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Só falta bin
Laden
Reuters
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EUFORIA
Moradores
de Cabul, a capital do Afeganistão, comemoram a queda do
Talibã: livres do terror fundamentalista
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De
todas as encrencas da guerra no Afeganistão, restava por resolver,
na sexta-feira passada, a maior de todas. Falta capturar Osama bin Laden.
É fato que na luta contra o terrorismo os Estados Unidos ainda
têm de se ver com os países que patrocinam o terror e as
organizações criminosas espalhadas pelo mundo inteiro. Mas
o desmoronamento do Talibã e a tomada de Cabul já significam
que a primeira etapa da guerra está no fim. Na última semana,
as forças da Aliança do Norte, adversárias do Talibã,
entraram numa Cabul em festa. Quanto a Osama bin Laden, ele se tornou
uma espécie de símbolo da atual campanha contra o terrorismo.
Os americanos e ingleses podem expulsar todos os mulás barbudos
do Afeganistão, mas, se não prenderem ou matarem Laden,
a batalha parecerá perdida. Logo depois da queda de Cabul, na terça-feira,
tropas especiais americanas começaram a participar
ativamente das buscas em terra, vasculhando cavernas à procura
do saudita. Caso a toca do terrorista seja descoberta, aviões vão
bombardear intensamente o local, enquanto tropas especiais estarão
se preparando para entrar em ação.
A captura ou morte de Laden será um golpe duplamente pesado para
a Al Qaeda, a organização responsável pelos atentados
de setembro nos Estados Unidos. Isso porque é dada como certa a
morte num bombardeio do homem que lhe poderia suceder, Mohamed Atif. Esse
egípcio era o encarregado dos assuntos militares da Al Qaeda. À
moda dos fundamentalismos islâmicos, que confiam sobretudo nos laços
de sangue, uma filha de Atif é casada com um filho de Laden. Chefes
tribais que apoiavam a milícia talibã estão desertando
e, com isso, cresce a esperança de que algum deles entregue o terrorista,
cuja cabeça vale uma recompensa de 5 milhões de dólares.
Os caciques tribais da etnia patane, que deram sustentação
ao Talibã, sempre foram rápidos em pular de barcos furados.
Isso, de fato, já está acontecendo. Os oito missionários
ocidentais que ficaram três meses presos pelo regime dos mulás
barbudos foram resgatados por helicópteros americanos graças
a um desses chefes vira-casacas. As relações entre o Talibã
e a Al Qaeda estão ficando difíceis. Donald Rumsfeld, o
secretário de Defesa americano, revelou que houve um bate-boca
feio entre Mohamed Omar, o líder máximo do Talibã,
e representantes da Al Qaeda na hora de decidir quem ficaria com os suprimentos
no clima de corre-corre que se instalou entre eles.
AP
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SEM
BURCA
Afegã levanta o véu e mostra o rosto: com a queda do Talibã,
após cinco anos as mulheres poderão voltar a estudar e a trabalhar |
Uma
coisa comprovada é a antiga lenda de que os afegãos odeiam
os estrangeiros que invadem sua terra. Não se está falando
dos soldados americanos, recebidos com festas, mas dos voluntários
estrangeiros do Talibã e da Al Qaeda, que estão sendo executados
sempre que capturados. Seus corpos são deixados ao relento, com
dinheiro enfiado na boca, um gesto afegão de desprezo. Na sexta-feira
passada, véspera do primeiro dia do mês sagrado de Ramadã,
os mulás nas mesquitas de Cabul exortaram os fiéis a caçar
os árabes e paquistaneses da Al Qaeda. Diferentemente dos talibãs
derrotados, que vão para casa ou trocam de lado na guerra, os estrangeiros
não têm para onde correr. Talvez por isso em Kondoz, o derradeiro
enclave talibã no norte do Afeganistão, até o fim
da semana passada alguns milhares de combatentes árabes, paquistaneses
e chechenos não aceitavam a rendição, apesar da impossibilidade
de romper o cerco das forças rivais. Cabul, a capital do Afeganistão
e do fundamentalismo islâmico, caiu com tanta rapidez que até
os terroristas ficaram atordoados.
Até o início da ofensiva fulminante, a Aliança do
Norte dominava menos de 10% do país e assistia de camarote aos
aviões americanos bombardearem posições do Talibã,
sem grandes efeitos aparentes. Apesar de terem despejado 6.000 bombas
sobre o inimigo, a um ritmo de nove por hora durante quatro semanas, os
Estados Unidos e seus aliados estavam resignados a uma longa guerra de
atrito no severo inverno afegão, que começa em dezembro.
Em meros cinco dias, as tropas da Aliança do Norte tomaram as principais
cidades e, na sexta-feira, dominavam 80% do território afegão.
Os combatentes do Talibã, de quem se esperava resistência
feroz, fugiram sem lutar de quase todos os lugares, inclusive da capital
do Afeganistão. Agora, estão acuados num pequeno território
no sul do país. Guardadas as proporções, a tomada
de Cabul fez lembrar um pouco a comovente libertação de
Paris da ocupação nazista, no fim da II Guerra. Em ambos
os lugares, viu-se a festa de um povo liberto do jugo de ocupantes dispostos
a qualquer crueldade no esforço de moldar a realidade de acordo
com os sonhos de líderes lunáticos.
