A pílula que faz a dieta

Aprovado pelo Ministério da Saúde um remédio
para emagrecer sem os efeitos colaterais dos antigos

Glenda Mezarobba e Fernando Luna

Fotomontagem sobre fotos de Eduardo Pozella/Egberto Nogueira

Uma pílula azul está deixando os brasileiros alvoroçados — e não é o Viagra. Importadores trazem o comprimido Xenical do exterior para aplacar a gula de consumidores gulosos que querem experimentar a droga de qualquer maneira. Chegam a desembolsar 300 reais pela caixa com 84 cápsulas do Xenical, para um mês de uso. A pílula promete agradar à mais delicada das estruturas do corpo humano: o ego. Motivo: esse medicamento ajuda a emagrecer. E muito. Aprovado pelo Ministério da Saúde há quase um mês, o remédio do laboratório suíço Roche entrará no circuito das farmácias brasileiras dentro de dois a três meses. O Xenical não é simplesmente mais uma peça de artilharia no arsenal químico contra os quilos em excesso. Já apelidado de "Viagra da obesidade", é uma das primeiras drogas a tratar do excesso de peso sem interferir nos mecanismos cerebrais do paciente. Um feito e tanto. Tradicionalmente, os remédios que sabotam a fome e aumentam a sensação de saciedade também provocam irritabilidade, dificultam o sono e atrapalham qualquer trabalho que exija concentração. Com os derivados das anfetaminas, as famosas "bolinhas", o nível de ansiedade do usuário é tão alto que se chega a trincar os dentes de nervosismo. Um martírio que, não raras vezes, também leva à dependência. Com o Xenical, nada disso acontece. "É um ovo de Colombo", comemora o empresário paulista Dino Tofini. Sessenta anos, 1,74 metro e 80 quilos, ele toma a drágea azul há duas semanas. Já perdeu 1 quilo, sem fazer dieta rigorosa, nem aumentar o nível de atividade física. "E isso sem que meu humor fosse afetado", diz.

As pesquisas para o desenvolvimento da nova droga consumiram dez anos e 500 milhões de dólares. Seu mecanismo de ação é relativamente simples. Atuando diretamente no intestino, impede a absorção pelo organismo de parte da gordura ingerida (veja quadro abaixo). E aí, mais uma vantagem do Xenical sobre as terapias tradicionais de redução de peso. "De todos os métodos de emagrecimento, a nova droga se destaca na redução dos índices de colesterol e triglicérides", afirma o médico Márcio Corrêa Mancini, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Desde que a gordura foi satanizada como a principal vilã na batalha por corpos perfeitos, os eternos escravos das dietas para emagrecer sempre sonharam com o dia em que poderiam deglutir, sem culpa, apetitosas batatas fritas, suculentos cheesebúrgueres e deliciosas pizzas cheias de azeite. Os resultados das pesquisas com o Xenical autorizam previsões otimistas — em seis meses de uso, os pacientes perdem em média 10% da massa corporal e têm 74% mais chances de manter o novo peso por mais de um ano. Receitado para uso três vezes ao dia, o melhor é tomar o medicamento imediatamente antes das refeições. Dessa forma, a ação da droga será mais eficaz. Quando a comida chegar ao intestino, o Xenical já estará atuando.

Tcha-Tcho

Técnica revolucionária — O mecanismo de ação do Xenical é considerado um dos campos mais promissores da farmacologia contra a obesidade. Mesmo que não suprima a necessidade de dietas, dá um alívio e tanto nos rigores a que elas em geral submetem os gordinhos. Um exemplo? Quem vive em constante luta contra a balança não se cansa de ouvir que a grande arma contra o acúmulo de tecido adiposo é uma tal de reeducação alimentar — aprender a comer com parcimônia, a incrementar a dieta com verduras e legumes e... blablablá. Ninguém contesta que todas essas providências são úteis, importantes e saudáveis. Chatíssimas também. Afinal, brócolis cozidos, alface e frutas todo dia não há quem agüente. O Xenical dá um habeas-corpus para um pouco de gordura — logo ela, uma das grandes responsáveis pelo sabor das melhores culinárias.

