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Edição 1 727 - 21 de novembro de 2001
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Onde fui parar

"Passei as últimas três semanas
tentando conquistar o apoio da
imprensa para um filme que
escrevi e ajudei
a financiar"

Carlos Alberto Parreira, ex-técnico da seleção brasileira, acha que torcedor não tem opinião própria. É uma mera caixa de ressonância da imprensa. Se a imprensa diz que Malan é o maior ministro da Fazenda do mundo, as pessoas acreditam. Se diz que é o pior, também acreditam. É possível que Parreira esteja enganado. É possível que os outros sejam menos tolos do que ele imagina. Por via das dúvidas, porém, passei as últimas três semanas tentando conquistar o apoio da imprensa para um filme que escrevi e, sobretudo, ajudei a financiar.

É duro vender um produto artístico. Arte não foi feita para ser vendida. Para vendê-la, você se sente no dever de simplificá-la, banalizá-la, reduzi-la. Foi o meu papel na divulgação desse filme. Além de ensinar alguns jornalistas a soletrar "Mãe de Deus" em latim, fui obrigado a sintetizar em duas linhas os conceitos de um trabalho que exigiu anos de esforço e discussão. As duas linhas não descrevem o filme que fizemos, mas o filme que, em minha cabeça, as pessoas gostariam de comprar, embora eu nunca tenha tido a menor idéia ou o menor interesse em saber o que as pessoas compram.

Pior ainda é partir para o corpo-a-corpo e expor a própria cara em público. Nesse campo, tenho uma razoável experiência. Já passei pelas situações mais humilhantes. Já apresentei um livro numa mesa-redonda de futebol e já participei de um debate numa feira de produtos agrícolas, sendo fotografado ao lado de um trator. Sempre me senti vexado nessas ocasiões. Pensei até em desistir da carreira por causa disso. Agora melhorei bastante. Fui perdendo a vergonha. Aprendi a fazer com uma certa desfaçatez tudo o que parece útil para o meu trabalho. Se acho que pode ser útil promover uma obra no programa de Hebe Camargo, vou ao programa de Hebe Camargo. Se acho que pode ser útil aparecer em colunas sociais ou revistas de celebridades, apareço.

A propósito de colunas sociais e revistas de celebridades, fiquei muito preocupado quando soube que elas cobririam a festa de lançamento de nosso filme. Treinei diante do espelho uma pose especial para elas. A pose comunica que sou um intelectual sério e respeitado, e que só aceitei passar por esse ridículo porque preciso recuperar o capital que investi no filme. Ou seja, finjo estar constrangido mesmo quando não estou. A impressão que quero passar é que o fotógrafo me flagrou no exato instante em que vendia a minha alma, enquanto socializo com celebridades das quais nunca ouvi falar, como Floriano Peixoto ou Angelita Feijó.

Sei perfeitamente que não é salutar para minha imagem ficar borboleteando por programas de TV, colunas sociais e revistas de celebridades, como um camelô, na desesperada tentativa de vender um filme. Mas não há outro jeito. Aceitei investir metade de minhas posses num filme realizado sem dinheiro estatal, com a certeza de que só assim poderíamos manter nossa integridade artística. Agora preciso resgatar o dinheiro para poder continuar a fazer filmes. E me vejo imerso num paradoxo que, com uma pontinha de presunção, resume a melancólica condição do artista contemporâneo: minha integridade artística passa por colunas sociais, revistas de celebridades e Hebe Camargo. Veja só onde fui parar.

 
 
   
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