
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
O matador de custos
Ele demitiu
20 000 no Japão,
a terra do emprego vitalício,
salvou a Nissan da falência e
agora é tratado como um
herói do capitalismo

Adriana Carvalho
Aos 47 anos,
ele é o executivo brasileiro mais bem-sucedido do capitalismo global.
Carlos Ghosn dirige no Japão a Nissan, uma das grandes fabricantes
mundiais de automóveis. Ghosn nasceu no Brasil, foi criado no Líbano,
estudou e trabalhou na França e nos Estados Unidos e agora assimila
numa velocidade espantosa tanto o idioma quanto a cultura do Japão.
Em meio à crise econômica mundial, a Nissan sob seu comando
só tem o que comemorar. Anunciou recentemente lucros operacionais
recordes de 1,5 bilhão de dólares entre abril e setembro.
Frutos do plano de revitalização instituído por Ghosn,
que já foi quase todo realizado. Das 21 000 demissões anunciadas
em 1999, quando ele assumiu a montadora, 20 000 já foram feitas.
A maioria no Japão, a terra do emprego vitalício. Três
fábricas foram fechadas em março deste ano e outras duas
encerrarão as atividades em março de 2002. Ele chegou a
ser chamado de matador de empregos e recebeu cartas anônimas de
pessoas ameaçando atentar contra sua vida. "Aos poucos, as pessoas
foram percebendo que não havia alternativa a não ser fazer
cortes", diz ele. Com os resultados surpreendentes, passou de vilão
a herói. Os apelidos agora são outros. Ghosn é chamado
de "quebra-gelo", "matador de custos", "artista da virada", "supercomputador"
e, finalmente, de "seven eleven", numa alusão às catorze
horas de trabalho por dia que ele se impõe. Na semana passada,
de Tóquio, Ghosn falou a VEJA, por telefone.
Veja
Para quem não fala a língua, até viajar para o
Japão pode ser complicado. A dificuldade de gerir uma empresa,
então, parece uma tarefa hercúlea. Que resistências
o senhor encontrou entre os japoneses?
Ghosn Não encontrei resistência nem preconceito.
Encontrei muita curiosidade. Muito ceticismo também. Mas muita
curiosidade. Eu via as pessoas se perguntando: o que esse camarada vai
poder fazer num quadro tão difícil, já que ele não
conhece o Japão nem as empresas japonesas? Mas, depois de alguns
meses de lançamento do plano, quando os resultados começaram
a aparecer e os japoneses são muito pragmáticos,
querem ver os resultados , passaram a acreditar que alguma coisa
diferente estava acontecendo dentro da Nissan. Aí começaram
a ter uma atitude mais participativa, mais motivada.
Veja
Mas a cultura japonesa também atrapalha um pouco, não?
Ghosn A cultura empresarial, talvez. Mas soubemos contornar
os obstáculos mais difíceis. Soubemos, por exemplo, abolir
a "senioridade", a promoção dentro da empresa baseada apenas
na idade do funcionário. Sei que outras empresas estão abandonando
isso, mas não saberia citar nomes. Fomos os pioneiros em quebrar
essa tradição. No Japão, mudanças como essa
são feitas de maneira muito discreta. Nós fizemos de peito
aberto. Outro tabu que a Nissan quebrou foi o do conceito de emprego vitalício.
Oferecer emprego vitalício é muito nobre, mas só
as companhias mais fortes podem fazer isso. Empresas que estão
passando por uma crise não podem oferecer emprego para a vida toda.
Veja
Que funcionário é mais eficiente, o ocidental ou o oriental?
Ghosn As diferenças são muitas, mas ambos têm
qualidades específicas. No Japão, trabalho é trabalho
e não se mistura com vida pessoal ou lazer. Porém, depois
do expediente o japonês gosta de tomar sua cerveja. O trabalhador
japonês aprecia muito a vida em comunidade e com a família.
O latino é diferente, cheio de inovação, vitalidade,
criatividade. Mas não é perfeito quando se trata de realização.
A grande diferença entre latinos e orientais é que os latinos
são mais criativos em termos de estratégia e tomada de decisão.
Na parte de execução, os orientais são bem mais eficientes.
Veja
Pessoalmente, qual foi sua maior dificuldade?