O que seria do churrasco sem a capa de gordura? E do prosaico pãozinho francês recém-saído do forno sem uma generosa camada de manteiga amarela? E dos patês? Acarajé sem azeite-de-dendê? Feijoada sem toicinho, lombo de porco e costelinha? O que os gordinhos que já usam o Xenical dizem é que, com o remédio, podem cometer alguns pequenos pecados gordurosos sem remorso mortal (leia alguns depoimentos ao longo desta reportagem).

Efeito ioiô: depois de
seis meses de dieta,
Rafaela Fischer, de
19 anos, perdeu 18
quilos. Foi a glória.
Em menos de três
meses, porém, a filha
da atriz Vera Fischer
voltou a engordar
.
Ganhou de volta 10 quilos
Foto: Publius Vergilius  

Atenção, porém, esfomeados! O Xenical ajuda, mas não decreta um "liberou geral". Por duas razões: não adianta empanturrar-se de torresmo e depois engolir a cápsula de Xenical pensando que não se engordará nada. A verdade: a pessoa engordará muito menos, mas ainda assim o consumo excessivo de gordura levará a alguma acumulação no corpo. O Xenical impede a absorção de 30% de toda a gordura consumida, o que é bastante para quem se alimenta sem muito exagero. O segundo motivo é que o Xenical é eficiente apenas contra gorduras. E existem outras tantas fontes — deliciosas, diga-se — de calorias que, uma vez absorvidas pelo intestino, se transformam também em pneus horrorosos. Nessas categorias de alimentos não gordurosos, mas também engordativos, estão os açúcares, as massas, os pães, as bebidas alcoólicas. "Com pessoas que exageram nesses tipos de comida não há Xenical que resolva", esclarece a nutricionista Anna Beatriz Guimarães Oliva, de São Paulo. Dietas e exercícios continuam tão necessários como sempre foram. A diferença é que, com o Xenical, fica muito mais fácil a vida das pessoas que gostam de comer uma boa lingüiça, uma picanha e um aveludado creme de leite em cima de frutas.


Foto: Claudio Rossi
Kathy Faldini, empresária
Idade: 53 anos
Peso: 74 quilos
Altura: 1,67 metro
Toma Xenical há vinte dias
e emagreceu 2 quilos
"Estou tomando Reductil junto com Xenical. Acho que poderia ter perdido mais peso se tivesse controlado melhor minha alimentação. Eu gosto de ter vida normal, comer de tudo. Fiz Vigilantes do Peso, mas após alguns meses cansei de fazer comida especial todo dia. Depois me internei em um spa e quase morri de fome. Não consegui ficar mais de quatro dias. Quando saí de lá, parei em uma banca de frutas e comi sem parar! Também tentei aquela dieta do Émerson Fittipaldi, mas não gostava de só comer aquelas coisas. Pelo menos agora eu posso tudo, desde que modere a quantidade. Dá para ter uma vida normal."

Efeito sanfona — Depois de seis meses de uma alimentação pobre em carboidratos, a jovem Rafaela Fischer, de 19 anos, perdeu 18 quilos. A filha da vulcânica atriz Vera Fischer viveu dias de glória. Abusou das roupas curtas e apertadas, posou para revistas com trejeitos de moça sensual. Em seu 1,76 metro de altura, Rafaela pesava 62 quilos. Os dias de sílfide duraram menos de três meses. A moça voltou à forma antiga, recuperou 10 quilos. Contra esse vaivém de peso, o chamado efeito sanfona, que acomete 95% dos pacientes de regimes e dietas, o Xenical também pode ajudar. "Acredito que uma das grandes vias de utilização do Xenical será a manutenção do peso", afirma o endocrinologista Geraldo Medeiros, professor da Universidade de São Paulo. Ou seja, a pessoa se submete às mais diversas terapias, perde peso e, para manter-se alinhada, faz uso do Xenical. Isso só é possível porque os efeitos colaterais do medicamento são relativamente brandos e ele não causa dependência química.

