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Menina sem infância
Uma
biografia de Anne Frank revela detalhes de
sua personalidade e descreve seus últimos dias
Okky de
Souza
Durante cinqüenta anos, a menina judia
Anne Frank foi aquela voz literária por trás de uma das
obras de maior impacto do século XX. Seu diário,
escrito no período em que esteve escondida numa casa de
Amsterdã, na Holanda, durante a II Guerra Mundial,
tornou-se um símbolo da perseguição nazista aos
judeus, emocionando milhões de pessoas. A partir de
agora, com sua primeira grande biografia, recém-lançada
nos Estados Unidos e na Europa, Anne Frank passa a ser
também uma pessoa de carne e osso. Escrito pela
jornalista austríaca Melissa Müller, a partir de dois
anos de pesquisas e entrevistas, o livro mostra quem era
no cotidiano a criança de inteligência e talento
precoces. Dele brota um perfil de Anne muito mais rico do
que aquele que transparece no diário. A mártir do povo
judeu dá lugar a uma adolescente como tantas outras, com
sentimentos contraditórios, de personalidade forte e
rebelde. O livro também mapeia com detalhes a
seqüência de eventos que levaram Anne a morrer no campo
de concentração de Bergen-Belsen, de inanição e tifo,
pouco antes de completar 16 anos de idade. Além disso,
traz uma surpresa. Revela o conteúdo de três páginas
do diário de Anne que até hoje permanecia inédito (veja
trechos ao longo da página).
Esses pedaços do
diário nunca vieram a público por iniciativa de Otto
Frank, pai de Anne, único membro da família a
sobreviver ao holocausto e responsável pela publicação
dos escritos da filha após a guerra. Ele confiou os
originais a um amigo, Cor Suijk, com a recomendação de
que só fossem divulgados depois de sua morte, ocorrida
em 1980. Suijk foi uma das fontes utilizadas por Melissa
Müller para reconstituir a vida da família Frank. Ao
final de várias entrevistas, ele decidiu revelar à
autora as páginas que guardava. Apesar disso, Melissa
foi impedida de transcrever as páginas pela Fundação
Anne Frank, que detém os direitos sobre o diário e irá
incluí-las nas próximas edições. Nas três páginas,
Anne se ocupa de dois temas. Primeiro, manifesta o desejo
de que ninguém leia seu diário, que tencionava publicar
em forma de livro. Depois, faz uma avaliação negativa
do casamento de seus pais. Para ela, Otto Frank, embora
fosse um marido e pai exemplar, nunca amou a mulher,
Edith. Segundo as fontes de Melissa Müller, Anne tinha
razão.
Amor só de fachada
"O casamento de seus pais,
Edith e Otto, segundo Anne, era feliz na
aparência, mas ele não a amava. Beijava-a como
às crianças. A união dos dois era apenas uma
questão de conveniência. Sua mãe sabia muito
bem que jamais ocuparia o primeiro posto no
coração do marido. Ela se resignou a essa
realidade sem reclamar, e se por acaso sentia
ciúme jamais o demonstrou. Compreensivelmente,
Anne escreve, essa situação dolorosa enrijeceu
o coração de Edith, tornando-a inacessível e
defensiva. Tal postura, diz Anne sempre
pronta a enxergar as coisas sob a perspectiva do
pai , certamente não tornava a esposa mais
atraente aos olhos de Otto."
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Essas não foram as únicas páginas
do diário suprimidas por Otto Frank. O Diário de Anne Frank já
conheceu quatro versões diferentes. A própria Anne produziu duas delas.
Em 1944, reescreveu o que havia colocado no papel dois anos antes. Para
a primeira edição do livro, em 1947, Otto Frank fez uma compilação dos
dois manuscritos redigidos por Anne. Aproveitou para deixar de fora as
páginas que continham duras críticas à mãe e as reflexões francas de Anne
acerca da própria sexualidade. Depois da morte de Otto, a Fundação Anne
Frank, herdeira legal dos manuscritos, lançou uma edição ampliada do diário.
Continha 30% mais de material, incluindo muito do que fora suprimido na
primeira edição. A biografia de Melissa Müller e as páginas recém-reveladas
fecham o ciclo. A partir de agora, pode-se ter um retrato de corpo inteiro
de Anne Frank.
Otto, Edith, Anne e Margot, a irmã
três anos mais velha, eram judeus alemães de Frankfurt. A família de Otto
tinha um banco que praticamente foi à bancarrota com a quebra da Bolsa
de Nova York, em outubro de 1929, quatro meses após o nascimento de Anne.
Em 1933, quando a escalada anti-semita na Alemanha já atingia níveis sufocantes,
Otto Frank resolveu mudar-se com a família para a Holanda. Lá, em vez
de lidar com investimentos e seguros, passou a trabalhar como representante
de uma indústria alemã de gelatina. Anne cresceu em Amsterdã e era uma
criança curiosa, do tipo que faz uma pergunta atrás da outra e não aceita
evasivas como resposta. Na escola, tornou-se líder de sua turma e, por
isso, freqüentemente brigava com as colegas. Uma delas, Nanette Blitz
Konig, que hoje mora em São Paulo, tem lembranças vivas da Anne Frank
dessa época e de quando foi prisioneira no campo de concentração (veja quadro). Muito cedo Anne começou a escrever histórias, sempre
ilustradas com desenhos de sua colega Kitty a mesma a quem ela
endereçaria tantas páginas do diário, em forma de carta. Embora no diário
ela demonstre fé religiosa, na vida familiar resistia às lições sobre
o assunto.