Ghosn Talvez fazer coisas absolutamente conflitantes com todos
os conselhos que recebi. Houve momentos em que tomei decisões baseado
apenas em minha convicção. Foram momentos bastante difíceis,
mas hoje os resultados mostram que eu tinha razão em não
ouvir o que as pessoas falavam.
Veja
Que conselho o senhor desprezou?
Ghosn O de que não se pode fechar fábrica no
Japão nem reduzir quadro de funcionários. Diziam que eu
não conseguiria restabelecer a empresa em dois ou três anos,
que teria de seguir as tradições. Mas o fato de ter vivido
em vários países facilitou minha adaptação
ao Japão. Nasci no Brasil, fui educado no Líbano, depois
fui para a França. Tanta mudança cultural ajudou muito.
Veja
Ser brasileiro ajudou em alguma coisa em sua formação?
Ghosn O Brasil oferece um quadro em que mudanças são
um fato natural da vida. É preciso adotar medidas inovadoras o
tempo todo para fazer face às mudanças do ambiente econômico.
O brasileiro sabe, de um jeito muito natural, trabalhar cercado por grande
volatilidade. O Brasil também é o lugar onde aprendemos
a trabalhar com culturas diferentes, tanto empresariais quanto étnicas.
Isso ajuda bastante dentro da economia global. Hoje, um dos grandes desafios
da globalização é saber gerenciar uma empresa com
quadros nacionais os mais diversos e culturas empresariais diferentes.
As companhias estão tentando trabalhar em todos os mercados globais.
Isso demanda um gerenciamento intercultural forte e também uma
adaptação rápida à evolução
dos cenários econômicos. O Brasil é um laboratório
de primeira classe. Trabalhei no país entre 1985 e 1989, como diretor-geral
da Michelin. Nesse período, enfrentei inflação alta,
modificações constantes do quadro político, choques
econômicos, troca de moeda e importação sob controle.
Tudo isso leva o executivo a se adaptar constantemente às adversidades.
Veja
É mais fácil criar os filhos no Japão?
Ghosn Minha família se adaptou muito bem. As crianças,
que têm entre 7 e 15 anos, gostam bastante do Japão porque
há muita segurança. Os japoneses amam e protegem muito suas
crianças. Para minha esposa foi um pouco mais difícil no
começo, pois a língua é uma barreira e o custo de
vida é alto. Mas a adaptação foi muito boa. A língua
principal de meus filhos é o inglês. Depois vem o francês.
Eles, claro, falam português e estão aprendendo japonês
na escola. Meu filho gosta de futebol, e eu o levo ao campo. Jogamos tênis
no fim de semana. Minha esposa é uma ótima jogadora de bridge,
e eu jogo com ela. Também gosto muito de ler. Meus livros preferidos
são de gerenciamento de empresas. Mas sempre escolho alguma literatura
de ficção e livros de história.
Veja
O Japão costuma reverenciar seus ídolos empresariais.
O senhor já desfruta essa condição?
Ghosn As pessoas me reconhecem nas ruas, são muito gentis,
dizem palavras de incentivo. Elas gostam do que eu estou fazendo e admitem
que tive a coragem para enfrentar uma situação que muitas
empresas japonesas não tiveram. Acabei de publicar um livro chamado
Aceitando o Desafio de Renascer, que escrevi em inglês e
foi traduzido para o japonês. Ele já vendeu 120 000 cópias.
Os editores me dizem que será um dos grandes sucessos editoriais
do Japão neste ano.
Veja
Que qualidades o senhor considera imprescindíveis para o sucesso
na empresa?
Ghosn A primeira coisa de que um executivo ou candidato a se
tornar um precisa é a faculdade de se adaptar a quadros de mercado
mutantes. É muito importante também saber lidar com pessoas
de culturas diferentes. Até entre funções distintas
existem diferenças culturais enormes. O departamento comercial
não trabalha do mesmo jeito que um engenheiro. Ainda que o ambiente
fique turbulento, o executivo precisa manter o foco bem centrado nos objetivos
da empresa. Não se perder nem tomar decisões emocionais
são os conselhos que posso dar.
Veja
Por que o senhor aceitou o desafio de salvar a Nissan, quando todos
diziam que era uma missão impossível?
