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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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Só falta bin Laden

Reuters

EUFORIA
Moradores de Cabul, a capital do Afeganistão, comemoram a queda do Talibã: livres do terror fundamentalista

 

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De todas as encrencas da guerra no Afeganistão, restava por resolver, na sexta-feira passada, a maior de todas. Falta capturar Osama bin Laden. É fato que na luta contra o terrorismo os Estados Unidos ainda têm de se ver com os países que patrocinam o terror e as organizações criminosas espalhadas pelo mundo inteiro. Mas o desmoronamento do Talibã e a tomada de Cabul já significam que a primeira etapa da guerra está no fim. Na última semana, as forças da Aliança do Norte, adversárias do Talibã, entraram numa Cabul em festa. Quanto a Osama bin Laden, ele se tornou uma espécie de símbolo da atual campanha contra o terrorismo. Os americanos e ingleses podem expulsar todos os mulás barbudos do Afeganistão, mas, se não prenderem ou matarem Laden, a batalha parecerá perdida. Logo depois da queda de Cabul, na terça-feira, tropas especiais americanas começaram a participar ativamente das buscas em terra, vasculhando cavernas à procura do saudita. Caso a toca do terrorista seja descoberta, aviões vão bombardear intensamente o local, enquanto tropas especiais estarão se preparando para entrar em ação.

A captura ou morte de Laden será um golpe duplamente pesado para a Al Qaeda, a organização responsável pelos atentados de setembro nos Estados Unidos. Isso porque é dada como certa a morte num bombardeio do homem que lhe poderia suceder, Mohamed Atif. Esse egípcio era o encarregado dos assuntos militares da Al Qaeda. À moda dos fundamentalismos islâmicos, que confiam sobretudo nos laços de sangue, uma filha de Atif é casada com um filho de Laden. Chefes tribais que apoiavam a milícia talibã estão desertando e, com isso, cresce a esperança de que algum deles entregue o terrorista, cuja cabeça vale uma recompensa de 5 milhões de dólares. Os caciques tribais da etnia patane, que deram sustentação ao Talibã, sempre foram rápidos em pular de barcos furados. Isso, de fato, já está acontecendo. Os oito missionários ocidentais que ficaram três meses presos pelo regime dos mulás barbudos foram resgatados por helicópteros americanos graças a um desses chefes vira-casacas. As relações entre o Talibã e a Al Qaeda estão ficando difíceis. Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa americano, revelou que houve um bate-boca feio entre Mohamed Omar, o líder máximo do Talibã, e representantes da Al Qaeda na hora de decidir quem ficaria com os suprimentos no clima de corre-corre que se instalou entre eles.


AP
SEM BURCA
Afegã levanta o véu e mostra o rosto: com a queda do Talibã, após cinco anos as mulheres poderão voltar a estudar e a trabalhar

Uma coisa comprovada é a antiga lenda de que os afegãos odeiam os estrangeiros que invadem sua terra. Não se está falando dos soldados americanos, recebidos com festas, mas dos voluntários estrangeiros do Talibã e da Al Qaeda, que estão sendo executados sempre que capturados. Seus corpos são deixados ao relento, com dinheiro enfiado na boca, um gesto afegão de desprezo. Na sexta-feira passada, véspera do primeiro dia do mês sagrado de Ramadã, os mulás nas mesquitas de Cabul exortaram os fiéis a caçar os árabes e paquistaneses da Al Qaeda. Diferentemente dos talibãs derrotados, que vão para casa ou trocam de lado na guerra, os estrangeiros não têm para onde correr. Talvez por isso em Kondoz, o derradeiro enclave talibã no norte do Afeganistão, até o fim da semana passada alguns milhares de combatentes árabes, paquistaneses e chechenos não aceitavam a rendição, apesar da impossibilidade de romper o cerco das forças rivais. Cabul, a capital do Afeganistão e do fundamentalismo islâmico, caiu com tanta rapidez que até os terroristas ficaram atordoados.

Até o início da ofensiva fulminante, a Aliança do Norte dominava menos de 10% do país e assistia de camarote aos aviões americanos bombardearem posições do Talibã, sem grandes efeitos aparentes. Apesar de terem despejado 6.000 bombas sobre o inimigo, a um ritmo de nove por hora durante quatro semanas, os Estados Unidos e seus aliados estavam resignados a uma longa guerra de atrito no severo inverno afegão, que começa em dezembro. Em meros cinco dias, as tropas da Aliança do Norte tomaram as principais cidades e, na sexta-feira, dominavam 80% do território afegão. Os combatentes do Talibã, de quem se esperava resistência feroz, fugiram sem lutar de quase todos os lugares, inclusive da capital do Afeganistão. Agora, estão acuados num pequeno território no sul do país. Guardadas as proporções, a tomada de Cabul fez lembrar um pouco a comovente libertação de Paris da ocupação nazista, no fim da II Guerra. Em ambos os lugares, viu-se a festa de um povo liberto do jugo de ocupantes dispostos a qualquer crueldade no esforço de moldar a realidade de acordo com os sonhos de líderes lunáticos.