O remédio também ajuda a combater o efeito sanfona por uma reação até desagradável, mas que ensina muito sobre o que se está comendo. O aprendizado se faz à custa de um certo desconforto intestinal e, em alguns casos, de um pouco de constrangimento. Os estudos realizados pelo laboratório Roche mostram que, durante o primeiro ano de tratamento, 80% dos usuários do Xenical reclamam de fezes oleosas — é a gordura sendo expelida intacta do trato intestinal. Os efeitos colaterais se agravam quando se ingerem grandes quantidades de gordura.

Preconiza-se hoje em dia que, do total de calorias ingeridas, 30% no máximo devem ser consumidos sob a forma de gordura — o que, numa refeição, equivale a uma colher de sopa de azeite de oliva para temperar a salada, o óleo de milho usado no preparo de três colheres de sopa de arroz e de uma concha média de feijão e 80 gramas de carne vermelha. Quando a pessoa ingere gordura além de um limite razoável, o Xenical tem um efeito e tanto. O paciente é acometido de uma vontade incontrolável de ir ao banheiro e sofre de diarréia. "O usuário fica com um reflexo condicionado e acaba evitando os alimentos mais gordurosos", diz o doutor Medeiros. Isso também ajuda a evitar a recuperação dos quilos perdidos na dieta. Prova disso são as pesquisas do Roche. Depois de um ano de terapia, o índice de usuários que se queixam do efeito colateral do medicamento caiu pela metade. E não foi porque o Xenical deixou de fazer efeito. "Com o tempo, o paciente fica mais bem-educado no que se refere a seus hábitos alimentares", afirma o endocrinologista Alfredo Halpern, professor da Universidade de São Paulo e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade.


Foto: Egberto Nogueira

Ruy Marco Antonio, pediatra
Idade: 55 anos

Peso: 99 quilos
Altura: 1,85 metro
Toma Xenical há um mês e emagreceu 11 quilos
"Sou um gordo profissional, daqueles que sonham com comida. Desde os 30 anos de idade estou acima do meu peso. Já cheguei a pesar 110 quilos! Agora decidi emagrecer de uma vez por todas, porque comecei a ter problemas com meu colesterol por causa da obesidade. Não gosto daqueles remédios de emagrecimento que atuam no sistema nervoso. Esses medicamentos acabam provocando mau humor e ansiedade. O Xenical é um achado, não causa nada disso. Sem falar que, como ele elimina boa parte da gordura que se ingere, não preciso me privar das coisas que gosto. Dá para abusar, sem culpa: Xenical tira até remorso."

Mercado milionário — De todas as áreas da indústria farmacêutica uma das mais promissoras é justamente a das drogas para emagrecer. Quando um medicamento desses faz sucesso, o êxito é estrondoso — acontece com ele o que não se vê com nenhum outro remédio. Enquanto as vendas de um bem-sucedido remédio para tratar outras doenças movimenta 1 bilhão de dólares por ano, uma droga contra a obesidade chega a atingir, por baixo, 5 bilhões de dólares. Só como exemplo: o Viagra, a pílula contra a impotência sexual masculina, estima-se, movimentará no primeiro ano depois de seu lançamento 2 bilhões de dólares. "Potencialmente, o ramo das drogas contra a obesidade é o mais promissor de todos", define Louis Tartaglia, pesquisador da empresa americana Millennium Pharmaceuticals Inc. Há pelo menos 45 laboratórios em todo o mundo empenhados em pesquisas milionárias para o desenvolvimento de remédios para emagrecer. Buscam-se substâncias potentes, com efeitos colaterais brandos. Até 2007, outros sete medicamentos devem chegar às farmácias (veja quadro).

Um laboratório inglês, o Alicyme Therapeutic, se dedica há anos à busca de drogas que inibam a absorção de gordura. Pode sair daí uma droga ainda mais eficaz do que o Xenical. Nunca poderá haver, entretanto, um medicamento que suprima totalmente o aproveitamento de gordura pelo corpo humano. Gordura é essencial no fornecimento de energia, na absorção das vitaminas A, D, E e K, no metabolismo hormonal, no controle do colesterol, no funcionamento intestinal e contra o ressecamento da pele e dos cabelos. O problema é quando ela é consumida em excesso.

