Tolerância zero

Casal mineiro destrata filhas de delegada e
é preso em flagrante por crime de racismo

A delegada Bernadete
e as filhas, Michelle
e Mireile: punição
instantânea e mensagens
de solidariedade
Foto: Eugenio Savio  

No início da tarde de sábado 10, os freqüentadores do Clube Labareda, em Belo Horizonte, presenciaram uma cena que poderia ser classificada como uma espécie de Casa Grande & Senzala às avessas. No relato do sociólogo Gilberto Freyre, brancos e negros vivem sob tensão racial histórica, quebrada apenas embaixo dos lençóis. Como o Brasil retratado era o da escravidão, o branco sempre levava a melhor. Na piscina do Labareda, um clube de classe média, viram-se brancos querendo levar a melhor — como sempre —, mas, em vez disso, tomando uma lição duríssima de como os hábitos descritos por Freyre estão ultrapassados. Pouco antes das 14 horas, o casal de comerciantes Gleuber Gonçallo Coelho, de 37 anos, e Vilma de Fátima Coelho, 38, tomava banho de sol espichado numa cadeira. Ao lado deles, as irmãs Mireile, 19, e Michelle, 22, resolveram passar descolorante no corpo para clarear os pêlos. O casal não gostou e xingou as meninas. O que seria um bate-boca transformou-se numa querela racial. Mireile e Michelle são negras. Ofendidas, chamaram a mãe, a delegada Maria de Lourdes Bernadete Silva e Silva, que estava na sauna. O casal foi preso ali mesmo. Motivo: racismo. Sem curso superior, Gleuber e Vilma amargaram três noites em celas superlotadas, cada um ao lado de dez bandidos, entre traficantes, estupradores e assassinos. Só foram soltos na terça-feira 13, depois de pagar fiança de 520 reais.

Gleuber e Vilma: abuso de autoridade

Bernadete e suas filhas justificam a acusação de racismo em detalhes. "Ele nos chamou de macacas e múmias e jogou batata frita na nossa mesa", relata Michelle. A delegada conta que chegou à beira da piscina para conversar com o comerciante e também foi destratada. "Ele perguntou como uma crioula pode ser delegada." Testemunhas confirmam as agressões verbais, incontinências inaceitáveis — ainda bem — nos dias de hoje. O fiscal do clube, Humberto da Silva, diz que ouviu Vilma, ela mesma vistosa morena, chamar uma das meninas de negrinha. "Nunca senti o preconceito tão de perto", lamenta Bernadete. Casada com um engenheiro mecânico, mãe de quatro filhas, a delegada é de uma família humilde de Criciúma, em Santa Catarina, e transformou-se em um exemplo do Brasil emergente. Com bolsas de estudo, fez duas faculdades. Hoje mora num apartamento em um bairro de classe média da cidade. Suas quatro filhas estudam em escolas e faculdades particulares. Desde que deu voz de prisão ao casal, recebeu dezenas de telegramas com mensagens de solidariedade.

Gleuber e Vilma rejeitam a pecha de racistas. "A Vilma tem vários parentes de cor. O que ocorreu no clube foi abuso de poder da delegada", contesta ele. O clube parou para ver a prisão dos comerciantes. As três filhas do casal também viram tudo. "Minha filha de 10 anos chora o tempo todo, a de 4 está arredia e a de 12 não vai mais à escola. Nós estamos sob efeito de sedativos", afirma Gleuber. Na noite de terça-feira, o casal conseguiu a liberdade provisória. O juiz Adilson Lamounier, da 2ª Vara Criminal, entendeu, a partir do artigo 20 do Código Penal, que os comerciantes não cometeram crime de racismo, mas de injúria, qualificado pelo uso de cor e raça como ofensa. "O racismo se configuraria se elas tivessem, por exemplo, sido proibidas de entrar no clube por ser negras", justifica o juiz. Está certo. Nem a Lei dos Crimes Raciais, em vigor desde 1989, prevê que xingamentos, por mais ofensivos que sejam, caracterizem racismo.

Daniella Camargos




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