A censura paterna
"Entre maio e julho de 1944,
Anne escreveu em folhas avulsas que tomaria
cuidado para ninguém colocar as mãos em seu
diário. Essa seria a última de várias versões
da introdução a seus relatos. Ela achava que
poderia mostrar parte dos textos à família, mas
o diário definitivamente não era assunto deles.
Estaria Anne querendo fazer suspense para os
futuros leitores? Ou parte de suas conversas
imaginárias com Kitty lhe parecia muito íntima
para ser divulgada? Há aqui muito material para
especulação, algo que Otto Frank evitou ao
encaminhar o diário para publicação, em 1947.
Ele deliberadamente omitiu a existência das
folhas avulsas."
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Depois da
ocupação da Holanda pelas tropas de Hitler, em 1940, o
cotidiano da família Frank virou um inferno. Aos 11
anos, Anne, assim como os demais judeus de Amsterdã, era
proibida de freqüentar locais públicos de diversão,
como teatros e cinemas. Também não podia praticar
esportes nadar, jogar tênis ou pescar. Sua
reação foi mergulhar nos livros, o que certamente
contribuiu para polir seu talento para as letras. A
primeira grande virada de sua vida aconteceu quando sua
irmã Margot foi convocada a se apresentar para a
"força de trabalho", um eufemismo para dizer
que seria levada a um campo de concentração. Na manhã
seguinte, os Frank se mudaram para o esconderijo que
ocupariam por dois anos, em companhia de uma outra
família. Lá, Anne escreveria seu diário.
Dias de horror no campo de
concentração
"Quando Anne e sua irmã Margot
chegaram ao campo de concentração de
Bergen-Belsen, fracas, tremendo de frio e, pela
primeira vez, sem a proteção de seus pais,
tiveram de caminhar 6 quilômetros até o local
onde foram instaladas. O caos reinava no campo.
Não havia espaço para tantos prisioneiros. Para
diminuir a confusão, os nazistas armaram tendas.
Anne e sua irmã foram para uma delas, mas não
lhes deram comida. Várias centenas de mulheres
se amontoavam sob a lona, na lama. Não havia
banheiros, pias, camas ou luz. Quatro dias depois
a situação piorou. Uma tempestade destruiu as
tendas. Anne e Margot tinham de vagar pelo campo,
sob a chuva gelada, procurando algum tipo de
alimento."
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O esconderijo era
um labirinto de cubículos nos fundos de um armazém que
pertencia a amigos de Otto. Durante o dia, seus oito
ocupantes não podiam fazer nenhum ruído, nem mesmo
puxar a descarga do banheiro, para não ser ouvidos pelos
empregados do armazém. Só à noite tinham mais
liberdade para circular. Todo esse período foi bem
documentado por Anne no diário, embora o tom otimista
que ela usa com freqüência não reflita o pesadelo
vivido pelas famílias. O diário de Anne encerra-se
três dias antes de a polícia nazista invadir o
esconderijo, prender seus ocupantes e mandá-los para o
campo de concentração. Os policiais vasculharam o
local, levaram o que havia de valor jóias e
objetos das famílias e deixaram o que não
queriam espalhado pelo chão. Foi em meio a esses refugos
que a secretária do armazém, Miep Gies, recolheu as
páginas do diário de Anne Frank, entregues a Otto
depois da guerra. Os policiais foram alertados sobre o
esconderijo por uma voz de mulher ao telefone, mas até
hoje não se sabe quem fez a denúncia. São esses
episódios, contados em detalhes, que fazem da biografia
escrita por Melissa Müller leitura obrigatória para
quem se emocionou com o diário de Anne Frank.
"Anne
gostava de mandar"
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Nanette
hoje e
na adolescência,
antes de ser presa:
"Em Bergen-Belsen,
chegava a ficar
36 horas de pé.
Saí com 32 quilos" |
| Fotos: Alexandre Tokitaka |
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A
holandesa Nanette Blitz Konig lembra-se muito bem
da festinha de aniversário de 13 anos de Anne
Frank, quando ela ganhou do pai um caderno
vermelho e verde, com fecho de metal. Em poucos
dias, o presente iria transformar-se em seu
diário. Nanette foi colega de Anne numa escola
de Amsterdã destinada apenas a alunos judeus e
freqüentava sua casa. Mais tarde, já
prisioneiras dos nazistas, as duas encontraram-se
no campo de concentração de Bergen-Belsen, no
qual Anne morreu. Nanette conseguiu sobreviver,
foi libertada pelas tropas inglesas em abril de
1945 e fixou-se na Inglaterra. Lá, conheceu o
engenheiro húngaro John Frederik Konig, que
estava de mudança para o Brasil. Depois de dois
anos de correspondência, eles se casaram e foram
morar em São Paulo, onde estão até hoje. John
Frederik fez carreira executiva em firmas como a
Pfizer e a Johnson & Johnson, até se
aposentar. Nanette não teme remexer nas
lembranças da guerra e foi uma das fontes de
informação de Melissa Müller, autora da
biografia de Anne Frank. Na semana passada,
Nanette deu a seguinte entrevista a VEJA:
Veja
A senhora era amiga
íntima de Anne Frank?
