Na trilha da perfeita obscuridade

É assim que caminha o processo político no Brasil.
Como pode o eleitor engajar-se nele, se não o entende?

O PSDB de Brasília apóia o candidato do PMDB, Joaquim Roriz, no segundo turno da eleição para governador. Mas o PSDB de Minas apóia o adversário de Roriz, o petista Cristovam Buarque, que por sua vez apóia o candidato do PSDB em Minas, Eduardo Azeredo. Se o PT de Brasília, na pessoa de Cristovam Buarque, apóia Azeredo, o mesmo não acontece com o PT da própria Minas, que se declara neutro. Já em Goiás, o PT apóia o candidato do PSDB, Marconi Perillo. Em retribuição, o PSDB de Goiás, tal como o de Minas, apóia, em Brasília, o candidato Cristovam, e nisso se coloca em posição contrária ao PSDB de Brasília, que apóia Roriz.

O leitor está entendendo? Tentemos de outra forma. O PSDB tem origens na esquerda, certo? Carrega a social-democracia no nome e foi fundado por políticos e intelectuais que se opunham ao regime militar. No entanto, sua filial de Brasília preferiu o candidato da direita, Joaquim Roriz. O PFL é um partido de direita, certo? Reúne políticos que apoiaram o regime militar. No entanto, em Brasília, apóia o petista Cristovam. Em São Paulo, o candidato Francisco Rossi, que disputou o primeiro turno pelo PDT de Leonel Brizola, aderiu, no segundo, ao candidato do PPB, Paulo Maluf. Com isso, evidenciou-se que o PDT, integrante da frente de esquerdas formada para a eleição presidencial, tinha um pé no malufismo, cujas origens, como as do PFL, estão no regime militar e nos negócios e oportunidades por ele oferecidos.

Agora ficou mais claro? Ou melhor, ficou mais obscuro? A intenção é que fique mesmo mais obscuro — não para maltratar o leitor, mas para colocá-lo em sintonia com a matéria em tela. O presidente do PT paulista, Antônio Palocci, disse que seu partido, na eleição de São Paulo, deve manter neutralidade, mas "com posição diferenciada em relação a Mário Covas" (o candidato do PSDB contra Maluf). Deu para entender? Tentemos Marta Suplicy, candidata derrotada do PT em São Paulo. Ela também defende a neutralidade na disputa Covas-Maluf. Deve-se entender, portanto, que a seu ver tanto faz como tanto fez. Mas, acrescenta Marta, Maluf é "mais nefasto". Será que estamos reproduzindo a questão com a necessária obscuridade?

Se não, recorramos a um episódio do passado. No Segundo Reinado, período em que vigia entre nós um parlamentarismo que, heroicamente, imitava a Inglaterra sob um calor de 40 graus, terçavam armas os partidos Liberal e Conservador. Qual a diferença entre eles? Houve um debate, no Senado do Império, que esclarece (ou melhor, obscurece) a questão. Um senador defendia a tese de que o conservador, no Brasil, é no fundo um liberal. E argumentava: "A Constituição do Brasil (ele se referia evidentemente à Constituição do Império, de 1824) contém instituições santas, liberais. O conservador quer manter essas instituições. Logo, é um liberal". Tomou então a palavra um dos principais chefes liberais, o baiano Zacarias de Góis e Vasconcelos, e replicou: "Ao contrário, a Constituição brasileira contém instituições santas, liberais. O Partido Liberal quer mantê-las. Logo, o liberal é conservador".

Deu para entender? Ou melhor, deu para não entender? Sobre a semelhança entre os partidos, outra figura do Império, o visconde de Albuquerque, já cunhara a conhecida frase segundo a qual "nada mais parecido com um saquarema (apelido dos conservadores) do que um luzia (apelido dos liberais) no poder". Quando um terceiro partido, o Republicano, veio juntar-se, na fase final do Império, aos dois tradicionais, a diferença entre eles, quanto à grande questão da época — a escravidão —, era, segundo o historiador Dunshee de Abranches, que "uns eram escravistas, outros escravocratas e outros escravagistas".

Não. Não se quer dizer que os partidos atuais são todos iguais. Há diferenças. O PT é diferente, na origem, organização e métodos. O PSDB nasceu com personalidade relativamente definida, embora, com o correr dos anos, a venha perdendo. O PFL, embora tenha nascido sem personalidade, com o correr dos anos a vem ganhando. Mas que, na hora das alianças, e especialmente nas alinhavadas para o segundo turno, se assiste a um trança-trança que os transforma em sopa de letras, lá isso é verdade. A dilaceração pode vitimar um partido a ponto de deixá-lo tonto. O PSB, no primeiro turno, em Goiás, apoiou o candidato do PMDB, Iris Rezende. No segundo mudou de lado e apóia Perillo, do PSDB.

Isso tudo seria divertido se não tivesse um efeito, como diria Marta Suplicy, nefasto: o de tornar o processo político, de obscuridade em obscuridade, incompreensível. O eleitor já não sabe para que serve um deputado, tanto que nem se lembra em qual votou. Também tende a saber cada vez menos o que é partido. Como exigir-lhe o engajamento, se o entendimento do processo lhe escapa? Na atual temporada, ainda temos um presidente da República que prega a fidelidade partidária mas reluta em apoiar os candidatos de seu partido. Depois dessa, ficamos todos perfeitamente não entendidos.




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