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Gustavo
Franco
Relações
de
trabalho flexíveis
"Pode-se
legitimamente indagar
se um
sistema que tributa o emprego serve
de fato para melhorar a vida do trabalhador"
Quando se
pensa nas garantias e nos benefícios que a nossa complexa legislação
trabalhista efetivamente proporciona, e o quanto ela custa, nem sempre
se tem claro que alguém tem de pagar por isso, e que este alguém,
em boa medida, é o próprio sujeito do benefício.
Talvez em outra época fosse considerado uma heresia questionar
a real eficácia dessa legislação tal como existe.
Contudo, passada a experiência da hiperinflação, o
brasileiro adquiriu uma compreensão mais apurada do modo como pode
ser enganado pelo Estado. Quando este elevava sua despesa, por exemplo,
com programas de combate à pobreza, mas financiava o benefício
através da inflação, acabava tributando exatamente
aqueles que pretendia beneficiar. O efeito líquido sobre o beneficiado
era provavelmente negativo, pois a "intermediação" do Estado
era cara e viesada por relações de clientela.
Será
que algo semelhante não se passa com a legislação
trabalhista?
Ilustração Ale Setti
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O assunto sempre foi polêmico, mas, em essência, não
é tão complexo quanto aparenta. As empresas sabem que existe
uma quantidade ponderável de encargos que incidem sobre a folha
de pagamentos de tal sorte que, grosso modo, para cada trabalhador empregado
com carteira assinada, o empregador paga um salário para o trabalhador
e outro em encargos. Para o empregador, portanto, tudo se passa como se
houvesse um "imposto sobre o emprego", cujos efeitos, evidentemente, são
os que se espera de qualquer imposto: menos "consumo" da coisa taxada,
portanto menos emprego e mais "informalidade", ou seja, sonegação.
É claro que se o Estado buscasse impedir, ou "formalizar", as relações
informais acabaria eliminando empregos, e por isso nada faz. Afinal de
contas, mais da metade da população empregada está
nessa situação.
Em vista
dessas singelas observações alguém pode legitimamente
indagar se um sistema que tributa o emprego serve de fato para melhorar
a vida do trabalhador. Por isso mesmo muitos acham que estaríamos
muito melhor num regime de relações de trabalho mais "flexíveis",
o que na linguagem parnasiana da militância de esquerda quer dizer
"precárias".
Com efeito,
"flexibilidade" é o conceito que separa dois paradigmas de relações
de trabalho, o europeu e o americano. Neste último, no âmbito
do qual prevalece considerável "flexibilidade", existe maior variabilidade
dos salários e baixíssimo desemprego. Na Europa, por outro
lado, há enorme "rigidez" e, em conseqüência, taxas
de desemprego duas a três vezes maiores que nos EUA. Note-se que,
como na Europa a população não cresce, a "rigidez",
ou seja, o altíssimo custo de demitir, resulta em que as empresas
se tornam extremamente relutantes em contratar. Assim sendo, cria-se uma
cruel redistribuição de renda contra os jovens, os novos
entrantes no mercado de trabalho, para os quais as taxas de desemprego
são muito maiores que a média, que, por sua vez, já
é elevadíssima.
Num país
como o nosso, com população crescente e relações
de trabalho, na aparência, "européias", a situação
do jovem seria ainda pior não tivéssemos inventado um paradigma
mestiço: em 2000, 51% do emprego no Brasil era "informal" ou "por
conta própria", vale dizer, do tipo "americano": funcionando dentro
de regras bilaterais acertadas entre patrão e empregado sem a interveniência
(ou "proteção") de nenhuma autoridade, sindicato, advogado,
nada disso.
É
interessante notar também que as rendas do trabalho cresceram cerca
de 20% em termos reais do início do Plano Real até 2000,
mas apenas 9,5% para o emprego "formal" e cerca de 35% para os "informais".
A explicação é simples: na relação
informal, os dois lados dividem o que iria para o governo.
É
o próprio governo que está propondo, embora de forma limitada,
que "informalizemos" mais as relações de trabalho, admitindo
que acordos coletivos se sobreponham à legislação.
Ou seja, quando os dois lados querem, eles podem eliminar encargos e fazer
o governo sair dessa moita idealmente, inclusive, abrindo-se mão
do FGTS, por exemplo.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central
(e-mail: gfranco@palavra.com/
home page: www.gfranco.com.br)
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