Nanette
Para entender nossa relação, é
preciso levar em conta as circunstâncias em que
nos conhecemos. Nenhuma de nós teve
adolescência, passamos diretamente de crianças
a adultas. Na verdade não tínhamos afinidade
porque ela gostava de mandar em todas as suas
amigas e comigo não conseguia. Anne era rebelde,
muito crítica, principalmente com as pessoas
fora de seu grupo e com aquelas que não queriam
fazer parte dele. Éramos amigas, mas desconfio
que no fundo não gostava de mim.
Veja
Como a encontrou no campo
de concentração de Bergen-Belsen?
Nanette O
campo era dividido em vários setores e eu a vi
pela primeira vez através do arame farpado. Ela
já havia passado um tempo em Auschwitz, estava
careca e muito debilitada. Anne também deve ter
ficado horrorizada com a minha aparência. Nós
nos reconhecemos, por assim dizer. Certo dia,
tiraram o arame que dividia nossos setores, mas
aí nós duas já estávamos muito fracas para
conversar.
Veja
Ela chegou a lhe falar do
diário que havia escrito?
Nanette
Sim, quando ainda tínhamos
forças ela me contou que havia ficado escondida
por dois anos e que escrevera o diário. Disse
que queria publicá-lo em forma de livro,
contando o que os nazistas fizeram, relatando a
sua história.
Veja
Antes de O Diário ser
publicado pela primeira vez, a senhora soube que
o pai dela, Otto Frank, havia suprimido várias
páginas nas quais Anne dirigia ataques à mãe e
falava de sua sexualidade?
Nanette
Sim, Otto Frank chegou a me
consultar sobre o assunto, se deveria ou não
suprimir as páginas. Disse-me que sua mãe, avó
de Anne, ficaria muito constrangida com o seu
conteúdo. Eu opinei pela supressão das
páginas. Naquela época o sexo não era debatido
abertamente como hoje, e os ataques de Anne à
mãe são típicos de uma adolescente, não
interessavam no contexto de um livro sobre a
ação dos nazistas contra os judeus.
Veja
A senhora mantinha um
contato freqüente com Otto Frank?
Nanette
Falávamo-nos por telefone e ele
dizia sempre: "Venha me ver um dia".
Mas meus filhos já haviam nascido... Não sei,
nunca tive coragem.
Veja
As lembranças de quem
foi para um campo de concentração esmaecem com
o tempo?
Nanette
Não. Desci ao nível mais baixo
a que um ser humano pode chegar. Minha
alimentação consistia em tomar sopa de casca de
batata ou em comer uma espécie de beterraba
branca que é usada como ração de animais. O
trabalho era forçado, não havia instalações
sanitárias nem proteção contra o frio intenso.
Certas vezes, era obrigada a ficar 36 horas de
pé. A esqualidez é tanta que a libido
desaparece e a menstruação se interrompe porque
o corpo perde a capacidade de reproduzir. E havia
a chamada Besta de Belsen, um oficial que fazia
abajures com a pele de quem portava tatuagens
bonitas. Ultrapassado certo limite, a pessoa nem
liga mais, fica indiferente ao sofrimento. Quando
os ingleses chegaram para libertar o campo, deram
comida aos judeus, e muitos de nós morreram
depois de comer o estômago e os
intestinos estavam degenerados demais para
processar alimentos. Saí de lá pesando 32
quilos.
Veja
Como conviver com essas
lembranças?
Nanette
É um aprendizado. Hoje penso que
o pior vem depois. O trauma se perpetua na
família. Meus netos sofrem por associação,
eles sabem o que aconteceu comigo. Quando tinha
cerca de 7 anos, um deles me perguntou:
"Vovó, é verdade que uma vez os alemães
deram pedaços de sabão aos judeus dizendo que
era para tomar banho, mas na verdade era para
fazê-los entrar na câmara de gás?" O que
dizer nessa hora? Que a estupidez humana não tem
limites? Na hora fiquei muda. O horror é isso.
Veja
A senhora assistiu ao filme A Lista de Schindler, de Steven
Spielberg, sobre o holocausto?
Nanette
Sim. É um filme fantástico, mas
quando vi aquelas mulheres na câmara de gás com
bumbum e seios... Ninguém no campo de
concentração tinha mais bumbum e seios.
Paciência: o que o Spielberg podia fazer
pegar gente de Biafra e pintar de branco? Esse é
apenas um detalhe que só quem esteve lá pôde
notar.
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