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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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O novo rei do petróleo

AFP

PACTO ANTITERROR
Rússia e Estados Unidos não simulam parceria semelhante desde a vitória aliada sobre a Alemanha nazista na II Guerra

Os republicanos viviam criticando a atenção que o ex-presidente Bill Clinton dedicava à Rússia, país tomado pela corrupção e controlado pela máfia. A Rússia não deixou de ser um dos endereços mais corruptos e mafiosos do planeta, mas na semana passada o governo republicano de George W. Bush cobria de salamaleques o presidente Vladimir Putin na visita do líder russo aos Estados Unidos. A viagem durou três dias, período em que o presidente esteve em Washington e no Estado do Texas. A empresários, Putin discursou sobre a importância de parcerias nas ações contra o terrorismo global e falou ainda sobre seu desejo de ver a Rússia entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Falou também sobre a redução do arsenal nuclear. Só que ninguém estava tão interessado em discursos sobre esses assuntos. Todos queriam ouvi-lo falar sobre um assunto mais urgente: o petróleo.

Os Estados Unidos são o terceiro maior produtor mundial de petróleo, mas importam 60% do que consomem. A maior parte do petróleo importado é oriunda do Oriente Médio, especialmente da Arábia Saudita. Até outro dia, essa parceria com os árabes serviu não apenas aos interesses comerciais dos Estados Unidos. Depois de diversas negociações tocadas a partir de Washington, o dinheiro saudita e o empenho pessoal de um árabe chamado Osama bin Laden conseguiram a expulsão dos russos do Afeganistão. Ocorre que a parceria do passado já não mantém a mesma qualidade. Ao mesmo tempo que os governantes da Arábia Saudita se declaram empenhados no combate ao terrorismo, eles não conseguem desfazer a rede de interesses que financia os islamitas mais radicais, inclusive a Al Qaeda de Laden. Daí por que os Estados Unidos agora se fiam no velho adversário russo para vencer o novo inimigo: o medo de uma eventual crise de abastecimento de petróleo. Era sobre esse assunto que os americanos queriam ouvir Putin falar. E ele falou.

Durante uma palestra feita a empresários, Putin disse que a Rússia está preparada para aumentar a exportação de petróleo para os Estados Unidos e convidou os americanos a intensificar os investimentos em seu país. Dezenas de empresas americanas já atuam no setor de energia na Rússia. Putin quer mais. A Sibéria é vista como a terra das oportunidades para companhias mastodônticas como British Petroleum. A Rússia é o segundo maior exportador e produtor de petróleo do mundo. Acredita-se que essa produção possa aumentar muito. Na comparação com o ano passado, fala-se que o número de barris em 2001 deva ser 8% maior. O petróleo é hoje o principal item da pauta de exportações, representando uma receita anual de 48 bilhões de dólares. Moscou acredita que esse número possa subir 20% caso a captação de investimentos seja bem-sucedida. Os primeiros resultados foram positivos. A viagem recebeu elogios dos especialistas e dos críticos mais ácidos. E uma das empresas que investem na região, a ExxonMobil, anunciou que vai refazer seu planejamento. Fala em desembolsar não mais 600 milhões de dólares, mas 4 bilhões.

Putin, o novo rei do petróleo, é um especialista das relações internacionais. Na função de agente secreto, viveu um bom tempo na ocasião da Guerra Fria na então Alemanha Oriental. Conheceu como poucos os pormenores da escassez provocada pelo comunismo no Leste Europeu e a eficiência econômica de países do porte de França e Alemanha. Quando voltou a sua terra natal, elegeu-se deputado e ajudou a captar investimentos. Está utilizando sua experiência para modernizar a Rússia. Quer dotá-la de boas escolas, indústrias competitivas e instituições legais. "É claro que Putin sabe que o futuro da Rússia está no oeste, porque aqui está a fonte da tecnologia e da inspiração", afirma Colin Powell, secretário de Estado americano.

Na Rússia, já é possível sentir a mão do líder. A Moscou de hoje se parece com outras cidades cosmopolitas. Experimentar pratos chiques em restaurantes e encontrar vestidos suntuosos em butiques francesas tornaram-se hábitos comuns para a população mais abastada. Há certamente muitos problemas a ser resolvidos. A máfia russa age impunemente, 50 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, o interior é pouco desenvolvido e a ação nada ponderada do Exército contra os rebeldes separatistas chechenos atinge sua reputação. Se isso não bastasse, a oposição acusa o presidente de ser condescendente com os interesses dos capitalistas desenvolvidos. Esquecem-se, no entanto, de que Putin está jogando com as cartas que têm. O poderio bélico da Rússia e sua influência na região servem para atrair dinheiro de fora, única forma de melhorar a vida de seu povo.

 
 
   
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