Ghosn Aceitei porque sabia que a probabilidade de sucesso não
era pequena, como se acreditava. A Nissan tinha a meu ver pontos fracos
e pontos fortes. E os pontos de fraqueza, ao contrário do que se
possa pensar, são muito interessantes porque nos ensinam onde agir.
Na Nissan, eles eram bastante claros. Os funcionários trabalhavam
sem a noção de lucro. No âmbito geral, a empresa se
preocupava mais em encontrar maneiras de superar a concorrência
que em satisfazer as necessidades dos clientes. Percebi logo que esses
pontos de fraqueza eram superáveis. Por outro lado, a Nissan que
peguei tinha pontos fortes. Já era uma companhia com presença
em incontáveis países do mundo e com um sistema de produção
muito eficiente. A fábrica americana da Nissan, no Tennessee, era
e é a mais produtiva dos Estados Unidos. A fábrica na Inglaterra
era e continua sendo a mais produtiva das montadoras européias.
A Nissan sempre teve tecnologia de ponta em setores importantes para a
indústria automobilística, como a transmissão e a
motorização.
Veja
O senhor demitiu 20.000 funcionários.
Em algum ponto do processo, isso lhe deu alguma dor na consciência?
Ghosn Claro. Mas também fizemos tudo para que a saída
desses empregados fosse feita com medidas de compensação
e acompanhamento, ajudando-os a encontrar outro trabalho, outro emprego
entre os fornecedores ou em outras fábricas da empresa, o que explica
por que em geral as medidas foram bem-aceitas. Soubemos deixar claro para
todos que nós não tínhamos escolha.
Veja
O senhor chegou a ser chamado de o "grande exterminador de empregos".
Isso o magoou?
Ghosn Não, porque os apelidos logo mudaram. Bastou que
surgissem os primeiros bons resultados para que a opinião pública
se convencesse de que estávamos no rumo certo. Agora sou chamado
de "Ghosn, o quebra-gelo". Também me chamam de "matador de custos",
o "artista da grande virada", o "supercomputador" e de "seven eleven".
Veja
Por que "seven eleven"?
Ghosn Esse é um belo apelido. Ele me foi dado numa alusão
às catorze horas de trabalho diário que me imponho.
Veja
A desaceleração da economia global não pode reverter
os ganhos que o senhor já obteve?
Ghosn Nós esperamos obter um lucro de 3 bilhões
de dólares até o fim do ano, mesmo considerando a desaceleração
global da economia. Talvez uma de nossas conquistas tenha sido a de mostrar
que é possível melhorar a lucratividade mesmo que a empresa
não cresça tanto.
Veja
Os impactos do atentado de 11 de setembro foram muito fortes?
Ghosn O terrorismo provocou algumas mudanças, mas o
que me fascina mais são as coisas que não mudaram. Nós
não seguimos as montadoras que oferecem juro zero no financiamento
aos consumidores. Nós temos objetivos de mais longo prazo. Nosso
objetivo principal é proteger a lucratividade da empresa. Não
vamos participar dessa oferta de juro zero. De que adianta crescer 20%
se os lucros continuam declinantes? Prefiro crescer menos rapidamente,
mas com segurança.
Veja
O senhor aprova pessoalmente o desenho dos novos carros e os testa
na pista. Não é centralização demais?
Ghosn Não, porque minha intervenção é
apenas a conclusão de um trabalho minucioso de engenheiros e técnicos.
Quero mostrar com isso que faço questão de que todas as
pessoas envolvidas no processo tenham tido a chance de opinar.
Veja
Existe uma ligação clara entre os problemas enfrentados
pela Nissan e a crise da economia japonesa em geral?
Ghosn Sem dúvida. Isso explica por que existe tanta
curiosidade sobre o que foi feito na Nissan. Não porque estejamos
dando aula de gerenciamento de empresas, mas porque estamos tendo uma
experiência significativa. Nós somos uma referência
de como superar as dificuldades. Algumas das medidas que estamos tomando
na Nissan mostram que é possível tocar uma companhia gigantesca
de um modo que não é o tradicional no Japão. Mostram
ainda que é possível capitalizar as forças dos japoneses,
que são o grande senso de lealdade, a organização
e a qualidade do trabalho, que é muito minucioso. E, com isso,
é possível conseguir resultados surpreendentes. O que vale
para uma empresa vale também para um país.

Veja também |
|
|
|
|
|
 |