrendo a apelidos. "Truta" é o governador. "Whisky" e "Mudo" seriam dois bicheiros de sua intimidade. "Continuo o socialista e revolucionário de sempre", ele declarou recentemente à CPI. Pelo menos quanto à disposição de dar a cabeça pelo partido, isso parece verdade.

 
 
   
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