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A
lei do cão
Reuters
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DUROS
E MALVADOS
Para americanos, mais medidas de segurança; para estrangeiros
ligados ao terror, tribunais de exceção |
Logo
depois dos atentados terroristas de 11 de setembro, diversas autoridades
do governo americano avisaram que a guerra contra seus perpetradores seria
longa, dura e suja. Estavam falando a verdade. A medida mais dura, no
campo jurídico, foi baixada na terça-feira passada, com
o decreto do presidente George W. Bush que permite a criação
de tribunais militares especiais para julgar estrangeiros acusados de
terrorismo. Que fique claro desde o início: o decreto é
a coisa mais próxima à lei do cão que já se
viu nos Estados Unidos
desde a II Guerra Mundial, quando o mesmo instrumento de exceção
foi usado para executar seis dos oito agentes alemães infiltrados
no país com o objetivo de praticar atos de sabotagem. Por ele,
é o presidente que tem a prerrogativa de determinar quem é
suspeito de ser terrorista ou de, conscientemente, dar abrigo ou ajuda
a alguém acusado desse tipo de crime. Os suspeitos ficam sob controle
exclusivo do Departamento de Defesa, seja nos Estados Unidos ou em outros
países, sem direito de recorrer a nenhuma instância da Justiça
regulamentar. Os tribunais especiais poderão omitir do acusado
e de seu advogado trechos dos autos que considerem comprometedores para
a segurança nacional. Por fim, se julgados culpados por dois terços
dos integrantes desse tribunal de exceção, os condenados
estarão sujeitos a execução praticamente sumária.
O lado menos chocante do decreto é que ele mira diretamente Osama
bin Laden e seu bando de assassinos. O objetivo é criar uma instância
para julgar o terrorista-mor, rapidamente e fora dos Estados Unidos, na
hipótese remota de que seja capturado vivo. Com isso, elimina-se
o risco de que se realize o que muitos americanos diziam, em tom de piada,
ser seu pior pesadelo depois de 11 de setembro: o terrorista milionário
era capturado, levado para os Estados Unidos e, com caixa suficiente,
contratava um advogado do calibre de Johnnie Cochran, a super-raposa que
conseguiu a absolvição de O.J. Simpson, assassino da ex-mulher
e de um amigo dela. Era capaz até de ganhar uma indenização...
O lado ruim é que sem dúvida as novas medidas infringem
direitos consagrados. "Isso é profundamente perturbador e constitui
mais uma evidência de que o governo tem total falta de disposição
para aceitar o sistema de pesos e contrapesos que é tão
vital para nossa democracia", protestou Laura Murphy, diretora da organização
em Washington mais diretamente empenhada na salvaguarda das garantias
constitucionais, a União Americana para as Liberdades Civis (ACLU).
Muitos advogados americanos já estavam alarmados com medidas adotadas
anteriormente, como a permissão para grampear conversas entre detidos
por suspeita de terrorismo e seus representantes legais. Na quarta-feira
passada, o paulista Jayme Vita Rosso, diretor da comissão de relações
internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), recebeu um memorando
da organização correlata nos Estados Unidos, a American
Bar Association, pedindo apoio a um manifesto de repúdio a vários
pontos do pacote antiterror. "Vamos nos mobilizar contra a tentativa de
espionagem aos nossos clientes, via violação de sigilo bancário,
telefônico e até na relação de privacidade
entre o acusado e seu advogado", enumera Rosso.
Críticas
de organizações ultraliberais como a ACLU e de advogados,
os primeiros interessados em preservar garantias desse tipo, são
previsíveis. Mais surpreendente, e veemente, foi a reação
de um dos gigantes da direita americana, o colunista William Safire, que
acusou o presidente dos Estados Unidos de "assumir o equivalente a poderes
ditatoriais para encarcerar ou executar" cidadãos estrangeiros.
"Num momento em que até liberais andam discutindo a ética
da tortura, é a hora certa para que iconoclastas conservadores
e linhas-duras de carteirinha se levantem em defesa dos valores americanos",
fulminou Safire. A espetada foi dirigida a um colega de imprensa, Jonathan
Alter, da revista Newsweek, que, num dos momentos mais deprimentes
do jornalismo livre, publicou recentemente um artigo no qual não
só discute, mas exalta as possíveis vantagens da tortura
de suspeitos de terrorismo.
Entre as reações apaixonadas como as de Safire e a defesa
das medidas de exceção feita pela administração
Bush, ficaram algumas opiniões respeitadas nos meios jurídicos.
"Dada a periculosidade do grupo terrorista de Osama bin Laden, é
prudente entregar os casos a tribunais militares, até por terem
mais flexibilidade em acolher provas que, em alguns casos, não
são aceitas em tribunais civis", disse a VEJA a professora Ruth
Wedgwood, especialista em direito internacional das universidades Yale
e Johns Hopkins. Na avaliação dela, um período de
exceção, como o vivido por um país lançado
em clima de guerra por ataques terroristas de magnitude sem precedentes,
justifica medidas correspondentes. As pesquisas de opinião indicam
que o público em geral tende a concordar com posições
como a da professora Wedgwood. Num país de população
tradicionalmente ciosa de seus direitos, às vezes a ponto do exagero,
os atentados de 11 de setembro provocaram mudanças até então
impensáveis. Um incidente ocorrido no começo da semana passada
exemplifica isso à perfeição. Um avião da
US Airways voava a caminho de Washington, onde pousaria no aeroporto que
fica no centro da cidade, o mais vigiado do país pela proximidade
com a Casa Branca e outros marcos do poder. Exatamente por causa disso,
todos os passageiros com destino a esse aeroporto são proibidos
de levantar da poltrona meia hora antes da chegada ordem que foi
desobedecida, no vôo em questão, por Raho Ortiz. O passageiro
desatento, que é advogado e índio da nação
navajo, resolveu ir ao banheiro na hora errada. Foi imobilizado e algemado
por dois agentes armados que viajavam incógnitos. Para se prevenir
da possibilidade de que fosse um seqüestro e houvesse mais cúmplices,
os agentes mandaram todos os 106 passageiros colocar as mãos na
nuca. Vários entraram em pânico, achando que os seguranças,
sim, se comportavam como seqüestradores. No mundo pré-11 de
setembro, uma aeromoça que derrubasse café quente num passageiro
abriria caminho para um processo daqueles, com indenização
milionária, contra a companhia aérea. No vôo da semana
passada, os passageiros tratados como seqüestradores em potencial
saíram sem dar um pio depois de tudo esclarecido. Não é
de estranhar que pouca gente tenha reclamado dos tribunais de exceção
criados para terroristas estrangeiros.
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