Os comprimidos para emagrecer fazem sucesso porque há bocas ávidas por consumi-los. O mundo nunca acumulou tantos quilos extras como agora. De 1980 para cá, o número de americanos balofos saltou de 25% para 34%. São 58 milhões de gordos, gordinhos e gordões. No Brasil, não é diferente. A quantidade de roliças cresceu 40% e a de roliços, 30%. São cerca de 30 milhões de pessoas (veja se você é uma delas fazendo o teste). Ganha-se peso, desperdiça-se dinheiro. O custo social de tanta gordura é indigesto. Em 1995, nos Estados Unidos, os gastos relacionados a problemas de saúde decorrentes da obesidade quase chegaram a 100 bilhões de dólares. Por causa dos quilos extras, despendem-se anualmente 11 bilhões de dólares com o tratamento de doenças cardíacas e 22 bilhões de dólares com o diabetes. Queda de produtividade no trabalho é outro problema associado à obesidade. E a gordura influi tremendamente na longevidade do ser humano. "Cerca de 200.000 pessoas morrem todos os anos na América Latina devido a complicações associadas à obesidade", diz o doutor Walmir Coutinho, da Pontifícia Universidade Católica, PUC, do Rio de Janeiro. Um cálculo feito pelo governo americano mostra que, se os rechonchudos perdessem apenas 10% de seu peso em média, o orçamento do sistema americano de saúde poderia ser reduzido em 3 bilhões de dólares.

Doença — Graças aos progressos da ciência e da medicina, o excesso de peso deixou de ser visto apenas como obra da preguiça e do desmazelo. Descobriu-se que pelo corpo humano circulam substâncias que regulam a sensação de fome e saciedade, o ritmo do metabolismo e a queima de calorias. Em desequilíbrio, essa sintonia química pode resultar em quadris, coxas, barrigas, culotes e braços volumosos. A obesidade foi então alçada à condição de doença, um mal crônico, de múltiplas causas, freqüentemente associadas à genética. Com o aumento da expectativa de vida — da década de 70 para agora, pulou dos 59 anos para os 67 no Brasil —, viu-se que quanto mais velho mais gordo. Entre os 30 e os 60 anos, homens e mulheres tendem a ganhar uma média de 4 quilos por década.


Foto: Egberto Nogueira

Mônica Medeiros de Lima, escrivã
Idade: 39 anos
Peso: 130 quilos
Altura: 1,60 metro
Toma Xenical há dois meses e emagreceu 17 quilos
"Nunca perdi tanto peso em tão pouco tempo e sem sofrer. Olha que faço dieta desde que tenho 19 anos. Usei todos os moderadores de apetite que se possa imaginar: Hipofagin, Inibex, Dualid... Ficava histérica, impaciente. O pior é que eu como porque fico ansiosa. Um dos remédios que deram mais resultado para mim foi justamente o Prozac. Eu ficava tranqüila, sem aquele desejo compulsivo por comida. Como sou desregrada, acabei abandonando o tratamento. Agora estou decidida a perder peso de vez. Quero emagrecer mais uns bons quilos com o Xenical e, quem sabe, até fazer aquela cirurgia que diminui o estômago."

É um paradoxo. Nunca houve tanta comida disponível, nunca se quis ser tão magro e... nunca se foi tão gordo. "Nos últimos anos, os americanos conseguiram reduzir drasticamente o porcentual de gordura em sua dieta, mas nem por isso os índices de obesidade deixaram de crescer no país", afirma Walmir Coutinho. O que está acontecendo? Parece filme de terror. As populações mais ricas engordam pela falta de atividade física. Na Inglaterra, por exemplo, desde o final da década de 70, reduziu-se em 750 calorias o total calórico ingerido todos os dias. É quase como cortar o almoço e o jantar. Os ingleses tornaram-se mais magros por causa disso? De jeito nenhum. Em dez anos, os índices de obesidade dobraram, porque, no mesmo período, se deixou de queimar em média 800 calorias diariamente.