Os moradores apressaram-se em voltar à vida normal, retomando atividades simples do cotidiano que estiveram proibidas durante os cinco anos de califado da milícia fundamentalista. Filas se formaram diante das barbearias. Os homens estavam ansiosos para se livrar do pelame no rosto, que era um tabu a ser seguido no regime talibã. Aparelhos de TV e instrumentos musicais, que estavam proibidos, foram desenterrados do quintal como um tesouro recuperado. A música voltou a ser ouvida em público, animando a recepção às tropas da Aliança do Norte. Soltou-se pipa, um passatempo popular que também estava banido. Lojistas foram buscar em esconderijos mercadorias agora muito procuradas, como roupas ocidentais, aparelhos eletrônicos e fotos sensuais de artistas indianas. No estádio que o Talibã usava para execuções, voltou-se a jogar futebol. As mulheres, dentro dos limites da decência muçulmana, começaram a exibir o rosto. É verdade também que a maioria preferiu esperar alguns dias antes de despir a tenebrosa burca, o manto disforme com que o Talibã as cobriu da cabeça aos pés, porque no ambiente movediço do Afeganistão todo cuidado é pouco.


AP
AFP
A VIDA PÓS-TALIBÃ
Depois da saída do Talibã de Cabul, jovens aproveitaram para comprar fotos de atrizes indianas enquanto os barbeiros trabalharam sem descanso: fim da era de proibições e exigências esdrúxulas

Apesar da explosão de liberdade, mesmo em Cabul o pós-Talibã é um período de incertezas. O colapso da milícia foi tão rápido que importantes questões políticas ficaram no ar. Quem vai governar o país? Os Estados Unidos e o Paquistão, que interfere pesado na luta pelo poder no Afeganistão, preferiam que a Aliança do Norte esperasse por um acordo entre facções e tribos antes de entrar na capital. Movimento formado por etnias minoritárias, a Aliança não será aceita como governo pelas tribos patanes, a etnia mais numerosa. Os americanos tinham esperança de que o rei exilado Zahir Shah pudesse voltar e liderar um novo governo. O atual dono de Cabul, Burhanuddin Rabbani, um tadjique, já advertiu que Zahir pode voltar, mas como cidadão comum. Sem um acordo, o Afeganistão corre o risco de continuar do jeito que sempre foi: um amontoado de caudilhos e chefes tribais, cada um com seu feudo e uma rixa sangrenta com os vizinhos. Em cada lugar que o Talibã foi derrotado, cresce a luta pelo poder. No meio da semana, um caudilho local tomou a importante cidade de Herat, na fronteira com o Irã. Chefes tribais patanes que lutam por seu próprio interesse e são inimigos da Aliança do Norte controlam Jalalabad, bastião do Talibã na fronteira com o Paquistão. Na sexta-feira, o mulá Omar, ex-supremo líder do país, entregou Kandahar, o quartel-general do Talibã, a uma coligação de chefes tribais e fugiu da cidade.

Como se explica a desagregação repentina da milícia que se supunha tão determinada a resistir? Talvez seu comandante-em-chefe tenha planejado uma retirada estratégica para se reagrupar no sul do país, bastião da etnia patane, e finalmente voltar ao ataque com força redobrada. É possível, mas não é provável. A retirada acabou sendo um Alá-nos-acuda, com deserções em massa e abandono de equipamento bélico. "O colapso da resistência no norte do Afeganistão e em Cabul foi uma das reviravoltas militares mais espetaculares desde o século XIX", resumiu John Keegan, o renomado historiador militar inglês e autor de Uma História da Guerra. No meio da semana passada, entrevistado pela BBC, Omar fez pouco caso da derrocada e revelou, com a candura dos doidos varridos, que seu objetivo é a destruição total dos Estados Unidos. Como fará isso? Documentos descobertos numa casa abandonada pela Al Qaeda em Cabul mostram que os terroristas namoravam a idéia de usar dispositivos nucleares ou armas biológicas – XIX", resumiu John Keegan, o renomado historiador militar inglês e autor de Uma História da Guerra. No meio da semana passada, entrevistado pela BBC, Omar fez pouco caso da derrocada e revelou, com a candura dos doidos varridos, que seu objetivo é a destruição total dos Estados Unidos. Como fará isso? Documentos descobertos numa casa abandonada pela Al Qaeda em Cabul mostram que os terroristas namoravam a idéia de usar dispositivos nucleares ou armas biológicas – é difícil saber se tudo isso não passa de delírio ou se eles têm uma arma terrível escondida em algum lugar.

Como general, o mulá Omar é um desastre. Deixou suas tropas nas trincheiras até serem dizimadas pelos bombardeios aéreos americanos. Em Mazar-e-Sharif, seus blindados foram derrotados por uma extraordinária carga de 600 homens montados em cavalos e armados de fuzis e lançadoras de granada. É provável que remanescentes do Talibã fujam para o deserto e para as montanhas, iniciando uma guerra de guerrilhas. Neste caso, seriam apenas mais algumas entre dezenas de facções armadas naquele país complicado. "Tenho dúvidas se o Talibã terá força, munição e combustível para agüentar a luta por muitos meses", disse a VEJA Rifaat Hussan, diretor do departamento de defesa da Universidade Quaid-I-Azam, em Islamabad, no Paquistão. "Os combates abertos serão cada vez mais raros daqui para a frente porque os milicianos, se saírem dos esconderijos, serão mortos." A guerrilha do mulá Omar também será a mais isolada e odiada. A população deixou claro na semana passada que estava farta do extremismo puritano dos talibãs. Até no Afeganistão, a maioria prefere a vida moderna.

 



 
 
   
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