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Onde
fui parar
"Passei
as últimas três semanas
tentando conquistar o apoio da
imprensa para um filme que
escrevi e ajudei a
financiar"
Carlos Alberto
Parreira, ex-técnico da seleção brasileira, acha
que torcedor não tem opinião própria. É uma
mera caixa de ressonância da imprensa. Se a imprensa diz que Malan
é o maior ministro da Fazenda do mundo, as pessoas acreditam. Se
diz que é o pior, também acreditam. É possível
que Parreira esteja enganado. É possível que os outros sejam
menos tolos do que ele imagina. Por via das dúvidas, porém,
passei as últimas três semanas tentando conquistar o apoio
da imprensa para um filme que escrevi e, sobretudo, ajudei a financiar.
É
duro vender um produto artístico. Arte não foi feita para
ser vendida. Para vendê-la, você se sente no dever de simplificá-la,
banalizá-la, reduzi-la. Foi o meu papel na divulgação
desse filme. Além de ensinar alguns jornalistas a soletrar "Mãe
de Deus" em latim, fui obrigado a sintetizar em duas linhas os conceitos
de um trabalho que exigiu anos de esforço e discussão. As
duas linhas não descrevem o filme que fizemos, mas o filme que,
em minha cabeça, as pessoas gostariam de comprar, embora eu nunca
tenha tido a menor idéia ou o menor interesse em saber o que as
pessoas compram.
Pior ainda
é partir para o corpo-a-corpo e expor a própria cara em
público. Nesse campo, tenho uma razoável experiência.
Já passei pelas situações mais humilhantes. Já
apresentei um livro numa mesa-redonda de futebol e já participei
de um debate numa feira de produtos agrícolas, sendo fotografado
ao lado de um trator. Sempre me senti vexado nessas ocasiões. Pensei
até em desistir da carreira por causa disso. Agora melhorei bastante.
Fui perdendo a vergonha. Aprendi a fazer com uma certa desfaçatez
tudo o que parece útil para o meu trabalho. Se acho que pode ser
útil promover uma obra no programa de Hebe Camargo, vou ao programa
de Hebe Camargo. Se acho que pode ser útil aparecer em colunas
sociais ou revistas de celebridades, apareço.
A propósito
de colunas sociais e revistas de celebridades, fiquei muito preocupado
quando soube que elas cobririam a festa de lançamento de nosso
filme. Treinei diante do espelho uma pose especial para elas. A pose comunica
que sou um intelectual sério e respeitado, e que só aceitei
passar por esse ridículo porque preciso recuperar o capital que
investi no filme. Ou seja, finjo estar constrangido mesmo quando não
estou. A impressão que quero passar é que o fotógrafo
me flagrou no exato instante em que vendia a minha alma, enquanto socializo
com celebridades das quais nunca ouvi falar, como Floriano Peixoto ou
Angelita Feijó.
Sei perfeitamente
que não é salutar para minha imagem ficar borboleteando
por programas de TV, colunas sociais e revistas de celebridades, como
um camelô, na desesperada tentativa de vender um filme. Mas não
há outro jeito. Aceitei investir metade de minhas posses num filme
realizado sem dinheiro estatal, com a certeza de que só assim poderíamos
manter nossa integridade artística. Agora preciso resgatar o dinheiro
para poder continuar a fazer filmes. E me vejo imerso num paradoxo que,
com uma pontinha de presunção, resume a melancólica
condição do artista contemporâneo: minha integridade
artística passa por colunas sociais, revistas de celebridades e
Hebe Camargo. Veja só onde fui parar.
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