Sonia Borges, secretária
Idade: 39 anos
Peso: 89 quilos
Altura: 1,60 metro
Toma Xenical há cinco meses e emagreceu 14 quilos
"Continuo comendo de tudo, simplesmente diminuí a quantidade. No meu prato pode ter macarrão, arroz, feijão, carne, aquilo tudo que geralmente é proibido pelas dietas. Mas, logo que comecei a tomar Xenical, não seguia regime nenhum. Mesmo assim, perdi 10 quilos em três meses. Foi meu recorde. E eu já tomei Hipofagin e outros inibidores de apetite, que me deixavam deprimida e nem faziam tanto efeito no emagrecimento. Também já tentei um monte de dietas, mas comigo não adianta nada. Preciso de remédio mesmo. Meu sonho é chegar a 60 quilos, mas acho que aí é querer demais... Se conseguir perder mais 10 quilos, fico feliz: para quem chegou a pesar 103 quilos, vai ser ótimo!"

Foto: Claudio Rossi

São os males da vida moderna jogando contra corpinhos esguios e esbeltos. Culpa dos eletrodomésticos com controle remoto, dos telefones sem fio, das escadas rolantes e dos automóveis com câmbio automático, direção hidráulica, quatro portas e vidro elétrico, afirmam unanimemente os médicos. Trocar um carro básico por um completo, com todos os acessórios, provoca redução no gasto energético de 100 calorias diárias, o suficiente para o motorista acumular 4 quilos em um ano. A regra é uma só: guerra ao sedentarismo e ao consumo excessivo de calorias, seja em forma de gordura, seja de massas e doces. Recentemente, o doutor Walmir Coutinho conheceu um executivo que fez questão de instalar o telefone (com fio, diga-se) no canto de sua sala. É para, toda vez que o aparelho tocar ou se precisar fazer uma ligação, o homem se obrigar a levantar e dar uma breve caminhada até o telefone. Parece loucura, mas é melhor do que nada. Com providências assim — sempre contando com o empurrãozinho de drogas modernas e seguras, como o Xenical —, as pessoas poderão, daqui a algum tempo, olhar no espelho e ver refletida uma imagem mais adequada.

O que vem por aí

As primeiras drogas para emagrecer surgiram na década de 40. No princípio, as anfetaminas eram usadas como arma de guerra para limitar o sono e o apetite dos soldados. Nos anos 50 e 60, viraram remédio contra os quilos em excesso. Logo, porém, apareceram os graves efeitos colaterais provocados por esses medicamentos. Potentes estimulantes, criavam dependência química. Com os avanços da medicina, os cientistas passaram a entender que um preciso e delicado equilíbrio regula os sinais de fome e saciedade, a queima de gordura e o ritmo do metabolismo. Abriram-se novos caminhos para o desenvolvimento de drogas mais eficazes com menos reações adversas. Dezenas de laboratórios se empenham na criação de medicamentos contra a obesidade — o maior e mais promissor mercado da indústria farmacêutica, segundo os especialistas financeiros. Abaixo, alguns dos medicamentos recém-lançados ou em via de chegar ao mercado:

Dexfenfluramina
É o Isomeride dos brasileiros e o Redux dos americanos. Lançada em meados dos anos 90, a droga gerou uma onda de esperança sem precedentes na batalha química contra a balança. Sem os efeitos colaterais das tradicionais anfetaminas, o medicamento atuava no cérebro, aumentando a sensação de saciedade. Os pacientes se satisfaziam com um terço da quantidade de comida a que estavam acostumados. Há um ano, contudo, os próprios fabricantes decidiram retirar os remédios do mercado. Alguns pacientes apresentaram problemas sérios no coração.

Sibutramina
Lançado há quatro meses no Brasil, a sibutramina (nomes comerciais, Reductil e Plenty) aumenta a sensação de saciedade e, ao mesmo tempo, acelera a queima de gordura pelo organismo. Seus efeitos colaterais mais comuns são boca seca e prisão de ventre. Alguns estudos mostram que o Reductil pode aumentar a pressão arterial e os batimentos cardíacos — o que não recomendaria seu uso por pessoas com problemas no coração.