Os
moradores apressaram-se em voltar à vida normal, retomando atividades
simples do cotidiano que estiveram proibidas durante os cinco anos de
califado da milícia fundamentalista. Filas se formaram diante das
barbearias. Os homens estavam ansiosos para se livrar do pelame no rosto,
que era um tabu a ser seguido no regime talibã. Aparelhos de TV
e instrumentos musicais, que estavam proibidos, foram desenterrados do
quintal como um tesouro recuperado. A música voltou a ser ouvida
em público, animando a recepção às tropas
da Aliança do Norte. Soltou-se pipa, um passatempo popular que
também estava banido. Lojistas foram buscar em esconderijos mercadorias
agora muito procuradas, como roupas ocidentais, aparelhos eletrônicos
e fotos sensuais de artistas indianas. No estádio que o Talibã
usava para execuções, voltou-se a jogar futebol. As mulheres,
dentro dos limites da decência muçulmana, começaram
a exibir o rosto. É verdade também que a maioria preferiu
esperar alguns dias antes de despir a tenebrosa burca, o manto disforme
com que o Talibã as cobriu da cabeça aos pés, porque
no ambiente movediço do Afeganistão todo cuidado é
pouco.
AP
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AFP
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A
VIDA PÓS-TALIBÃ
Depois da saída do Talibã de Cabul, jovens aproveitaram para
comprar fotos de atrizes indianas enquanto os barbeiros trabalharam
sem descanso: fim da era de proibições e exigências esdrúxulas |
Apesar
da explosão de liberdade, mesmo em Cabul o pós-Talibã
é um período de incertezas. O colapso da milícia
foi tão rápido que importantes questões políticas
ficaram no ar. Quem vai governar o país? Os Estados Unidos e o
Paquistão, que interfere pesado na luta pelo poder no Afeganistão,
preferiam que a Aliança do Norte esperasse por um acordo entre
facções e tribos antes de entrar na capital. Movimento formado
por etnias minoritárias, a Aliança não será
aceita como governo pelas tribos patanes, a etnia mais numerosa. Os americanos
tinham esperança de que o rei exilado Zahir Shah pudesse voltar
e liderar um novo governo. O atual dono de Cabul, Burhanuddin Rabbani,
um tadjique, já advertiu que Zahir pode voltar, mas como cidadão
comum. Sem um acordo, o Afeganistão corre o risco de continuar
do jeito que sempre foi: um amontoado de caudilhos e chefes tribais, cada
um com seu feudo e uma rixa sangrenta com os vizinhos. Em cada lugar que
o Talibã foi derrotado, cresce a luta pelo poder. No meio da semana,
um caudilho local tomou a importante cidade de Herat, na fronteira com
o Irã. Chefes tribais patanes que lutam por seu próprio
interesse e são inimigos da Aliança do Norte controlam Jalalabad,
bastião do Talibã na fronteira com o Paquistão. Na
sexta-feira, o mulá Omar, ex-supremo líder do país,
entregou Kandahar, o quartel-general do Talibã, a uma coligação
de chefes tribais e fugiu da cidade.
Como se explica a desagregação repentina da milícia
que se supunha tão determinada a resistir? Talvez seu comandante-em-chefe
tenha planejado uma retirada estratégica para se reagrupar no sul
do país, bastião da etnia patane, e finalmente voltar ao
ataque com força redobrada. É possível, mas não
é provável. A retirada acabou sendo um Alá-nos-acuda,
com deserções em massa e abandono de equipamento bélico.
"O colapso da resistência no norte do Afeganistão e em Cabul
foi uma das reviravoltas militares mais espetaculares desde o século
XIX", resumiu John Keegan, o renomado historiador militar inglês
e autor de Uma História da Guerra. No meio da semana passada,
entrevistado pela BBC, Omar fez pouco caso da derrocada e revelou, com
a candura dos doidos varridos, que seu objetivo é a destruição
total dos Estados Unidos. Como fará isso? Documentos descobertos
numa casa abandonada pela Al Qaeda em Cabul mostram que os terroristas
namoravam a idéia de usar dispositivos nucleares ou armas biológicas
XIX", resumiu John Keegan, o renomado historiador militar inglês
e autor de Uma História da Guerra. No meio da semana passada,
entrevistado pela BBC, Omar fez pouco caso da derrocada e revelou, com
a candura dos doidos varridos, que seu objetivo é a destruição
total dos Estados Unidos. Como fará isso? Documentos descobertos
numa casa abandonada pela Al Qaeda em Cabul mostram que os terroristas
namoravam a idéia de usar dispositivos nucleares ou armas biológicas
é difícil saber se tudo isso não passa de
delírio ou se eles têm uma arma terrível escondida
em algum lugar.
Como general, o mulá Omar é um desastre. Deixou suas tropas
nas trincheiras até serem dizimadas pelos bombardeios aéreos
americanos. Em Mazar-e-Sharif, seus blindados foram derrotados por uma
extraordinária carga de 600 homens montados em cavalos e armados
de fuzis e lançadoras de granada. É provável que
remanescentes do Talibã fujam para o deserto e para as montanhas,
iniciando uma guerra de guerrilhas. Neste caso, seriam apenas mais algumas
entre dezenas de facções armadas naquele país complicado.
"Tenho dúvidas se o Talibã terá força, munição
e combustível para agüentar a luta por muitos meses", disse
a VEJA Rifaat Hussan, diretor do departamento de defesa da Universidade
Quaid-I-Azam, em Islamabad, no Paquistão. "Os combates abertos
serão cada vez mais raros daqui para a frente porque os milicianos,
se saírem dos esconderijos, serão mortos." A guerrilha do
mulá Omar também será a mais isolada e odiada. A
população deixou claro na semana passada que estava farta
do extremismo puritano dos talibãs. Até no Afeganistão,
a maioria prefere a vida moderna.
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