Leptina
Em 1995, o mundo ficou atônito diante da imagem de dois ratos — um enorme de gordo e outro magrelo. O que proporcionava tamanha diferença entre os dois? Uma substância chamada leptina. Produzida pelo tecido adiposo, a leptina avisa ao cérebro a hora de parar de comer. O laboratório Amgen, a maior empresa de biotecnologia dos Estados Unidos, pagou 20 milhões de dólares pelo direito de usar a substância no desenvolvimento de novas drogas. Os próximos medicamentos contra a obesidade, apostam os especialistas, serão à base de leptina. A única desvantagem é que por enquanto não se descobriu uma forma de administração que não seja injetável.

Inibidor do neuropeptídeo Y
Os estudos com a leptina levaram à descoberta de outra substância, o neuropeptídeo Y, esta produzida no cérebro. Ela tem um papel importante na regulação do apetite humano. Três grandes laboratórios — Pfizer, Neurogen e Synaptic — trabalham no desenvolvimento de uma droga capaz de inibir a ação do neuropeptídeo Y. As pesquisas ainda estão em fase inicial, mas há quem aposte que o medicamento será bastante útil para aqueles casos de obesidade gerados por um problema psiquiátrico bastante comum entre os roliços, a compulsão por comida.

CCK
Esse hormônio secretado pelo intestino delgado funciona como uma espécie de mensageiro. Depois da refeição, ele avisa ao cérebro que é hora de cruzar os talheres. As empresas Astra e Glaxo trabalham na criação de drogas à base dessa substância.


A nova era dos medicamentos

Viagra é para impotência. Propecia, para calvície. Xenical, para obesidade. Zomig, para enxaqueca. Prozac, para depressão. Nenhum deles cura a doença à qual se destinam. Representam, no entanto, a nova era dos remédios, um prodígio que já movimenta 300 bilhões de dólares por ano em todo o mundo, valor que os especialistas estimam que poderá ser duplicado em apenas cinco anos.

O segredo dessa multiplicação é até simples. O impotente terá de tomar o Viagra para sempre. O homem sujeito à calvície terá de ingerir as cápsulas do Propecia enquanto não resolver dar adeus às madeixas. Nunca uma indústria mudou tão espetacularmente de foco. Segundo a revista americana Business Week, "até recentemente, a maior parte das pesquisas estava voltada para a cura de doenças que ameaçavam a vida ou que eram muito debilitantes. Mas as novas megadrogas têm como alvo condições médicas que estão entre a dor e o desconforto, nas quais o tratamento poderia até ser considerado opcional". É a chamada química do bem-estar.

Bocas sequiosas por esses medicamentos é o que não falta. Até duas décadas atrás, um homem ou uma mulher de 40 anos entrava inevitavelmente na fase de declínio da vida. A expectativa era de que vivesse mais duas décadas, em meio a doenças. Com a esperança de vida ampliada em 50%, um indivíduo de 40 anos não está mais apenas aguardando o amargo fim. Sabe que está só na metade da existência. Que pode aproveitar muito mais. Que precisa manter-se rijo, produtivo e — por que não? — bonito por muito mais tempo. De preferência, sem rugas, feliz e com os cabelos bem assentados no cocuruto. Fica-se mais jovem assim, e vale-se mais no mercado de trabalho.

A satisfação de uma ereção poderosa renderá ao laboratório Pfizer, que produz o Viagra, 2 bilhões de dólares no primeiro ano de comercialização. A ânsia por uma personalidade livre dos cenários sombrios da depressão já capitaliza o laboratório Eli Lilly, que fabrica o Prozac, com outros 2,4 bilhões de dólares por ano. Os cabelos que o Propecia não deixa despencar encheram os cofres do laboratório Merck Sharp & Dohme. Nessa montanha de dinheiro estão enterradas duas boas notícias: 1) É dinheiro ganho honestamente, porque esses remédios funcionam mesmo. Nunca houve drogas tão eficientes, com tão poucos efeitos colaterais. Ainda que a cura dos problemas que eles aliviam não esteja nem no horizonte, ficou mais fácil e melhor enfrentar o processo de envelhecimento e as angústias da vida; 2) Mais pílulas milagrosas vêm por aí. No momento em que este texto está sendo escrito, nada menos do que 100 bilhões de dólares voam pelo mundo custeando pesquisas, laboratórios e equipamentos. As drogas do bem-estar vieram para ficar.

 


 


Com reportagem de Alexandre Mansur




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